Chico mudou? Nem tanto. Mas o Brasil, sim. Vencedor do Prêmio Camões suscita sentimentos opostos como nunca antes em sua carreira

Por GaúchaZH

Há artistas que consolidam a carreira com bruscas mudanças de direção. Prêmio Nobel em 2017, Bob Dylan é um deles: depois de ser alçado a arauto da música de protesto norte-americana, deixou o violão de lado e abraçou a guitarra elétrica; mais tarde converteu-se ao cristianismo e o celebrou em discos e shows, para anos depois abandoná-lo em um álbum intitulado Infidels (1983). Já o mestre da canção brasileira Chico Buarque não é conhecido por guinadas radicais em seu trabalho. Ao contrário, amadureceu sua poesia e musicalidade a cada novo disco sem jamais negar o anterior ou tratá-lo como página virada.

Apesar da regularidade como artista, Chico foi capaz de gerar reações diversas nos ouvintes e na opinião pública ao longo do tempo. Praticamente uma unanimidade nacional no fim dos anos 1970, brilhando no rádio e na televisão, ele hoje divide opiniões: ao mesmo tempo em que é incensado por fãs e pelo mundo letrado, provoca reações de ódio e repulsa nas redes sociais – e também na rua.

O mesmo autor que, aos 74 anos, acaba de ganhar o Prêmio Camões, láurea que consagra seu trabalho em toda a comunidade de língua portuguesa no planeta, recebe xingamentos por conta de seu posicionamento político em caixas de comentário da web e até ao atravessar a rua em seu bairro, o Leblon, no Rio.

– Chico já causou diferentes reações em fases diferentes da carreira, mas nunca de maneira tão extremada como hoje – assegura a jornalista Regina Zappa.

Autora de livro biográfico sobre o músico, dramaturgo e escritor carioca, Regina concorda que Chico não empreendeu nenhuma mudança radical no seu trabalho que justifique as alterações de reação do público. O que mudou, na verdade, foi o Brasil.

– As críticas de hoje ao Chico não são voltadas ao seu trabalho, e sim aos seus posicionamentos políticos. Mas é importante observar que ele não mudou. Ele sempre se posicionou politicamente. Sempre manteve a coerência colocando-se à esquerda. No entanto, parte da sociedade desenvolveu um ódio tão grande ao PT e ao Lula que o estende a qualquer um que apoie o ex-presidente, ou até mesmo seja neutro – diz Regina.

O autor de A Banda e Cara a Cara, perseguido pela censura durante a ditadura militar, de fato foi um dos apoiadores mais constantes de Lula ao longo de sua carreira. Mesmo em momentos de menor adesão da classe artística, a exemplo das eleições de 2006, logo após o escândalo do Mensalão, Chico manteve publicamente seu voto a favor do petista. Em 2008, gravou um vídeo de apoio a Maria do Rosário, que disputava a prefeitura de Porto Alegre, perdendo para José Fogaça.

Esse apoio a duas personalidades muito criticadas pela fatia de militantes da direita mais radical, contudo, ainda não gerava ataques tão incisivos como os de hoje em dia. A crescente polarização política, que ganhou espaço no país a partir de 2013, tornou o artista um alvo.

Um dos ataques mais conhecidos ocorreu em dezembro de 2015, quando saía de um restaurante e foi abordado por transeuntes que questionaram seu apoio ao PT. Entre eles, estavam o então rapper Tulio Deck, hoje artista visual, e o estudante Álvaro Garneiro Filho, herdeiro de um megaempresário. A confusão foi gravada em vídeo e se espalhou via internet. No canal Glamurama, do YouTube, mais de 600 mil pessoas viram os rapazes gritando frases como “petista, vá morar em Paris” e “o PT é bandido” para o septuagenário compositor.

Pouco mais de um ano antes do bate-boca, o colunista Rodrigo Constantino havia incluído o nome de Chico Buarque em seu livro Esquerda Caviar, no qual critica o fato de o compositor manter um apartamento na França e ao mesmo tempo “adorar o socialismo”. “A marca registrada dessa esquerda caviar, que adora o socialismo do conforto de Paris, que prega uma radical mudança no estilo de vida dos outros para mitigar o aquecimento global, é a antiga máxima ‘faça o que eu digo, mas não o que faço'”, escreveu Constantino, fornecendo combustível à rejeição.

Depois que o caso ganhou as redes, Álvaro Garneiro, então com 19 anos, pediu desculpas pelos impropérios.

– Acho que o sr. Chico é uma pessoa mais velha e merece respeito – declarou à Folha de S.Paulo.

O herdeiro também afirmou que entrou na discussão depois de o tumulto ter se formado, e que precisou perguntar a um garçom quem era o “senhor envolvido na discussão”.

Mudanças na própria esquerda

Abalos na carreira de Chico Buarque já haviam ocorrido antes. Um dos primeiros se deu com a peça Roda Viva, escrita por ele e encenada por José Celso Martinez Corrêa em 1968. Naquela época, Chico era conhecido como o simpático cantor do sucesso A Banda, canção vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1966. Muita gente que foi ao teatro para ver o trabalho do menino de voz suave e olhos claros saiu escandalizada com a performance criada por Zé Celso, que combinava erotismo com imagens sacras e até um fígado cru sendo dilacerado em cena, espirrando sangue sobre os vestidos das madames que costumavam se sentar às primeiras filas.

Em São Paulo e em Porto Alegre, o espetáculo foi vítima de repressão organizada por grupos paramilitares. Houve destruição de cenário, espancamentos e sequestro de atores.

Nos anos 1970, canções de protesto como Apesar de Você e Cálice também causaram problemas ao cantor e compositor. A censura fazia com que ele precisasse reescrever letras e criar malabarismos poéticos para expressar opiniões que não podiam ser ditas diretamente.

Para Regina Zappa, os dois momentos de perseguição são muito diferentes do que é vivido atualmente por Chico:

– No caso do Roda Viva, foram ações por parte de milícias, de comandos, não da população. É claro que ele foi perseguido, mas era uma perseguição oficial, por parte da autoridade policial, da ditadura. Sobre as canções de protesto, era esperado dos artistas que se comportassem contra a censura e a favor da liberdade. O que ocorre agora é bem diferente: a ação não parte da polícia, dos comandos ou da censura; é uma fatia da sociedade que começou a destilar um ódio insensato.

Músico e professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Ri Grande do Sul (UFRGS), Guto Leite lembra que Chico não é questionado só por quem opta por uma postura política mais conservadora:

– A direita, de certa forma, faz uma divisão entre o Chico artista, e talvez até reconheça sua grandiosidade nesse campo, e o ativista. “Como artista ele é ótimo, o problema é quando se mete em política” é uma frase que já ouvi. Mas acho que ele tem apanhado da esquerda também, principalmente da esquerda mais ligada a pautas identitárias.

Letras do autor já levantaram discussões sobre machismo e lugar de fala, lembra Leite:

– Ele recebeu acusações de machismo. E também tem músicas como Gente Humilde e Sinhá, em que o “eu lírico” é negro ou negra ou comenta a escravidão. Há sempre uma espécie de ressalva na recepção desse tipo de canções dele: “Ah, mas ele é um sambista branco. Não é o Paulinho da Viola”. Ao mesmo tempo, com a polarização, a esquerda parou um pouco de pegar no pé dele nesse sentido.

Também em relação à crítica da esquerda identitária, não foi Chico Buarque que mudou, mas o Brasil e seu novo cenário musical que propiciaram uma nova leitura de seus trabalhos.

– Em certa medida, são o rap e as canções que vieram depois dos anos 1990 que deixaram o Chico em outro lugar em relação à esquerda. No entanto, é importante lembrar que, antes disso, ele deu voz a muita gente por meio da voz dele – pontua Guto Leite.

Novos horizontes, menos alcance

Além de Rodrigo Constantino, outra polêmica personalidade seguida pela extrema direita ajudou a levantar questionamentos a Chico Buarque. Diferentemente das palavras de Constantino, as críticas do músico Lobão não se restringem apenas à posição política do artista.

– O Lobão já tinha uma crítica com relação ao Chico antes da polarização política. Ele já o contestava na década de 1990. Lembro do Itamar Assumpção falar sobre isso, questionar o quanto a existência dos cancionistas dos anos 1960 e 1970 em certa medida bloqueava o surgimento de novos destaques. De fato, não sei o que no Lobão é apenas ataque político ou uma questão estética, se é apenas aquela coisa de um direitista raivoso ou se é inconformidade por conta do rock não passar mesmo pelo Chico Buarque – diz Guto Leite.

Em livros, entrevista e declarações em redes sociais, Lobão realmente já lamentou muitas vezes o fato de Chico não ter se sensibilizado pela simplicidade e o apelo visceral do rock. “Se Chico Buarque tivesse ouvido Chuck Berry, não seria a merda que é”, provocou pelo Twitter em março de 2017, logo após a morte do roqueiro norte-americano. Em uma entrevista recente para um canal do YouTube, criticou o “barroquismo pernóstico, chato, burocrático e inútil” da MPB:

“Não há transcendência alguma nas músicas do Chico Buarque. São todas muito burocráticas, parecidas com sua própria mímica corporal, que é nenhuma. Ele tem zero expressão quando vai cantar”.

Sem demonstrar interesse pelo rock ou qualquer gênero musical que se popularizou a partir dos anos 1980, Chico Buarque se afastou das rádios e da televisão, além de ter passado longas temporadas longe de palcos e estúdios, dedicando-se à literatura – o que acabou levando sua obra a outro patamar.

Talvez o último destaque de consumo massivo que promoveu o compositor como influência central foi a banda Los Hermanos. Por conta disso, o artista tem uma renovação de público lenta, inserindo-se cada vez mais em um perfil de consumo seleto. Em um país com poucos leitores, seus premiados romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014) também não chegam a configurar uma vasta porta de entrada para potenciais aficionados.

Um fenômeno intelectualizado

Chico Buarque pode não ser mais o fenômeno popular que conquistou o Brasil nos anos 1960 e 1970. Porém, vem ganhando cada vez mais espaço em pelo menos dois meios de prestígio: a academia e a opinião pública – de dentro e fora do Brasil. O recente reconhecimento do Prêmio Camões, considerado o mais importante da literatura em língua portuguesa, é uma prova disso. Trata-se de uma láurea concedida por um júri com intelectuais de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique, que se reúne a cada ano para eleger um autor que tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da comunidade lusitana ao redor do mundo. Chico foi escolhido por unanimidade neste ano.

– A ideia de premiar Chico nasceu dos colegas portugueses – conta o jornalista, escritor e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Antonio Hohlfeldt, um dos jurados brasileiros desta edição do prêmio, juntamente com o poeta Antonio Cicero.

Hohlfeldt assegura que a escolha se baseou estritamente em critérios literários. Não houve debate sobre a postura política ou ideológica do autor.

– Chico tem, em primeiro lugar, uma contribuição de poeta, sobretudo por meio dos poemas da música popular que ele escreveu e escreve até hoje. Um segundo ponto é sua contribuição de dramaturgia. E a terceira contribuição é da prosa, por meio dos romances – analisa Hohlfeldt.

O professor observa que a canção popular pode ser um meio de difusão da poesia em países com baixo letramento, como Angola e Moçambique, ou com baixo consumo de livros, como Brasil e Portugal.

– A canção chega aonde um livro de poesia não alcança. A despeito das questões musicais, você pode pegar alguns poemas do Chico, como Construção, por exemplo, e percebe que são verdadeiras obras-primas.

Crítico de teatro, Hohlfeldt também defende o que considera ser a qualidade exemplar da dramaturgia do premiado:

– Chamei atenção sobretudo para um trabalho de Chico com Naum Alves de Sousa chamado Suburbano Coração. Embora não seja uma de suas peças mais populares, é marcada uma brasilidade singular.

Guto Leite observa que Chico tem características que o aproximam mais do ambiente acadêmico do que outros cancionistas:

– A dicção dele encara o presente muitas vezes, mas também tem um vetor interessante apontando para o passado, para a tradição. Além disso, é um cara que frequenta o mundo letrado, é filho de Sergio Buarque de Holanda, que era amigo de Mario de Andrade. A forma bem acabada de suas obras também é vista com simpatia. Tudo isso faz com que não seja encarado como uma estranho para a academia. Bastava reconhecer a canção como gênero literário para que ele fosse mais estudado.

Comunicação limitada com as massas

Aos 74 anos, Francisco Buarque de Hollanda dedica-se à música e à literatura em seu apartamento no Rio de Janeiro, onde mora, ou em Paris, onde costuma passar temporadas de no máximo um mês. Há vários anos não concede entrevistas. Entre as justificativas para as negativas à imprensa estão a preocupação em não se repetir e não promover sua carreira literária por meio da sua persona pública.

A única declaração do artista com respeito ao Prêmio Camões se restringiu a uma frase:

– Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar.

Em um vídeo de 2011, gravado nos bastidores da gravação do disco Chico, o artista faz um raro comentário sobre sua experiência com o ódio na internet. Bem-humorado, ele conta como foi a primeira vez em que leu comentários sobre ele em um portal de notícias.

– Não lembro em que notícia sobre mim eu entrei e vi “comentários”. Nunca tinha entrado nisso. Aí comecei a ler. “O que esse velho está fazendo aí?”. “O que o álcool não faz com as pessoas?” – lembra Chico, às gargalhadas. – O que é uma injustiça, já que eu nem bebo mais.

E conclui:

– Você vai fazer o que, né? As pessoas têm uma raiva… Mas você não vai ficar com raiva de quem tem raiva. Então deixa pra lá.