Daniel Galvão, Rodrigo “Gnomo” Matos, Carla Domingues e Dudu Fileti são os principais vocalistas dos shows mais concorridos da orquestra

Eles têm origens e influências musicais bastante diferentes entre si, mas uma coisa em comum: são bem conhecidos do público catarinense e, especialmente, florianopolitano como as vozes que acompanham a Camerata Florianópolis em seus diferentes espetáculos. Daniel Galvão, Rodrigo “Gnomo” Matos, Carla Domingues e Dudu Fileti são os principais vocalistas dos shows mais famosos e concorridos da orquestra, como o Rock’n Camerata, o POP Camerata, o Especial Beatles e o recente Tributo ao Queen. E, mesmo que os arranjos e os músicos da Camerata sejam oficialmente as “estrelas” dessas apresentações, os cantores volta e meia roubam os holofotes nessas performances em que fazem toda a plateia cantar junto os sucessos de bandas e artistas consagrados.

Vocalistas Camerata Florianópolis - Fotos: Tóia Oliveira

Um deles, aliás, está acostumado a alternar entre duas funções: o manezinho Daniel Galvão é tanto violoncelista da orquestra quando vocalista do Rock’n Camerata – e também, mais recentemente, do Tributo ao Queen. Apaixonado por música desde criança, por influência dos pais, Daniel conta que sempre ouviu de tudo um pouco, mas na adolescência – época em que começou a estudar violão e guitarra – virou mesmo fã de rock. “Nessa época eu comecei a ser mais autodidata, estudar por conta própria, tirar as músicas de ouvido, e montar minhas próprias bandas com os amigos”, narra.

Daniel Galvão - Camerata Florianópolis - Foto: Tóia Oliveira

Ele virou vocalista por acaso, quando o amigo que cantava em uma de suas bandas precisou abandonar o grupo – e finalmente chegou à música clássica por volta dos 20 anos de idade, por influência da então namorada (e hoje esposa), que já trabalhava com música erudita. “Foi ela quem me levou ao meu primeiro concerto, onde eu conheci o violoncelo e me apaixonei”, explica Daniel, que começou a estudar esse novo caminho enquanto fazia o curso de Música na Udesc e desenvolvia a parte vocal no Polyphonia Khoros, de Floripa. Por convite de um professor de violoncelo, que já tocava na Camerata, Daniel se juntou à orquestra, com aprovação do maestro Jeferson Della Roca.

Foi a partir de uma conversa de bastidores sobre um músico de rock que havia criado uma versão para guitarra da Sinfonia n.° 9, de Beethoven, que surgiu a ideia de unir rock e instrumentação clássica em um espetáculo da Camerata – e nasceu o Rock’n Camerata, apresentado pela primeira vez em 2008, já com Daniel como um de seus vocalistas. Mas o também violoncelista não é o único fã de rock acostumado a subir no palco com a orquestra: a soprano Carla Domingues surpreende ao contar que já teve e ainda tem, entre seus projetos paralelos, diversas bandas de heavy metal.

Carla Domingues - Camerata Florianópolis - Foto: Tóia Oliveira

“Eu comecei com a M26, banda de dark metal de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e depois, ainda lá, também tive a Vetitum, um grupo só de meninas”, ela conta. “Já morando em Floripa, eu tive a Enarmonika, uma banda super promissora, mas que infelizmente acabou em 2016.” Bacharel em canto pela Universidade Federal de Pelotas e com mestrado em música pela Udesc, Carla fez sua primeira ópera, Rigoletto, de Giuseppe Verdi, em Florianópolis; e se mudou para a capital catarinense em 2008. “Já me sinto florianopolitana de coração”, ela afirma. “Meu filho inclusive é manezinho.”

Foi naquela mesma apresentação de Rigoletto que Carla conheceu a Camerata e o maestro Della Roca, que assinavam a parte de cordas da ópera – e, em 2008, foi convidada a participar do espetáculo Rock’n Camerata; parceria que vem se mantendo desde então. A soprano também participou do Tributo ao Queen, e, entre os espetáculos eruditos, elege o Requiem, de Mozart, como seu favorito. Mas Carla não abandonou o rock: atualmente, ela mantém a banda No One Spoke, que conta também com Iva Giracca, spalla da Camerata (ou seja, responsável pelo primeiro-violino) – o grupo se prepara para lançar o primeiro single em breve.

Dudu Fileti também começou cedo: ainda criança, em sua cidade natal, Armazém, no sul de Santa Catarina, o artista já cantava em bandas de baile e programas de rádio. Em 1999, passou a integrar a banda Zawajus, em Florianópolis; e voltou a investir na mídia em 2014, quando participou do programa televisivo The Voice. Só depois Dudu finalmente pôde se dedicar a gravar e lançar seu primeiro álbum. “Depois de trinta anos trabalhando com música, estava mais do que na hora de gravar meu CD, né?”, ele brinca. Com o título Amizade, o disco é uma parceria com Alegre Corrêa, e traz letras de grandes poetas catarinenses.

Dudu Fileti - Camerata Florianópolis - Foto: Tóia Oliveira

“Eu gosto de cantar de tudo – gosto de estar com a minha mente aberta para todo tipo de música”, declara Dudu, ao ser perguntado sobre o estilo de seu trabalho mais autoral. “Eu me coloco principalmente como intérprete, e meu próprio CD é muito eclético.” Suas performances ao lado da Camerata refletem essa versatilidade: o vocalista já cantou no Rock’n Camerata, no POP Camerata (onde se apresenta ao lado da esposa, a também cantora Luana Laus de Sousa), no Especial Beatles e no Tributo ao Queen – e, até agora, escolhe o Tributo ao Queen como seu favorito.

Já Rodrigo “Gnomo” Matos começou a se arriscar como vocalista de uma maneira parecida com a de Daniel: guitarrista por paixão, começou a cantar quando o vocalista de sua primeira banda autoral saiu do grupo. “Meus amigos brincavam que eu tocava mal guitarra, e falaram para eu assumir o cargo de cantor”, ri. Também catarinense, natural de São Joaquim, o músico mora em Florianópolis desde 1981; e, desde 2010, já cantou em diversos projetos da orquestra: o Rock’n Camerata, o Tributo ao Queen, e até mesmo a ópera-rock Frankenstein, pela qual diz ter um carinho especial.

O espetáculo foi lançado em comemoração aos 25 anos da Camerata; e é ambicioso, com dois atos e cerca de duas horas de duração. Rodrigo interpretou Victor Frankeinstein na ópera. Carla Domingues atuou como Elizabeth; e Alírio Netto, vocalista do Queen Extravaganza, subiu ao palco como a famosa Criatura da peça (confira aqui uma entrevista com Alírio). Para não estragar a surpresa, Rodrigo não revela detalhes; mas conta que há planos de realizar uma turnê de Frankenstein – nacional, ou até mesmo internacional.

Rodrigo Matos - Camerata Florianópolis - Foto: Tóia Oliveira

Além de estar planejando a estreia de um disco próprio, o músico também tem um lado “nerd”: um projeto pessoal seu atualmente em andamento é o Marmor – grupo multicultural e multimídia que envolve não só música, mas também HQ e RPG, sigla para role-playing game. O primeiro produto do grupo – um livro/CD com canções de artistas de diversas partes do mundo – foi lançado na primeira CCXP do Brasil, em 2014.

Para os cantores, a Camerata não é só uma maneira de viver o amor pela música de uma maneira única: é, também, em um sentido mais prático, uma maneira de viver do amor pela música. “O trabalho que a Camerata faz com a música popular mostra um caminho de sobrevida para as orquestras no Brasil, já que a música erudita ainda não é tão difundida por aqui”, opina Rodrigo. “É uma chance de, com a popularidade desse tipo de show, chamar pessoas também para o lado da música clássica.” Essa aproximação do clássico e do popular é chamado de crossover. “O crossover está na moda agora; essa coisa de não ser muito preso a padrões musicais, de fazer misturas”, diz Daniel. “Mas a Camerata foi inovadora ao fazer isso aqui no estado. Acho que a Camerata ainda tem espaço para crescer muito no cenário brasileiro nos próximos anos.”

“O público de Florianópolis pode se considerar privilegiado por ter acesso a esse tipo de opção cultural, porque a situação da cultura em muitos lugares do Brasil não é boa”, ressalta Carla. “Muitas orquestras não conseguem trabalhar, e o público acaba sendo privado do acesso a esse tipo de arte.” A soprano se mostra feliz por já ter tido a oportunidade de acompanhar a Camerata em turnês pelo interior do estado, e inclusive se apresentar em cidades que nunca haviam recebido um espetáculo de orquestra. “Conversar com as pessoas depois do show e perceber a alegria delas por ter tido a oportunidade de conhecer algo assim é impagável.”

*Fotos: Tóia Oliveira
*Colaborou Leonardo Abreu