A autora J.K. Rowling escreveu um texto a respeito no site Pottermore

Você com certeza já ouviu falar no uso das associações psicológicas das cores em peças publicitárias e obras de ficção: o logo do McDonald’s teoricamente é como é porque, dizem, o vermelho e o amarelo são cores que estimulam a fome e o consumo. Os vilões da Disney frequentemente estão ligados ao roxo e ao verde (vide as roupas e o visual de Malévola, Dr. Facilier, Úrsula, Frollo, Capitão Gancho), cores associadas respectivamente à nobreza e ao azar. E os criadores de Breaking Bad chamaram atenção ao confirmar a teoria dos fãs de que as cores usadas por cada personagem ao longo da série eram cuidadosamente pensadas: Walter White usava verde para representar a ganância (mas aparecia de vermelho em episódios em que matava alguém); Jesse estava de amarelo, cor associada aos vícios, na maior parte das temporadas em que usava metanfetamina; e Marie, que sempre usava roxo, apareceu diversas vezes de preto (cor clássica do luto) logo antes da morte do marido.

Em Harry Potter não é diferente – e a própria J.K. Rowling já falou a respeito, em um texto publicado no site Pottermore. Já reparou que muitos bruxos (muitos mesmo, desde O Menino Que Sobreviveu, primeiríssimo capítulo de A Pedra Filosofal) vestem-se com os mesmos roxo e verde dos vilões da Disney? As associações são semelhantes: Rowling explicou que, especialmente na Europa, o roxo sempre foi ligado à realeza e à religião – dos vestidos das damas da alta sociedade (tingidos com a cor, uma das mais caras em séculos passados) aos anéis dos bispos (frequentemente enfeitados com ametistas), a tonalidade dá uma sensação de importância e exclusividade. Não é a toa que Rowling usa a cor especialmente nas vestes de Alvo Dumbledore, “o maior bruxo de sua era”. Nos filmes, o roxo das vestes do bruxo vai “desbotando” conforme a história avança, o que representa simultaneamente o crescimento do poder de Voldemort e o cansaço de Dumbledore por lutar contra as forças das trevas.

O verde, aqui nas Américas, nos faz pensar mais frequentemente em fortuna ou esperança; mas, segundo a escritora, na Europa há uma outra associação, um pouco mais sombria: o verde seria a cor do povo das fadas, que teria ciúmes de seu uso por humanos – então recomendava-se ter cautela ao vestir roupas ou usar acessórios dessa cor (é importante lembrar que as primeiras lendas a respeito das fadas não tinham nada a ver com os seres minúsculos, bondosos e “fofinhos” que conhecemos hoje: magníficas e terríveis, as fadas dos mitos originais eram seres temperamentais, muito inteligentes, e frequentemente vingativos). Em casamentos, por exemplo, o verde era proibido: acreditava-se que o tom poderia atrair azar e morte prematura. Não é à toa que Rowling o escolheu para a Marca Negra dos Comensais da Morte e para a luminosidade emitida pela maldição Avada Kedavra. Assim, o roxo e o verde representam os dois lados da magia: o nobre e o destrutivo.

A Sonserina, aliás (a casa mais associada às Artes das Trevas), tem o verde como sua principal cor – mas Rowling explica que a tonalidade foi escolhida também por outro motivo: a autora associou cada casa de Hogwarts a um dos quatro elementos clássicos. O verde da Sonserina representa também a água (e sua Sala Comunal fica logo abaixo do Lago de Hogwarts, com janelas que dão vista para a paisagem subaquática); o vermelho da Grifinória (cor também ligada à coragem e à bravura), o fogo; o azul da Corvinal, o ar (e também o próprio céu pelo qual voa a águia, seu símbolo principal); e o amarelo da Lufa-Lufa, a terra (e, não à toa, a diretora da casa, Professora Sprout, dá aulas de Herbologia).

Até os nomes próprios ligados a cores foram selecionados a dedo por Rowling: Rubeus (“rubro”) e Albus (“alvo”) fazem referência ao “vermelho” e ao “branco”, dois componentes místicos importantes na alquimia – tema bastante explorado em A Pedra Filosofal. Assim como os tais componentes se complementam, Rowling acredita que as duas cores também têm significados complementares: o vermelho representando a paixão, o calor e os atributos físicos; o branco simbolizando o autocontrole, o brilhantismo, o idealismo e os atributos mentais – e ambos sendo importantes e necessários em diferentes momentos da vida de Harry, que, nas palavras de Rowling, “procura figuras paternais em seu novo mundo”.

Em relação a cores como pêssego, salmão e tons pastéis, a escritora não é tão profunda: justifica que os tons lhe parecem “pouco mágicos”, e portanto são os favoritos dos Dursley. E que tal o rosa-choque que aparece nos cabelos de Nymphadora Tonks? Segundo Rowling, a cor pouco convencional (pelo menos para o mundo bruxo) é atitude pura: um jeito rebelde de dizer “sim, eu tenho um pai nascido trouxa e não me envergonho disso.” É a mesma lógica do laranja e de outras cores berrantes usadas pelos Gêmeos Weasley em suas Gemialidades: um desafio explícito aos tons de cinza que se espalham pelo mundo bruxo conforme os Comensais da Morte tomam o Ministério e o poder. É como se os próprios personagens houvessem estudado e estivessem utilizando a teoria das cores em suas decisões estéticas – e não apenas sua criadora.