Fantasia é um longa que faz parte da extensa lista dos “Clássicos Disney” – mas o filme foge totalmente ao padrão de todos os outros ditos clássicos: Fantasia não traz uma história, uma narrativa tradicional com começo, meio e fim – ele é mais como um mega videoclipe, com oito diferentes sequências que ilustram trechos icônicos de música clássica. Terceiro longa de animação produzido pela Disney, Fantasia estreou em 1940, com músicas executadas pela Orquestra da Filadélfia, com condução de Leopold Stokowski e direção de Joe Grant e Dick Huemer. O filme ganhou uma sequência no final de 1999, com o sugestivo título Fantasia 2000.

Saiba mais sobre as músicas que fazem parte deste clássico – e os trechos do filme que correspondem a cada uma:

Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach

Música de órgão escrita por Johann Sebastian Bach entre 1703 e 1707, a faixa é um dos trabalhos mais famosos do repertório de órgão, já tendo sido usadas em diversos filmes e jogos. Este trecho do filme mostra a própria orquestra apresentando a música, com bastante uso de sombras e efeitos especiais – algo que foi considerado bastante inovador para a década de 1940.

O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky

A segunda parte de Fantasia traz como trilha sonora uma das composições para ballet mais famosas de todos os tempos: O Quebra-Nozes, do russo Tchaikovsky, apresentado pela primeira vez em dezembro de 1892. Para o filme, os desenhistas decidiram se afastar do óbvio e criaram uma representação das estações do ano usando fadas, flores, cogumelos, peixes – é uma das partes visualmente mais bonitas do filme, e que mais se parece com uma coreografia.

O Aprendiz de Feiticeiro

Em seguida vem O Aprendiz de Feiticeiro, provavelmente a parte mais famosa do filme: criado por Paul Dukas e inspirado em um poema de Goethe (um dos maiores nomes da literatura alemã, autor de livros como Fausto e Os Sofrimentos do Jovem Werther), o trecho mostra Mickey no papel de um aprendiz de feiticeiro que quer aprender os truques de seu mestre antes da hora. O protagonista rouba o chapéu mágico do mestre e enfeitiça várias vassouras para fazer seu trabalho de limpar o lugar, mas acaba perdendo o controle sobre elas. Este trecho do filme foi pensado justamente para resgatar a popularidade de Mickey, que não era mais tão popular entre os fãs de Disney quanto nos primórdios da empresa; e no início ia ser apenas mais um curta da série Silly Simphonies – mas o curta acabou ficando muito caro, e Walt Disney decidiu que seria mais inteligente lançar a história junto de um longa. O Mickey “Aprendiz de Feiticeiro” acabou se tornando uma das facetas mais icônicas do personagem.

A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky

Depois vem A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky – no original, Le Sacre du Printemps, um ballet que estreou em Paris em maio de 1913. Os desenhistas ilustraram o trecho com uma explicação científica da evolução da vida na Terra, desde o surgimento dos seres microscópicos até os dinossauros: é uma parte bastante intensa do filme, mais séria e menos poética que o restante. De todos os compositores com obras incluídas em Fantasia, Stravinsky era o único ainda vivo quando o longa estreou – e, infelizmente, não gostou do resultado, alegando que as partes mais complexas de sua composição haviam sido excluídas ou alteradas na versão final

Sinfonia Pastoral, de Ludwig van Beethoven

Ludwig van Beethoven escreveu sua Sinfonia n.º 6, também conhecida como Sinfonia Pastoral, em 1808: uma das obras mais célebres da fase romântica do compositor, a sinfonia tem o propósito de, justamente, descrever a sensação experimentada nos ambientes rurais. Este trecho também é um dos mais conhecidos – e polêmicos – de Fantasia: ambientada no Monte Olimpo, a sequência é protagonizada por cavalos alados, sátiros, centauros e cupidos, e causou controvérsia ao mostrar alguns personagens nus – além de originalmente contar com uma centaura negra servindo uma centaura branca, cena que foi posteriormente eliminada.

A Dança das Horas, de Amilcare Ponchielli

A Dança das Horas é um ballet da ópera La Gioconda, de Amilcare Ponchielli, executado no terceiro ato do espetáculo. Como diz o nome, a música procura representar as horas do amanhecer, da manhã, da tarde e da noite, com efeitos de luzes, mudanças de figurino e coreografias diferentes. O trecho é o mais cômico de Fantasia, trazendo uma sátira ao ballet clássico, com avestruzes, hipopótamos, elefantes e jacarés dançarinos. Bailarinos de carne e osso foram utilizados como modelos, para que os desenhistas pudessem recriar os movimentos de dança com perfeição.

Uma Noite no Monte Calvo, de Modest Mussorgsky/Ave Maria, de Franz Schubert

Modest Mussorgsky, compositor e militar russo, é conhecido por suas composições sobre a história da Rússia medieval; e Franz Schubert (que morreu com apenas 31 anos de idade) foi um compositor austríaco do fim da era clássica. Em Fantasia, as obras selecionadas dos dois músicos servem como continuação uma da outra: Chernabog, um demônio que vive no alto de uma montanha, desce na noite de Halloween para atormentar os moradores de um vilarejo; que mais tarde se reúnem em procissão religiosa e seguem até uma capela para rezar. Aqui os desenhistas tiveram outro modelo real: o ator Bela Lugosi, mais conhecido por seu papel como Drácula, que foi chamado para inspirar as poses e movimentos de Chernabog.

Fantasia 2000

A sequência de Fantasia vinha sendo planejada desde 1974, mas só foi sair do papel no final dos anos 1990. A estrutura é a mesma do original, com oito diferentes segmentos – o único que se repete nos dois filmes, é claro, é O Aprendiz de Feiticeiro. Quem executa as músicas é a Orquestra Sinfônica de Chicago, com condução de James Levine; e vários atores e atrizes famosos fazem as introduções de cada trecho: entre eles, Steve Martin, Bette Midler, Quincy Jones e Angela Lansbury (Angela, inclusive, é conhecida por cantar a premiada Beauty and The Beast, da trilha sonora de A Bela e a Fera). Fantasia 2000 começa com a Sinfonia nº 5, de Beethoven, quando são mostradas imagens abstratas coloridas e formas geométricas; e Pinheiros de Roma, de Ottorino Respighi, com um trecho que se passa no fundo do mar. Depois vem Rhapsody In Blue, de George Gershwin, com uma história que se passa na Nova York dos anos 1930; e Concerto de Piano Nº 2, de Dmitri Shostakovich, que cria uma nova versão para o conto O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen. Continua com O Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, onde flamingos aparecem brincando e dançando; e aí vem O Aprendiz de Feiticeiro, com a mesma história do original. O longa se encerra com Marchas de Pompa e Circunstância, protagonizado por Donald e Margarida; e O Pássaro de Fogo, inspirado em um conto russo, e com a música de Igor Stravinski – logo ele, que não gostou do primeiro Fantasia.

Uma curiosidade: Fantasia foi o primeiro filme da história a ser lançado em surround sound, porque Walt Disney fazia questão de que a plateia do cinema pudesse se sentir como se houvesse um orquestra no cinema, tocando ao vivo – Disney contratou engenheiros da RCA, que até hoje fabrica equipamentos de som, para criar uma técnica de gravação inédita para a época. Fantasia ganhou dois Oscars honorários em 1942, um deles justamente pela criação da inovadora técnica de som – e o outro pela originalidade do filme, que se mantém marcante e memorável até hoje.