Exibido pela primeira vez no Brasil em 21 de maio de 1999, primeiro filme da trilogia é considerado um ícone da ficção científica

Por GaúchaZH

No dia 21 de maio de 1999, estreava nos cinemas brasileiros Matrix, que havia entrado em cartaz nos EUA em março daquele ano. Dirigido pelas irmãs americanas Lilly e Lana Wachowski (à época, Andy e Larry), o longa estrelado por Keanu Reeves arrecadou US$ 463,5 milhões nas bilheterias mundiais e ganhou duas fracas continuações em 2003, Matrix Reloaded e Matrix Revolution.

 

Não foi um blockbuster bilionário como Star Wars: Ameaça Fantasma e teve renda inferior a de O Sexto Sentido, também lançados em 1999. Com suas ambições científicas e filosóficas, Matrix, entretanto, tornou-se um marco da cultura pop e influenciou esteticamente os gêneros ficção científica e ação. Veja 20 curiosidades sobre a trilogia:

1 – Plágio ou referências semelhantes?

O escritor escocês de HQs Grant Morrison acusou o longa de ter copiado a sua série The Invisibles. Publicada de 1994 a 2000, a trama apresenta uma “célula” de um grupo anarquista que tem como objetivo libertar a humanidade do domínio de seres transdimensionais.

2 – Cult x obscuro

 

Embora as Wachowski nunca tenham confirmado oficialmente, muitos espectadores da época apontaram que a estética visual gótica de Matrix tinha muitas semelhanças com o visual de Cidade das Sombras (1998), filme dirigido por Alex Proyas, também responsável pelo O Corvo (1994) e Eu, Robô (2004), sobre um homem aprisionado no que parece um mundo ilusório de noite perpétua.

3 – Fonte fantasma

Esta inspiração é oficial. As diretoras sempre manifestaram sua admiração pelo cultuado anime ciberpunk Ghost in the Shell (1995), baseado no mangá de Masamune Shirow, sobre uma agente ciborgue futurista que persegue um misterioso hacker. A produção ganhou uma bastante criticada adaptação norte-americana, em 2017, estrelada por Scarlett Johansson.

4 – Ação que pensa

O enredo de Matrix se alicerça em conceitos de Alegoria da Caverna, de Platão, diálogo em que o filósofo grego explica que os humanos podem se libertar da escuridão por meio da verdade. Há acenos também a Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832–1898) _ Neo é contactado pela resistência após receber instruções de “seguir o coelho branco” e Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard (1929–2007), em que o autor francês discute realidade, símbolos e sociedade.

5 – Não curtiu

Jean Baudrillard, a propósito, reprovou o primeiro longa, alegando que a produção seria “exatamente o tipo de filme que a Matrix produziria”. Nas outras duas produções as diretoras buscaram se alinhar mais aos pensamentos do filósofo – o que provocou a incompreensão ou a discordância de muitos fãs da franquia.

6 – Morpheus, de onde surge?

O personagem de Morpheus, interpretado por Laurence Fishburne, que trabalhou novamente com Keanu Reeves em John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017), é inspirado na série clássica dos anos 1990 Sandman, do inglês Neil Gaiman. Morpheus é um dos nomes do personagem principal, que tem inspirações ele próprio na mitologia grega, em que Morpheus é o deus dos sonhos. No filme, é Morpheus quem tem a incumbência de “despertar” Neo de seu sonho induzido pela simulação.

7 – Mais que uma trindade

Trinity, interpretada pela canadense Carrie-Anne Moss, que trabalhou recentemente em Jessica Jones, é uma referência à trindade religiosa. No catolicismo, Deus é definido em três partes: Pai (Morpheus), Filho (Neo) e Espírito Santo (o papel de Trinity). Além disso, a personagem é claramente inspirada na mercenária Molly Millions, do romance Neuromancer (1984), de William Gibson, obra seminal da estética cyberpunk – e responsável por cunhar o termo “ciberespaço”. Na história, Molly é uma vigilante ciborgue responsável por manter na linha o protagonista, o hacker Case.

8 – Ainda o cyberpunk

Não apenas as obras de William Gibson foram inspirações para Matrix. O longa também bebe em elementos de Nevasca (1992), romance de ficção científica do escritor Neal Stephenson – que antecipou tecnologia de realidade aumentada e que cunhou pela primeira vez o termo “avatar” para uma representação virtual de uma personalidade na rede.

9 – A religiosidade de Neo

A trajetória de Thomas A. Anderson, apelidado de Neo (um anagrama de One, “um” em inglês, numa referência a seu papel como “O Escolhido”) tem paralelos com a história de Cristo. Além de catolicismo, o protagonista representa elementos do gnosticismo, filosofia religiosa de caráter sincrético e esotérico. Thomas (forma inglesa de Tomás) é o nome do autor do evangelho apócrifo fundamental do gnosticismo.

10 – Números presidenciais

O nome “real” do membro da tripulação de Nabucodonosor que trai o grupo, Cypher (Joe Pantoliano), é Reagan. O personagem faz referência a Ronald Reagan (1911–2004), 40º presidente dos Estados Unidos, com dois mandatos, de 1981 a 1989. Ex-governador da Califórnia, Reagan teve uma administração marcada pelo liberalismo econômico radical e pelo agressivo conservadorismo nos costumes.

11 – Família Smith em Matrix

O ator Will Smith recusou o papel de Neo para protagonizar As Loucas Aventuras de James West. Mas sua esposa, Jada Pinkett Smith, participou de Matrix: Reloaded no papel de Niobe, humana de Zion e capitã da aeronave Logos, que auxilia a tripulação de Morpheus.

12 – A natureza do agente Smith

A placa do carro do agente Smith, interpretado por Hugo Weaving, da trilogia O Senhor dos Anéis e que voltaria a trabalhar com as Wachowski em V de Vingança (2006), é IS 5416, que se refere ao versículo da bíblia Ísaias, 54:16. O texto bíblico diz: “Veja, fui eu quem criou o ferreiro (blacksmith, em inglês) que sopra as brasas até darem chama e forja uma arma própria para o seu fim. E fui eu quem criou o destruidor para gerar o caos.”

13 – Referências bíblicas

A nave de Morpheus, Nabucodonosor, é uma alusão ao rei da Babilônia que construiu os famosos Jardins Suspensos. Zion é a forma inglesa para Sião – referência a uma fortaleza conquistada pelo rei bíblico Davi sobre um monte de mesmo nome próximo a Jerusalém. Por extensão, Sião passou a ser um sinônimo para a Terra de Israel como um todo. Essa referência fez o termo recorrente também entre os integrantes do Movimento Rastafari para definir a Etiópia, terra prometida do povo negro. Na Bíblia cristã, Sião é também o último refúgio da humanidade após o Armagedon.

14 – Homenagem ao cinema japonês

Outra piscadela dos diretores ao cinema japonês é o nome do personagem Capitão Mifune (Nathaniel Lees), que faz referência ao premiado Toshiro Mifune (1920–1997), icônico ator associado a muitos dos melhores filmes sobre samurais produzidos no Japão. Ele trabalhou com o lendário diretor Akira Kurosawa nos clássicos Rashomon (1950), Os Sete Samurais (1954) e Yojimbo (1961).

15 – A rede e a mente

O visual do Arquiteto, interpretado pelo polonês Helmut Bakaitis, é inspirado em Sigmund Freud (1856–1939), fundador da psicanálise, e em Vint Cerf, um dos fundadores da Internet.

16 – Tema de casa

As diretoras requisitaram que os atores lessem livros de filosofia fundamentais para o filme, sendo eles Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard, e Out of Control: A Nova Biologia de Máquinas, Sistemas Sociais e o Mundo Econômico, de Kevin Kelly.

17 – 1100101

A porta do apartamento de Neo enquanto ele ainda vive como um hacker na Matrix é 101. O número faz referência à Sala 101, aposento de tortura mencionado no livro 1984, de George Orwell (1903–1950), no qual os dissidentes e os caídos em desgraça no regime do Grande Irmão são submetidos a seus piores medos. O número também é composto apenas dos algarismos 0 e 1, utilizados nos sistema binário, a linguagem que torna possível o processamento interno dos computadores.

18 – Trilha sonora

Se em sua trama Matrix antecipou conceitos e em seu visual influenciou o futuro, sua trilha sonora é, definitivamente, um produto de seu tempo. Entre os nomes que compõem as músicas dos filmes estão artistas que mesclavam peso e influências da música eletrônica – e cujo auge da popularidade ficou na primeira década do século 21: Linkin Park, Marilyn Manson, Rob Zombie e Rage Against the Machine, entre eles.

19 – Armamento

A arma usada por Persephone, interpretada pela estrela italiana Monica Bellucci, uma COP .357 Derringer, é a mesma usada por Leon Kowalski (Brion James), um dos replicantes fugitivos em Blade Runner (1982). No filme, em um universo em que uma corporação desenvolve réplicas humanas para serem usadas como escravos em colônias fora da Terra, um caçador de recompensas (Harrison Ford) é chamado a caçar quatro delas, que fugiram para se esconder no planeta.

20 – Cenas de ação

Os atores treinavam cerca de sete horas por dia para as cenas de ação. As lutas de artes marciais foram coreografadas pelo chinês Yuen Woo-ping, diretor de cinema de Hong Kong que trabalhou com Jackie Chan em obras como O Mestre Invencível (1978) e Punhos de Serpente (1978).