Fórmula perfeita para esses filmes é perseguida desde quando o gênero atendia pelo nome de comédia de costumes

por GaúchaZH

Às vésperas do Dia dos Namorados, celebrado na próxima quarta-feira (12), é impossível não relembrar os filmes água com açúcar que há décadas funcionam como um estilo à parte do cinema. A fórmula perfeita para essas comédias românticas é perseguida desde quando o gênero atendia pelo nome de comédia de costumes. Em um campo delimitado por um receituário básico, brilham as que conseguem fazer funcionar uma engrenagem que se sustenta sobre um bom roteiro, são pilotadas por um diretor seguro e protagonizadas por atores carismáticos.

As primeiras comédias românticas a marcarem época traziam como grande inovação heroínas que representavam o novo perfil da mulher na sociedade.
Em Aconteceu Naquela Noite (1934), de Frank Capra, Claudette Colbert interpreta uma jovem rica e mimada que foge de casa para encontrar o marido com quem se casou em segredo. No ônibus rumo a Nova York, ela conhece um charmoso jornalista (Clark Gable). Eles passam a viagem inteira se implicando até descobrirem que nasceram um para o outro — argumento que norteia as comédias românticas até hoje.

Outro título inesquecível é Levada da Breca (1938), de Howard Hawks. Katharine Hepburn, imagem clássica da jovem determinada e emancipada nas telas, vive a bela herdeira que não sossega até ter em seus braços um paleontólogo (Cary Grant) com casamento marcado com outra moça. Esse modelo da menina maluquinha que se impõe diante de um galã meio bocó, Katharine repetiu no mesmo ano em Boêmio Encantador, de George Cukor, outra vez em parceria com Grant.

Quando a censura do Código Hays (1934-1967) foi imposta para zelar pela moral e pelos bons costumes de Hollywood, foi a vez de brilhar o talento de nomes como Billy Wilder, que disfarçavam na qualidade do texto a voltagem de polêmica e erotismo que em mãos menos habilidosas seriam barradas. Realizador do charmoso Sabrina (1954), com Audrey Hepburn encarnando outro extremo de heroína do gênero, a Cinderela de carne e osso, Wilder, mesmo sob intensa vigilância dos censores, apresentou em O Pecado Mora ao Lado (1995) o sufoco enfrentado por um homem casado (Tom Ewell) que descobre ser vizinho da espetacular Marilyn Monroe.

O marco mais recente no gênero foi estabelecido com Harry e Sally – Feitos um para o Outro (1989), de Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Crystal. O filme que fez da atriz o rosto preferido das comédias românticas nas décadas seguintes descreve de forma saborosa uma história de amor em que os protagonistas buscam por anos a alma gêmea que sempre esteve ao seu lado.

Um grande sucesso contemporâneo veio da Inglaterra: Quatro Casamentos e um Funeral (1994), filme de Mike Newell estrelado por Hugh Grant e Andie MacDowell que abriu o filão das comédias românticas temperadas pelo humor britânico, aquele marcado pela sutil ferocidade. Sinal dos tempos de maior longevidade, a terceira idade também passou a ser contemplada, em produções como Alguém Tem que Ceder (2003), com Jack Nicholson e Diane Keaton.

Mais recentemente, Questão de Tempo (2013) colocou Domhnall Gleeson e Rachel McAdams em uma história que coloca a viagem com o tempo como um complicador da relação do casal. Neste ano, a Netflix lançou Megarromântico, história que ironiza as comédias românticas ao colocar na tela um protagonista que as detesta e que acha que todas as histórias com finais felizes, na verdade, são apenas ilusões.

Apesar de não ser o forte de sua produção, o Brasil tem dois bons representantes. O sempre atual Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos Oliveira, que morreu neste ano, e o grande sucesso de bilheteria Se Eu Fosse Você (2006), de Daniel Filho.

Comédias românticas para ver a dois (ou não) neste 12 de junho, Dia dos Namorados

CLÁSSICAS

Aconteceu Naquela Noite (1934)

Neste filme de Frank Capra, o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha de um milionário que fugiu do iate do seu pai, Alexander Andrews (Walter Connolly), por ele não aprovar quem ela escolheu como marido. Warren busca uma matéria, mas vários fatos criam uma forte aproximação entre eles.

Levada da Breca (1938)

Com direção de Howard Hawks, Cary Grant vive o paleontólogo David Huxley, que vai jogar golfe com o objetivo de agradar seu oponente e facilitar a doação de US$ 1 milhão para o museu onde trabalha. Ele, então, conhece Susan Vance (Katharine Hepburn), uma rica e inconsequente herdeira que decide se casar com ele e utilizar todos os recursos possíveis para mantê-lo a seu lado.

A Loja da Esquina (1940)

Alfred (James Stewart) é o empregado de uma pequena loja de confecções e se apaixona por Klara (Margaret Sullavan), com quem se corresponde sem nunca ter visto pessoalmente.
A garota, no entanto, começa a trabalhar na mesma loja de Alfred e, sem saber que ele é a pessoa com quem troca correspondência, passa a hostilizá-lo. Quando ele finalmente descobre a verdade, acaba sendo demitido. A direção é de Ernst Lubitsch.

A Costela de Adão (1949)

Neste filme de George Cukor, Adam (Spencer Tracy) e Amanda Bonner (Katharine Hepburn) interpretam um casal de advogados que ficam em lados opostos de um caso polêmico: a ré tentou assassinar o marido ao flagrá-lo com a amante.

Sabrina (1954)

Humphrey Bogart e William Holden vivem dois irmãos pertencentes a uma poderosa família. Tudo corre bem até que a filha do motorista, vivida por Audrey Hepburn, retorna de um período em Paris. O personagem de Holden se apaixona por ela e o irmão tenta intervir na relação para evitar que uma fusão seja prejudicada, mas acaba também começando a amar a jovem. A direção é de Billy Wilder.

Confidências à Meia-Noite (1959)

Com direção de Michael Gordon, Doris Day vive a decoradora Jan Morrow e Rock Hudson interpreta um compositor. Os dois personagens são obrigados a dividir uma linha telefônica. Ela fica furiosa com o tempo que ele gasta falando com as namoradas, mas, sem saber, acabando saindo com ele, que quer conquistá-la se passando por outra pessoa.

Adorável Pecadora (1960)

Jean-Marc Clement (Yves Montand) é um milionário que descobre que vai ser satirizado nos palcos e resolve ir ao teatro, onde conhece a atriz Amanda Dell (Marilyn Monroe). O diretor da produção acredita que Jean-Marc é um ator de verdade e resolve selecioná-lo para representar a si mesmo. Focado em ficar perto da atriz, ele acaba aceitando o papel e se empenhando em uma conquista que vai mudar a sua vida. A direção é de George Cukor.

CONTEMPORÂNEAS

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

Dirigido e estrelado por Woody Allen, o filme apresenta a história do casal Alvy Singer, um humorista judeu e divorciado que faz análise há 15 anos, e Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora em início de carreira com uma cabeça um pouco complicada. Os dois passam a morar juntos em um curto espaço de tempo, mas logo começam as crises conjugais.

Harry e Sally – Feitos um para o Outro (1989)

Com direção de Rob Reiner, Meg Ryan e Billy Crystal interpretam Harry Burns e Sally Albright. Após sua formatura na Universidade de Chicago, eles seguem para Nova York e continuam se encontrando com o passar dos anos, até que percebem que estão, na verdade, apaixonados.

Uma Linda Mulher (1990)

No filme de Garry Marshall, Richard Gere vive o magnata perdido que pede ajuda a uma prostituta (Julia Roberts). Ele a contrata por uma semana para acompanhá-lo em compromissos e, para isso, ela se transforma em uma elegante jovem. A relação, contudo, evolui e os dois precisam superar diferenças e preconceitos para mantê-la.

Feitiço do Tempo (1993)

Bill Murray vive o meteorologista de um canal de televisão e vai a uma pequena cidade fazer uma matéria especial sobre o celebrado “Dia da Marmota”. Ele planeja ir embora o mais rapidamente possível, mas acaba preso no tempo, condenado a vivenciar para sempre os eventos daquele dia. A direção é de Harold Ramis e Andie MacDowell também está no elenco.

Quatro Casamentos e um Funeral (1994)

No casamento de um amigo, Charles (Hugh Grant) conhece Carrie (Andie MacDowell) e acredita ter se apaixonado por ela. Outros três casamentos e um funeral depois trazem novidades à relação deles. A direção é de Mike Newell.

O Diário de Bridget Jones (2001)

Em pleno Ano Novo, Bridget Jones (Renée Zellweger) decide que está na hora de tomar o controle de sua própria vida e começa a registrar em um diário tudo que pode ajudá-la a melhorar. Com isso, Bridget passa a escrever um livro erótico e bem-humorado, onde também coloca suas opiniões sobre os mais diversos assuntos de sua nova vida. O elenco ainda traz Hugh Grant e Colin Firth. A direção é de Sharon Maguire.

Embriagado de Amor (2002)

No filme de Paul Thomas Anderson, Adam Sandler vive Barry Egan, um pequeno empresário que passa por dificuldades financeiras e tem medo de amar. Tudo muda quando ele conhece Lena Leonard (Emily Watson), por quem se apaixona e enfrenta uma quadrilha.

Alguém Tem que Ceder (2003)

Harry Sanborn (Jack Nicholson) é um executivo que trabalha no ramo da música e é namorado de Marin (Amanda Peet). Os dois decidem visitar a mãe de Marin, Erica (Diane Keaton), em sua casa de praia. Mas Harry acaba sofrendo uma parada cardíaca durante a estadia e fica sob os cuidados da então sogra e do médico Julian (Keanu Reeves). Enquanto se recupera, ele percebe que está cada vez mais interessado por Erica. Mas Julian também sente atração por ela, tornando-se um rival de Harry. A direção é de Nancy Meyers.

Como se Fosse a Primeira Vez (2004)

Henry Roth (Adam Sandler) decide conquistar Lucy Whitmote (Drew Barrymore). Porém há um problema: ela sofre de falta de memória a curto prazo e se esquece rapidamente de fatos que acabaram de acontecer. Com isso, Henry é obrigado a conquistá-la, dia após dia, para ficar ao seu lado. A direção é de Peter Segal.

Letra e Música (2007)

Neste filme de Marc Lawrence, Hugh Grant vive um astro da música pop dos anos 1980 que tenta ressuscitar sua carreira e acaba conhecendo uma parceira talentosa (Drew Barrymore) para compor uma música.

500 Dias com Ela (2009)

Contado de forma não linear, este filme com Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt narra a história de um rapaz que acredita no amor, mas se apaixona por uma garota que pensa diferente. A direção é de Mark Webb.

Simplesmente Complicado (2010)

Nesta comédia de Nancy Meyers, Meryl Streep e Alec Baldwin são Jane e Jake,
ex-companheiros que mantêm uma relação amigável após o divórcio. Eles se reencontram na formatura de um de seus três filhos e acabam tendo um caso, o que faz de Jane agora amante do ex-marido.

Questão de Tempo (2013)

 

Rapaz tímido e sem jeito com as garotas (Domhnall Gleeson) descobre que herdou de seu pai (Bill Nighy) – e dos homens de sua família – o dom de viajar no tempo. Ele, então, decide usar a habilidade para conquistar sua grande paixão (Rachel McAdams), mas lidar com a manipulação do tempo e com as complexas artimanhas do amor tem lá suas armadilhas. A direção é de Richard Curtis.

À Procura do Amor (2013)

A massagista Eva, vivida por Julia Louis-Dreyfus, é uma mulher solitária que teme a partida de sua filha para a universidade. Acaba se aproximando e recebendo a compreensão de Albert, interpretado por James Gandolfini. Só que o casal em início de relacionamento será ameaçado com a chegada da ex-mulher de Albert, que se tornará cliente de Eva. A direção é de Nicole Holofcener.

Doentes de Amor (2017), de Michael Showalter, com Kumail Nanjiani e Zoe Kazan

De origem paquistanesa, o comediante Kumail se apaixona pela estudante de psicologia Emily. A relação, contudo, enfrenta algumas dificuldades quando as culturas diferentes dos dois entram em conflito. Além disso, Emily contrai uma doença misteriosa e acaba sendo colocada em coma, enquanto Kumail tenta enfim resolver o conflito emocional entre sua família e seu coração. O filme é baseado na história real dos roteiristas, Emily Gordon e Kumail Nanjiani.

Megarrromântico (2019)

O filme de Todd Strauss-Schulson tem o tom de sátiras aos clichês das comédias românticas. Uma arquiteta gordinha e desiludida com o amor (Rebel Wilson) bate com a cabeça após ser assaltada e acorda em um mundo paralelo, carregado do açúcar do afeto que costuma edulcorar esse tipo de narrativa, no qual se enrosca com um bonitão (Liam Hemsworth).

NÃO PODE FALTAR EM UMA COMÉDIA ROMÂNTICA

•Par central que combine como queijo e goiabada. Exemplos: Cary Grant e Katharine Hepburn em Levada da Breca, Doris Day e Rock Hudson em Um Pijama para Dois, Meg Ryan e Billy Crystal em Harry e Sally, Jack Nicholson e Diane Keaton em Alguém Tem que Ceder e Drew Barrymore e Hugh Grant em Letra e Música.
•Coadjuvantes carismáticos que seguram a peteca enquanto o casal fica no vai-não-vai. Podem ser os melhores amigos, filhos, um ex, um rival e até mesmo um cachorro.
•Trama que tempere alguma novidade na fórmula. Exemplos recentes de boas sacadas são a falta de memória de Como se Fosse a Primeira Vez ou a moda de revival dos anos 80 em Letra e Música e a narrativa engenhosa de 500 Dias com Ela.