Se você é fã de Game of Thrones, já deve ter lido o post que fizemos aqui, há algum tempo, a respeito de outras cinco séries de época que valem uma maratona. Delas, uma das mais subestimadas é Black Sails, do canal Starz: com uma trama intrincada e fascinante, produção impecável e um elenco absolutamente incrível, a série, que já está encerrada, teve quatro temporadas, e jamais caiu de nível no conceito dos fãs. Ambientado no Caribe, na chamada Era de Ouro da pirataria, entre os séculos XVII e XVIII, o seriado mistura uma narrativa própria com outras histórias e lendas sobre piratas, e também com personagens históricos. Abaixo, você confere de onde veio a inspiração para os principais personagens do seriado. Atenção: tem spoilers.

James McGraw/Flint

Flint é um personagem fictício, mas tem história: surgiu ainda no século XVIII, no romance A Ilha do Tesouro, que marcou definitivamente as histórias de piratas de diversas formas – foi nesse livro, por exemplo, que apareceu pela primeira vez o famoso mapa com um grande ‘x’ marcando o local onde há um tesouro enterrado, elemento que acabou virando um clássico da pirataria fictícia. Assim como o Flint original, o de Black Sails, interpretado por Toby Stephens, também tem um navio chamado Walrus. Flint é descrito como ambicioso, do tipo que não hesita em fazer o que for necessário para alcançar seus objetivos, mas teme somente seu primeiro-imediato, um pirata igualmente ambicioso chamado John Silver. Familiar?

Long John Silver

Silver aparece como um oportunista irritante na primeira temporada de Black Sails, mas vai crescendo em importância (e ganhando o respeito do público) conforme a série avança. No livro A Ilha do Tesouro, Silver é o antagonista: ex-tripulante do navio do capitão Flint, o pirata recruta sua própria tripulação e parte em busca da ilha onde, ele sabe, Flint escondeu um tesouro. Aliás, lembra como em Black Sails é Silver, interpretado pelo ator Luke Arnold, quem consegue o tesouro do Urca de Lima, que Flint tanto cobiçava? Os dois personagens também são mentirosos extremamente convincentes, se passam por um cozinheiro em algum ponto da história, e tem uma das pernas cortada até a coxa – embora o Silver original usasse muletas para se locomover, e não uma perna de pau ou metal. E o Silver de A Ilha do Tesouro tinha um papagaio ironicamente batizado, é claro, de “Flint”. Long John Silver é ainda mais popular que Flint na literatura e no cinema: já apareceu nas histórias de Peter Pan, e a música que os piratas de Piratas do Caribe cantam é atribuída à sua tripulação. Uma curiosidade: o Urca de Lima é um navio real, e está afundado próximo à costa da Flórida, nos Estados Unidos, desde 1715.

Billy Bones

Billy, cujo real nome em Black Sails é William Manderly, é outro dos personagens de A Ilha do Tesouro – e também foi primeiro-imediato do capitão Flint. Tom Hopper interpreta o personagem, que, na história original, passa um bom tempo em terra, de olho no mar, alerta para o aparecimento de um homem de uma perna só – Long John Silver, é claro. Em Black Sails, Billy ganha muito em importância depois de reaparecer na história, após o tempo que passa desaparecido ao ser empurrado por Flint para o mar.

Charles Vane

Vane existiu de verdade: foi um dos piratas mais temidos no Caribe durante a Idade de Ouro da Pirataria, no início do século XVIII – dizia-se que era temido mesmo entre os outros piratas. O capitão acabou traído pela própria tripulação, que em determinado ponto se amotinou e colocou em seu lugar Jack Rackham – outro nome que os fãs de Black Sails vão reconhecer. Depois de ser abandonado por seus homens em uma ilha deserta, Vane foi capturado e, como o Vane do seriado, enforcado.

Jack Rackham

Rackham, outro pirata que realmente existiu, serviu sob o comando de Charles Vane até que os dois se desentenderam sobre um ataque – como na série, seus caminhos se separaram; mas, na vida real, a ruptura aconteceu de forma mais trágica: Rackham organizou um motim contra seu capitão, que acabou abandonado em uma ilha, capturado e enforcado – ou seja, nada da amizade que se vê no seriado. O pirata era muito conhecido como Calico Jack, apelido que vinha das roupas coloridas de calicô que ele costumava usar – um tecido grosseiro de algodão, fabricado na Índia, que inclusive é retratado nos figurinos de Toby Schmitz em Black Sails. E a Jolly Rogers, o desenho mais clássico das bandeiras piratas, com um crânio pairando sobre duas espadas cruzadas, é considerada invenção de Calico Jack – que se tornou um pirata famoso e apareceu em vários filmes, livros e jogos, incluindo Assassin’s Creed. Apesar de todos os seus sucessos, Jack Rackham e a maior parte de sua tripulação foram enforcados na Jamaica no dia 18 de novembro de 1720, quando o pirata tinha 38 anos de idade. Na vida real, o discurso atribuído a Rackham logo antes da morte é digno daquele proferido por Vane em Black Sails: “Quem você pensa que é? Por acaso você é Deus para ter o direito de decidir o meu destino e de meus homens?”, ele teria dito ao juiz, logo depois de ouvir sua sentença. “Pegue suas palavras pomposas e as enfie no lugar de seu corpo em que o sol jamais bate. Encontro você em outra vida. Adeus.” Enquanto era capitão, Rackham conheceu e se apaixonou por uma mulher casada, chamada, adivinhe só?, Anne Bonny.

Anne Bonny

Interpretada por Clara Paget, Anne Bonny existiu de verdade – e foi uma das duas mulheres piratas mais conhecidas da história, ao lado de Mary Read. Como em Black Sails, Anne e Jack Rackham viveram um romance na vida real, além da parceria na pirataria: Anne largou o marido para fugir com Rackham, e, por muito tempo, vestiu-se de homem para se disfarçar, adotando o nome de Adam Bonny. “Adam” lutou ao lado dos colegas de tripulação em muitos ataques bem sucedidos, e tornou-se um pirata respeitado. Quando a tripulação de Rackham foi capturada, Anne conseguiu escapar da forca afirmando que estava grávida – e depois desapareceu da prisão, para nunca mais ser vista. Existem boatos que dizem que Anne morreu tranquilamente nos Estados Unidos, muitos anos mais tarde, aos 80 anos de idade.

Edward Teach

O lendário Barba Negra, interpretado em Black Sails por Ray Stevenson, é provavelmente o mais famoso pirata da vida real – e o que teve mais mitos e grandes feitos associados a seu nome. Teach atuou no Caribe também na Idade de Ouro da Pirataria, mesma época de Vane e Rackham, e viveu apenas 38 anos – o suficiente para marcar seu nome em dezenas de livros, filmes e histórias que envolvem a pirataria, sendo Piratas do Caribe e Assassin’s Creed dois dos mais recentes. Na vida real, era considerado astuto, diplomático (Teach sabia ler e escrever, o que levanta suspeitas de que tenha nascido em uma família rica) e não tão tirânico quanto é frequentemente retratado – mas de fato colocava pavios acesos em seus cabelos e na grossa barba negra, para ter uma aparência mais assustadora durante batalhas. Era descrito como muito alto, forte, e de ombros largos. Seu navio mais famoso realmente se chamava Vingança da Rainha Ana, e era um antigo navio mercante francês – acredita-se que o barco tenha sido encontrado em 1996, na costa dos Estados Unidos. Em 1718, no auge de seu poder, Barba Negra intitulava-se “Comodoro”, já que, como é mostrado na série, tinha vários navios. Ele também teve várias esposas; pelo menos 14. Teach morreu em batalha em 1718, com pelo menos cinco tiros, e teve sua cabeça pendurada na proa do navio que o atacou, como um troféu. Há muitas histórias supersticiosas a seu respeito, de marinheiros que contam ter visto o navio-fantasma do Barba Negra vagando pelos mares. Embora, em Black Sails, Teach seja próximo de Charles Vane, na vida real foi com Benjamin Hornigold que o pirata negociou e navegou – sim, o mesmo Hornigold que aparece no seriado. Hornigold atuou como pirata entre 1715 e 1718, e depois tornou-se um caçador de piratas, perseguindo seus antigos aliados em nome do governador das Bahamas.

Ned Low

Lembra de Ned Low, o pirata vivido por Tadhg Murphy e que acaba morto pelas mãos de Vane? Embora tenha durado poucos episódios na série, o verdadeiro Edward Low foi extremamente temido durante sua carreira na pirataria, que durou cerca de três anos: embora a maior parte dos piratas tenha ganhado fama de mau com o passar dos anos (e os relatos digam que, na vida real, eles eram homens muito mais contidos e racionais), Low era descrito mesmo na época – e por seus próprios homens – como cruel, sádico e brutal. Dizia-se que tinha prazer em torturar prisioneiros e cortar seus narizes, orelhas e lábios. Não se sabe exatamente como ou quando ele morreu.

Eleanor Guthrie

A personagem, vivida por Hannah New, não representa exatamente uma única figura histórica, mas sim um clã: os Guthrie foram uma família escocesa que realmente viveu perto de Nassau, e fez fortuna negociando com piratas.

Max

Max pode ter sido inspirada em outra personagem do livro A Ilha do Tesouro: descrita como uma mulher de pele negra e inteligência fora do comum, na obra, ela é esposa de Long John Silver – e vende sua taberna e seu bordel no Caribe para acompanhar o pirata em suas aventuras, depois que ele finalmente bota as mãos no tesouro de Flint. Em Black Sails, Max é interpretada por Jessica Parker Kennedy.

Thomas Hamilton

Hamilton, o aristocrata com quem ficamos sabendo, na segunda temporada, que Flint tem um envolvimento amoroso, pode ter sido inspirado em várias figuras históricas: pelo menos quatro homens com o nome ‘Thomas Hamilton’ circularam pela aristocracia britânica nos séculos XVII e XVIII – e pelo menos um deles, justamente o que viveu entre 1680 e 1735 (ou seja, abrangendo a época em que se passa o seriado), se envolveu com política. Quem assume o papel de Hamilton é o ator Rupert Penry-Jones.

Para quem ficou curioso, as três primeiras temporadas de Black Sails estão disponíveis no Netflix – se você gosta de produções de época, histórias de pirata ou simplesmente bons seriados, vale a pena conferir.