Aos 64 anos, o artista ainda faz dezenas de apresentações ao vivo por ano

por GaúchaZH

Nova York – Sob vários aspectos, o mundo de Jerry Seinfeld é o mesmo que sempre foi: ele continua sendo reconhecido como um comediante de stand-up único, astro e cocriador do sitcom que leva seu nome, e apresentador do talk show da Netflix, “Comedians in Cars Getting Coffee”. Aos 64 anos, ainda faz por ano dezenas de apresentações ao vivo.

Acontece que esse mundo da comédia em que habita está passando por um período turbulento: enquanto alguns se sentem pouco à vontade, sem saber o que podem ou não falar no palco, outros foram afetados por escândalos que eles próprios causaram. Bill Cosby, que já foi um dos heróis criativos de Seinfeld, foi condenado por agressão sexual em abril e sentenciado em setembro; Roseanne Barr ressuscitou seu sitcom no canal ABC só para vê-lo cancelado em maio, depois de ter postado um tuíte racista; Louis C.K., que em 2017 admitiu vários atos de má conduta sexual, retomou as apresentações em clubes, gerando protestos do público e críticas dos colegas.

Seinfeld sabe que essas questões complicadas e desconfortáveis não podem ser evitadas, dado seu prestígio no ramo, mas ainda está assimilando esse processando em tempo real. Durante o nosso almoço, ele refletiu sobre o momento cultural atual, o que acha necessário. “Nós vamos descobrindo como lidar com as coisas conforme elas vão acontecendo, e há um aspecto muito estimulante, muito empoderador nisso. Não sabemos exatamente quais são as regras.”

Seinfeld também falou de sua visão do stand-up nesse período de ansiedade. Aí vão os trechos editado de nossa conversa.

P: Você ainda acha importante trabalhar material novo nos clubes pequenos?

R: Fui para Long Island ontem, cheguei em casa às sete, peguei o paletó e já estava saindo de casa quando minha mulher quis saber aonde eu estava indo; “Tenho que ir ao clube”. “Pra quê?”, ela quis saber. Estamos casados há 18 anos e ainda tenho que responder esse tipo de pergunta. “Preciso testar umas coisas novas aí.” Se depender de um verdadeiro comediante, ele quer se apresenta toda noite.

P: Há muita tensão no mundo da comédia hoje, e por vários motivos.

R: Com certeza. Até comentei com o público outro dia, “Por que vocês vêm aqui para ver esse tipo de coisa? É por que gostam de ver alguém se expondo?”. Segundo a teoria de Chris Rock, antigamente, quando você ia assistir a Neil Young ou Jimi Hendrix, você via o artista por inteiro; hoje a maioria exibe apenas uma parte do é, de seu talento. Com o comediante, a coisa continua sendo integral; quem está ali é o roteirista, o diretor, o apresentador. É o talento todo à mostra, em um pacote único, e isso é bem intenso. Por isso que o stand-up ainda é tão popular.

P: Então você também sente essa ansiedade?

R: Claro, ainda mais com esse lance do Cosby, do Louis, da Roseanne. Acontece também que quem é da comédia está acostumado com essa de ” te odeio, some daqui”. A gente está acostumado. Todo comediante já passou por isso, já foi vaiado, xingado, achincalhado, então chega uma hora que nem liga mais. Ou você aguenta o tranco ou vai fazer outra coisa da vida.

P: Tem as pessoas que foram punidas pelo comportamento fora do palco – falaremos delas mais tarde. Já as que foram penalizadas pelo que disseram em cena, você acha que elas têm direito a uma “aura de proteção” em suas apresentações?

R: Não acho, não. O público automaticamente filtra o que você diz. Sabe quantas pessoas continuam nesse ramo desde que comecei? Na época, havia centenas de homens e mulheres, 99 por cento sumiram, e olha que alguns eram excelentes. Por que sumiram? Por todos os motivos que se possa imaginar, todas as fragilidades humanas que existem. Cada milímetro da sua personalidade acaba afetada, vítima do famoso “Vamos cutucar para ver se ele reage”. A coisa é assim no stand-up.

P: Como você conseguiu evitar essas armadilhas?

R: Tive muita sorte. Nos anos 70, eu me vi cercado pela cocaína e pelo alcoolismo, mas como nenhum dos dois me interessava, nunca cheguei nem a presenciar essas coisas. Nunca vi o pó na minha vida, assim, ao vivo. Sério. Claro que sabia que rolava, mas eu estava em outra. Sabia que aquilo não era para mim. Acho que tenho sorte por sentir uma aversão natural pelas coisas que considero tóxicas – e olha que a lista é longa. Bem longa.

P: Você acha que agora tem que ter mais cuidado com o que fala no seu show?

R: Não, porque não mexo nas áreas polêmicas ou problemáticas. Quer dizer, faço só uma menção ao #MeToo comentando sobre as meteorologistas: “Acho que as moças do tempo têm que pegar leve na TV. Estamos tentando nos adaptar às novas diretrizes que acabaram de ser impostas, de uma forma bem espontânea. Vocês têm que colaborar nos programas regionais, com esses vestidinhos, às nove e meia da manhã.”

P: E você acha que seu público aprova esse tipo de brincadeira?

R: Ah, sim. Mas se você comete um erro, coisa que todo mundo faz, vai repercutir e na próxima você pode evitar. Claro que também pode simplesmente ignorar e continuar com a brincadeira, como se nada tivesse acontecido. O que mais me deu saudade durante o tempo em que fiz a série para a TV foi esse lado “povão” do stand-up – aqueles momentos tensos, viscerais, confusos. Tem muita paparicação nos outros setores do show business. O stand-up é exatamente o oposto; você se joga no meio da multidão.

P: Você acha que os comediantes entenderam errado lá no início, e acreditaram que podiam fazer quisessem?

R: Mas aí é que está, você não pode fazer o que dá na telha, só o que funciona – quer dizer, se quiser fazer carreira. O que eu faço no palco é o que 300 tipos de públicos decidiram que funciona. Isso é bom, isso não é legal. Você tem que fazer a plateia rir um tanto, senão ela não volta. É por isso que me apresento de terno. É um sinal, tipo “não estou aqui de gaiato, mas a trabalho”.

P: É muito cedo para Louis C.K. voltar a se apresentar?

R: Não. O problema foi a forma como aconteceu, o pessoal não gostou. Teve gente que achou o fim ele voltar a trabalhar. Já sabemos o que acontece: o sujeito faz alguma coisa errada, é execrado, se exila. E sofre, porque queremos que ele sofra. Adoramos o tombo, o desastre, o estrondo da queda. E também a superação, a volta. A humilhação. Você vai rastejar? Quanto tempo? Vai chorar? Vai ao programa do Jimmy Swaggart? Acho que o público estava esperando que Louie fizesse isso; estava nos devendo uma. Nós, o tribunal da opinião pública, decidimos que, se vai voltar, então que mostre que sofreu bastante. Só que ele não fez nada disso.

P: No caso do Cosby, você teve que reavaliar por que fez dele um ídolo antes de tudo isso vir à tona?

R: Obviamente eu não sabia de nada (sobre seus crimes). Se eu repenso a idolatria? Não, não vou desistir de ter meus heróis. Você pode até ficar chocado, mas sou um esperançoso. Gosto de acreditar nas pessoas. Já disse para a Ellen DeGeneres, nós, humanos, temos um relacionamento abusivo uns com os outros. Detestamos, desprezamos as pessoas. Aí vemos alguém tocando um belo concerto de piano e, “Ah, as pessoas são o que há de melhor.” Elas nos conquistam só para voltarem a ser maltratadas.

Por Dave Itzkoff