Construção histórica foi palco de tramas no cinema e na literatura, além de ter sido retratada em pinturas

Por GaúchaZH

Nas torres de Notre-Dame, a catedral mais famosa do mundo que oferece uma vista privilegiada de Paris, o corcunda Quasímodo viveu isolado, sofrendo pela bela cigana Esmeralda. Nesta segunda-feira (15), a construção erguida entre os séculos 12 e 13 foi atingida por um incêndio de grandes proporções.

O topo da torre central veio abaixo, comprometendo a estrutura da construção histórica que serviu de cenário para livros, quadros e filmes, como a animação O Corcunda de Notre-Dame (1996), clássico da Disney — neste, as gárgulas que adornam o topo da catedral ganham vida e são amigas do homem solitário e de aparência esquisita.

Confira algumas produções artísticas que têm a lendária catedral como tema ou mesmo cenário:

Na literatura

O gigante francês Victor Hugo (1802-1885) escreveu o romance definitivo sobre a Catedral de Notre-Dame (e um dos maiores clássicos da literatura). Foi publicado em 1831, com o título original Notre-Dame de Paris, remetendo diretamente à Igreja.
A denominação O Corcunda de Notre-Dame só ganharia força depois da publicação da tradução em inglês. Com o livro, Victor Hugo assentou muitas regras para o romance histórico praticado ao longo dos séculos seguintes, criou uma obra que já teve incontáveis adaptações para outras mídias e ainda contribuiu para salvar a própria catedral. Sim. Embora a maioria das adaptações concentre-se na história de Quasímodo, o sineiro corcunda da catedral, adotado pelo maléfico arcediago Claude Frollo, e do amor dos dois homens pela cigana Esmeralda. O escopo do livro, contudo, é mais abrangente, uma verdadeira carta de amor ao edifício. Em mau estado de conservação, o prédio corria o risco, à época, de ser demolido, uma vez que a arquitetura “gótica” francesa era considerada sombria e ultrapassada e estava sendo substituída rapidamente na cidade por outros modelos arquitetônicos mais “modernos”. O imenso sucesso do livro (Hugo foi, verdadeiramente, um dos primeiros escritores “best-sellers”), mudou a percepção pública da própria Igreja, e detonou um campanha pela restauração do edifício. É um daqueles raros casos em que o livro e o edifício no centro de sua trama partilham uma ligação indelével.

Talvez pelo caráter monumental da obra de Hugo, outras tentativas de levar Notre-Dame à ficção literária se deram mais aproveitando a grandiosidade do cenário e sua importância na história da França. Como a igreja foi a sede dos processos contra os cavaleiros templários no século 14, ela pode ser vista logo no começo de O Rei de Ferro, romance histórico de Maurice Druon, o primeiro de sua série de sete volumes Os Reis Malditos, sobre os conflitos políticos entre França e Inglaterra que levariam à Guerra dos Cem Anos. O Rei de Ferro concentra-se no reinado de Felipe, o Belo (1285 até 1314), o rei que debelou os Templários e teria sido amaldiçoado pelo líder da Ordem, Jacques de Molay. Chama a atenção a descrição de Druon de uma Notre-Dame “toda branca” por ter sido construída há apenas 70 anos no período da História. Os julgamentos dos templários em Notre-Dame também são brevemente mencionados em O Pêndulo de Foucault, o romance de Umberto Eco publicado em 1988.

No cinema

O sucesso de O Corcunda de Notre-Dame não se restringiu por muito tempo às páginas da literatura – tendo ganhado versões teatrais ainda na primeira metade do século 19. Foi o cinema, contudo, que ajudou a cristalizar o personagem e sua ligação com as imponentes torres góticas da catedral. Uma das primeiras grandes adaptações da obra para o cinema se deu em 1923. Esse O Corcunda de Notre Dame é um filme mudo e en preto e branco protagonizado por um dos ícones do cinema de horror da primeira metade do século 20, Lon Chaney. O intérprete de Quasímodo era conhecido no auge de sua carreira como “O Homem de Mil Faces”, pela facilidade com que conseguia, com o uso de maquiagem e de sua impressionante mobilidade facial, alterar drasticamente sua fisionomia. A cigana Esmeralda desta pérola do cinema mudo foi Patsy Miller.

Ao longo das décadas, a história foi reencenada com novos elencos. Em 1939 o inglês Charles Laughton deu vida a Quasímodo. Em 1956, foi a vez de Anthony Quinn, em um filme dirigido por Jean Delannoy (diretor de A Sinfonia Pastoral). A versão contemporânea mais conhecida nas últimas décadas é a da versão animada realizada pela Disney em 1996, com Tom Hulce (o Mozart de Amadeus) como a voz de Quasímodo. No puro estilo Disney, até as famosas gárgulas no topo das torres de Notre-Dame ganham vida e (literalmente) entram na dança. Na esteira de outras adaptações recentes semelhantes, como o ainda em cartaz Dumbo, a Disney prepara para breve uma nova versão do filme, live-action.

Fora do universo das adaptações do Corcunda, a catedral fez aparições em outras obras, como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (é o local do funeral da mãe de Amélie) ou no malfadado misto de aventura e horror Van Helsing (é o local em que o protagonista encontra e mata o monstruoso Mr. Hyde)

Na pintura

Antes de a Torre Eiffel tomar seu lugar no centro de Paris e no imaginário mundial como a imagem definitiva associada a capital francesa, a Catedral de Notre-Dame disputava esse posto. Não é à toa, portanto, que a obra dos impressionistas, dedicados a capturar de modo vibrante a luz natural e os cenários vivos da França de seu tempo, tenha retratado a igreja tantas vezes. Em 1901, por exemplo, Maximilien Luce pintou o Quai Saint-Michel com uma exuberante Notre-Dame ao fundo, banhada em luz dourada. Henry Matisse, morador durante parte de sua vida no mesmo Quai Saint-Michel, pintou o cenário que via de seu estúdio várias vezes entre 1900 e 1914. Realizou, portanto, um bom número de versões da catedral, muitas vezes enquadrada pela moldura de sua janela. De esquetes mais detalhados até telas em que a pincelada simplesmente esboça a silhueta da catedral, no limite do abstrato. Um de seus últimos trabalhos apresenta uma ousada vista em azul com a catedral diminuta ao fundo de uma janela.

Antes dos impressionistas transformarem a fachada em um tema recorrente, outras pinturas já haviam apresentado versões do interior da catedral. A mais famosa delas talvez seja a Coroação de Napoleão, de Jacques Louis David, concluído em 1807. Condizente com seu tema, o momento em que Napoleão foi entronizado à frente do império francês, em 1804, a pintura é monumental em suas dimensões (10 metros de largura por seis de altura) e em seu minucioso trabalho de casar a suntuosidade do interior da igreja com o apelo de Napoleão, o único personagem na tela povoada a fazer um gesto ativo: erguer a coroa que colocará na cabeça de sua Josefina.