Na visão do diretor, que foi chamado de “esquisito” na infância, o elefante usa a razão de seu julgamento para se libertar

Por GaúchaZH

Tim Burton nunca foi fã de circo, ficava irritado com as imagens de animais em jaulas e, sobretudo, com os palhaços. Mas abandonar tudo e unir-se a um “grupo de desajustados” sempre foi uma ideia que o agradou.

E tudo fica ainda melhor se o espetáculo tem um elefante que pode voar: o aclamado cineasta de 60 anos está pronto para o lançamento do remake live-action do clássico da Disney Dumbo. “O que eu gostava em Dumbo era a ideia da imagem de um elefante que voa e que é um desajustado. Este tipo de coisa tem um grande apelo para mim”, disse, em entrevista à AFP.

O diretor dos célebres Edward Mãos de Tesoura (1991) e Ed Wood (1994) contou que na escola era considerado “esquisito”, o que o deixou livre, em parte, para ser o que desejava, sem precisar fingir. Ao mesmo tempo, é um sentimento presente em seus filmes.

“O desajustado usa essa coisa pela qual é julgado para algo positivo”, disse. No caso de Dumbo, são as orelhas gigantes.

Nesta versão os animais não falam — Dumbo não tinha diálogos na original de 1941 — e os personagens humanos têm um papel mais relevante, ao contrário da animação em que ficavam em segundo plano e eram percebidos quase como vilões.

Ao contrário do remake de A Bela e a Fera (2017), quase uma cópia do clássico animado, Dumbo é bastante diferente do original. “Me senti liberado porque não tinha que seguir muito a trama original”, disse o diretor. “Não é realmente uma história, e sim uma fábula muito simples”.

Mas o filme conserva naturalmente vários aspectos do original, como a cena comovente com a canção Baby Mine, quando Dumbo visita a mãe enjaulada.

De Batman a Dumbo

Em Dumbo, que estreia no dia 28 de março, o pequeno elefante nasce no circo de Max Medici (Danny DeVito) e é colocado sob responsabilidade da família de Holt Farrier (Colin Farrell), um veterano da I Guerra Mundial que durante os combates ficou viúvo, perdeu um braço e seu número no circo. Entre suas frustrações, ele não consegue estabelecer uma ligação com os filhos, que são os responsáveis por descobrir o que Dumbo é capaz de fazer.

Filmado em estúdios gigantescos nas proximidades de Londres, o principal desafio da produção, revelou Burton, foi o fato de seu protagonista nunca ter pisado no set: o elefante foi criado por computador e o resultado final só foi visto há poucas semanas.

“Tínhamos um animal de pelúcia. Nós tínhamos um cara, Ed (Osmond), que aprendeu movimentos de elefante, que usava um traje especial. Foi muito valioso”, disse.

Embora Burton nunca tenha sido um fã do circo, ele sempre curtiu a ideia “romântica” de fugir para se unir a um grupo.”Sempre gostei do conceito e da ideia de que o circo reúne pessoas de todo o mundo que não se encaixam na sociedade e viram uma família de esquisitos. Disso eu gosto”.

Burton volta a trabalhar com DeVito e Michael Keaton, seus parceiros em Batman: O Retorno (1992), mas agora com papéis invertidos. O antigo herói interpreta o vilão da história, V.A. Vandevere, dono de um parque de diversões futurista que se associa a Medici para aproveitar o número de Dumbo.

Altos e baixos

O primeiro trabalho de Burton foi nos estúdios Disney, mas durou pouco.”Não tinha paciência para ser animador”, declarou, sem esconder um sorriso, antes de fazer piada e afirmar que foi contrato e demitido pelo estúdio mais vezes do que consegue lembrar. “É uma longa história familiar, de alguma forma estranha. Tem seus altos e baixos”.

Embora tenha predileção pelos desajustados, Burton resgata nos clássicos da Disney — mais edulcorados que suas criações — a abordagem de temas difíceis como a morte ou a separação familiar, que considera tabu para as audiências modernas.

O diretor recordou de uma exibição de Pinóquio (1940) com “crianças chorando e pais gritando”. “O que mudou? O mundo está pior, mas as pessoas são mais protetoras, não sei”.

Ao ser questionado sobre novos projetos, Burton nega estar trabalhando em uma sequência de Beetlejuice. Duas vezes indicados ao Oscar (ambas com animações, A Noiva Cadáver e Frankenweenie), o diretor afirma que não perde o sono com o prêmio. “Eu me sinto sortudo de apenas fazer filmes. De fato eu saio do caminho de fazer filmes para vencer o Oscar porque é um processo exaustivo”.