Natural de Joaçaba, o músico se prepara para subir aos palcos da Broadway ao lado do artista veterano

O show American Utopia, de David Byrne, vai ganhar uma residência na Broadway entre outubro deste ano e janeiro de 2020: nesse espetáculo, de formato bastante incomum, o veterano – conhecido tanto pelo seu trabalho solo quanto na banda The Talking Heads – está muito bem acompanhado de um grupo de onze músicos de diferentes nacionalidades. E tem catarinense na banda: Mauro Refosco, natural de Joaçaba, assina a percussão em discos e performances de Byrne desde 1994, dois anos depois de sua mudança para os Estados Unidos. Em entrevista à Itapema, Mauro conta que faz, sim, visitas frequentes ao Brasil – mas, por enquanto, só para visitar a família, mesmo: foi em terras norte-americanas que sua carreira floresceu e se estabeleceu.

Mauro Refosco - David Byrne

Confira a entrevista, em que Mauro conta mais sobre o processo criativo ao lado de Byrne e as particularidades do show American Utopia:

Itapema: Você é daqui de Santa Catarina, certo? Há quanto tempo trabalha com música, e desde quando mora nos Estados Unidos?
Mauro: Sim, sou de Joaçaba. Toco percussão desde os 19 anos, e me mudei para os Estados Unidos em 1992, para fazer mestrado na Manhattan School of Music.

Itapema: Quando foi a primeira vez que você trabalhou com David Byrne? Você se manteve trabalhando com ele de forma permanente desde então?
Mauro: Comecei a tocar percussão para o Byrne em 1994. Ele não tem uma banda fixa, né? Os conceitos artísticos do Byrne são bem mutantes, se alteram bastante de um CD para outro – e nisso a banda vai mudando também; acho que já mudou umas três ou quatro vezes desde que eu comecei a trabalhar com ele. Eu fui um dos poucos que deu a sorte de permanecer.

Itapema: A banda é formada por músicos de diversos países – inclusive mais dois percussionistas brasileiros. Rola um intercâmbio musical; as diferentes origens dos instrumentistas influenciam o resultado das apresentações?
Mauro: Na verdade, um dos brasileiros, o Davi Vieira, se machucou e acabou tendo que sair, não vai poder participar desse espetáculo. O outro é o Gustavo Di Dalva, que é um gênio da percussão. Rola, sim. Eu acho que cada lugar tem uma espécie de “sotaque” musical, mas, ao mesmo tempo, a linguagem da música é universal, né? A música dita o que é requerido de cada um, então o resultado final é mais homogêneo, bem orgânico mesmo.

American Utopia - David Byrne

Itapema: Por que levar o show American Utopia para a Broadway?
Mauro: O David Byrne sempre teve essa ideia de fazer um show na Broadway – e esse show é perfeito para isso! Quando você olha o palco da turnê, percebe que ele é muito vazio – e imagina, um show de rock sem quase nada no palco? Sem kit de bateria, sem amplificadores? Parece uma coisa absurda, né? Mas tudo é carregado pelos músicos: é como se fôssemos uma mini-escola de samba, uma mini-bateria de escola de samba. A gente sai e entra do palco carregando tudo, e tocando tudo ao vivo. A tecnologia para amplificar esses instrumentos é super avançada – tão avançada que, para quem está assistindo, nem parece nada demais; parece uma coisa simples. Acho que ninguém tinha pensado em usar essa tecnologia dessa forma antes.

Itapema: Como é trabalhar com David Byrne? Como funciona o processo criativo ao lado dele?
Mauro: Ele é muito meticuloso: ele sempre sabe exatamente como quer que um disco seja, e não economiza trabalho para deixá-lo do jeito que imaginou. Por isso os discos dele têm uma integridade muito grande no aspecto estético. No American Utopia, foram dois anos entre o momento em que ele me convidou para gravar os primeiros tambores, as primeiras percussões para o álbum, e o lançamento do álbum. Já quando começou a bolar o show, ele me escreveu um email perguntando “Mauro, de quantos percussionistas você precisaria para reproduzir o CD ao vivo, com os músicos carregando os instrumentos?”. (risos) Confesso que eu demorei um pouco para entender o conceito: eu não tinha um outro espetáculo no qual me basear ou usar como referência, foi uma coisa criada bem do zero. Aí eu falei que precisava de no mínimo quatro e no máximo oito músicos, e fechamos em seis.