Os quadrinhos ganharam uma adaptação cinematográfica, que vem sendo elogiada em festivais norte-americanos

Em junho de 1978, quando cometeu o primeiro de uma série de assassinatos, Jeffrey Dahmer tinha um amigo, Derf Backderf, com quem não falava há poucas semanas. Depois dali, Backderf só voltou a ter notícias do ex-colega em 1991, quando Dahmer foi preso por crimes chocantes, que envolviam abuso sexual, canibalismo e necrofilia. Backderf acabou virando quadrinista – e, em 1994, quando Dahmer foi assassinado na cadeia por outro preso, decidiu contar a história de sua relação com o serial killer. Meu Amigo Dahmer foi publicado pela editora Darkside e acabou de chegar às livrarias brasileiras, poucos meses antes da estreia da respectiva adaptação para o cinema.

“É uma história de fracassos”, resumiu Backderf em entrevista à revista Rolling Stone. “Todo mundo fracassa: os pais dele, os professores, a direção da escola, os policiais, os amigos dele, o próprio Jeff.” O quadrinista também foi consultor do filme homônimo, dirigido por Marc Myers, que já estreou em festivais de cinema norte-americanos e vem sendo elogiado pela crítica. “Assim que Jeff começa a matar, ele se torna apenas mais um fanático sem graça para mim, e eu perco todo o interesse”, Backderf conta, explicando por que escolheu narrar a vida do colega antes de os assassinatos começarem – o primeiro crime, aliás, é o único mostrado na obra. “O que me fascina é a espiral descendente. Por que e como ele se torna um monstro. Eu realmente continuo sem saber o motivo que o levou a se transformar nessa criatura, mas documentei o processo.” Problemas como o pai ausente, a mãe depressiva e o alcoolismo são retratados no filme. “Desde o começo eu sentia que precisava escrever essa história com uma honestidade brutal”, diz Backderf. “Se soubéssemos o que realmente acontecia na cabeça de Jeff, é claro que teríamos agido. Mas não sabíamos, então há arrependimento, mas não há culpa. A pergunta que sempre faço é: onde estavam os adultos?”

O quadrinista, que conversou com colegas de escola, vizinhos e professores de Dahmer para escrever sua obra, diz que ficou chocado com como o futuro serial killer praticamente não tinha interação social. “Eu entrevistei aproximadamente 50 pessoas, e a resposta mais comum foi: ‘Eu nunca falei com ele'”, comenta. “Nenhuma interação, sendo que algumas dessas pessoas foram para a escola com ele durante dez anos! Eu e meus amigos éramos a única conexão social que ele tinha.”