Por GaúchaZH

Universal City, Califórnia – O que você vê? Se estiver ouvindo “Homecoming”, o podcast da Gimlet Media que virou sucesso cult, a resposta é nada. Thriller psicológico que se passa quase todo dentro das instalações misteriosas de uma empresa na Flórida, sua história é transmitida exclusivamente através de sons, muito mais que outros podcasts de ficção recentes, ou os dramas de rádio cheios de suspense de antigamente. Supostamente composta de registros de telefonemas e sessões de terapia encontrados ao acaso, a história não conta nem com um narrador para lhe dizer onde e em que época está.

Para os criadores, Eli Horowitz e Micah Bloomberg, isso significa que tudo depende dos personagens. “Você não pode se esconder atrás da fotografia ou de atores e roupas bonitas. Não tem sequências de ação, nem sexo, pelo menos de uma forma convincente ou interessante. O único recuso com que pode contar é uma cena envolvente”, explica Bloomberg.

Mas então o que fizeram os criadores de “Homecoming” quando Hollywood chegou chegando, na intenção de transformar seu podcast em série badalada de TV? Sob vários aspectos, eles se aproveitaram dos orçamentos (muito) mais robustos e recursos novos e descolados usados nos seriados mais sofisticados – mas mesmo com toda a grandiosidade, fizeram questão de manter o clima íntimo, quase claustrofóbico, do podcast.

Em uma tarde de março passado, no set de “Homecoming”, entre uma tomada e outra, a dupla descreveu a transformação. Fazendo as vezes do prédio, construíram um complexo enorme de dois andares dentro do estúdio de som, um dos maiores no terreno da Universal Studios; convidaram Sam Esmail, criador do thriller distópico “Mr. Robot”, elogiadíssimo pela crítica, para dirigir – e tem também Julia Roberts, em sua primeira série para a TV. “Nem sei como foi que aconteceu”, confessa Horowitz.

O resultado é “Homecoming”, do Amazon Prime, que já ganhou uma segunda temporada. Na adaptação, Roberts interpreta Heidi Bergman, terapeuta que ajuda militares veteranos de guerra a se readaptarem à vida civil. Funcionária do Homecoming Transitional Support Center, ela se aproxima de um dos pacientes, Walter Cruz (Stephan James), soldado ansioso para melhorar, e entra em choque com Colin Belfast (Bobby Cannavale), seu chefe, condescendente e insuportável. A história se alterna entre os dias atuais e 2022, quando Heidi aparece como garçonete de um restaurante caído de frutos do mar, dando a impressão de não se lembrar muita coisa da vida/profissão anterior.

O trabalho de adaptação para a TV começou no início de 2016, quando a Universal Cable Productions comprou os direitos da história e passou a procurar um diretor. Esmail, fã do podcast estrelado por Catherine Keener (Heidi), Oscar Isaac (Walter) e David Schwimmer (Colin), a princípio foi contra a ideia de uma adaptação, temendo arruinar uma obra que já era boa. Porém, depois de fazer três maratonas, foi enxergando as possibilidades, e não só porque se baseava nos mesmos temas – maquinações corporativas escusas, vigilância integral e assustadora – que sua obra premiada, “Mr. Robot”. “Não é porque eu li o roteiro e vi, ah, tem uma empresa sacana e paranoia, estou nessa”, explica.

Ele encarou a obra mais como uma revisita aos filmes de suspense de Alfred Hitchcock e Brian De Palma, calcados nos personagens, e um mês depois, após contar seus planos para Horowitz e Bloomberg, conseguiu o emprego. Curioso é que Roberts também virou fã do podcast (ela conta que fez maratona enquanto arrumava os milhares de pecinhas de Lego do filho mais novo), e os dois conversaram no FaceTime sobre a possibilidade de trabalharem juntos. Esmail estava para se casar em duas semanas (com Emmy Rossum, atriz de “Shameless”), e durante os primeiros 45 minutos, a atriz o bombardeou com perguntas sobre a cerimônia, enquanto ele quius saber tudo dos filhos dela. “Parecíamos duas comadres. Tive a impressão de que tínhamos estudado juntos”, revela a estrela.

Roberts acabou topando o projeto, sob duas condições. “No topo da lista, a exigência de que Sam dirigisse todos os episódios. E precisava que Micah e Eli escrevessem todos os roteiros antes de começarmos a gravar.” (A princípio, Esmail ia dirigir só os dois primeiros, mas uma pausa de um ano em “Mr. Robot” permitiu que atendesse ao pedido da estrela.)

Com o elenco e a equipe técnica praticamente definidos, Horowitz e Bloomberg começaram a escrever a primeira temporada. “Tínhamos a vantagem enorme de ter saído do podcast, ou seja, já sabíamos que tínhamos testado o material em um nível elementar, quase molecular”, conta Bloomberg.

Em termos da trama, a série se mantém bem fiel ao original; a diferença apenas é o volume maior e mais intenso. Os criadores acrescentaram vários personagens para aprofundar o entendimento do público sobre o que está acontecendo nos bastidores (Alex Karpovsky, como o espertalhão corporativo que distribui lições de vida) e na mente do alto escalão (Marianne Jean-Baptiste, como mãe cética de Walter). Algumas cenas acabam se tornando mais dramáticas, uma vez que os eventos no podcast dos quais sabemos mais tarde, através de gravações escondidas, aqui são apresentadas em tempo real.

“Nós tivemos um pouco de dificuldade para impedir que a série degringolasse para um thriller de gênero paranoico, de grandes proporções. A tendência natural era mesmo expandir, então a solução foi deixar a coisa mais humana”, explica Horowitz.

A dupla descobriu que trabalhar na série é mais fácil que no podcast (“Na primeira você pode mostrar uma pista, enquanto que no segundo você tem que achar um jeito de revelar o que ela diz”, afirma Horowitz) e o ritmo é menos frenético (65 dias para gravar a temporada de dez episódios, em vez de quatro dias para pôr a primeira temporada no podcast). E também tem mais pessoal para ajudar. Enquanto os técnicos correm de lá para cá, os dois esticam o pescoço, e um olhar surpeso. “Olha só toda essa gente!”, se espanta Horowitz.

O fato é que os fãs mais radicais do podcast não precisam ter medo; ele vai continuar a existir, com o seriado televisivo como experiência complementar. “Parte do motivo por que saímos do podcast um pouco foi que eu queria que o público pudesse curtir ambos sem ter que sacrificar um dos dois. Quis trabalhar a série como uma criatura com vida própria”, conclui Esmail.

Por Robert Ito