A descoberta foi feita no acervo do compositor, regente e professor José Siqueira

Por GaúchaZH

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em março de 1939, estreava na Escola Nacional de Música, no Rio de Janeiro, a primeira parte da peça que se tornaria o maior hit da música clássica brasileira no mundo – “Ária”, ou “Cantilena”, das “Bachianas n° 5”, de Heitor Villa-Lobos, para oito violoncelos e soprano.

A partitura que se conhece desde então tem letra de Ruth Valladares Corrêa, que cantou na primeira audição. Pouco depois, em maio, a “Ária” seria interpretada por Bidu Sayão no pavilhão brasileiro da Feira Mundial de Nova York. A partir daí, entrou para o repertório de grandes sopranos, regentes, orquestras e até estrelas da música popular como Joan Baez e Elizeth Cardoso.

Mas essa história acaba de ganhar um novo capítulo com a aparição da partitura original manuscrita da composição de Villa-Lobos, com letra de Altamirando de Souza. A descoberta foi feita no acervo do compositor, regente e professor José Siqueira. Pela primeira vez surge o documento sem intervenções, com data de 1938.

A ordenação desse acervo vem sendo feita pela Academia Brasileira de Música, a ABM, em parceria com a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O vice-presidente da ABM, André Cardoso, achou a partitura no material doado pela neta de Siqueira às instituições.

Paraibano, Siqueira marcou época, embora não seja tão famoso. Fundou, com Villa-Lobos, a ABM, além da Ordem dos Músicos do Brasil, a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Sinfônica Nacional. Foi aposentado na época do AI-5 por sua militância comunista.

Claudia Castro, diretora do Museu Villa-Lobos, vê no achado “uma pepita de ouro”. “A ‘Ária’ representa a alma lírica brasileira. Vamos agora nos debruçar sobre essa história.”

João Guilherme Ripper, presidente da ABM, foi quem notou a letra diferente. “E ninguém sabia quem era Altamirando”, conta o musicólogo Manoel Corrêa do Lago. “Havia só um boato de que Villa-Lobos teria sido processado e mudara a letra”, explica.

Jornais da época noticiaram a polêmica. Nos anos 1930, o baiano Altamirando de Souza oferecia com pouco sucesso poemas a revistas e não mereceu atenção até acusar Villa-Lobos pelo uso de “Fim de Tarde” sem dar o devido crédito.

Ao jornal A Noite, em 20 de março de 1939, Souza afirmou que Villa-Lobos ouvira seus poemas em 1938 e, um mês depois, o procurara dizendo que “aproveitaria” um deles numa peça que seria gravada para integrar um pacote de 32 discos de 78 rotações, encomendado a diversos compositores e destinado a rádios e orquestras americanas, no âmbito da Feira de Nova York, para divulgar a cultura brasileira.

O musicólogo Flávio Silva tem um raro exemplar desse disco, com a voz de Ruth Valladares Corrêa entoando a letra original. “A música reunia o melhor da produção musical brasileira”, diz.

Quando convidado para a gravação, Souza viu que seu nome não constava da etiqueta do disco e declara, ainda na reportagem do A Noite, que se queixou e entregou “a defesa dos direitos a advogados”. Pediu indenização e recolhimento dos exemplares.

Villa-Lobos confirmou em entrevista da mesma semana que não dera o crédito. “Me utilizei dos versos de poetas como Alvaro Moreyra, Manuel Bandeira, sem jamais lhes pagar direitos autorais. Sentem-se até muito satisfeitos. Minha música não é samba, é expressão artística, elevação espiritual. Seria absurdo ter que pagar pela inspiração. Eu iria pagar ao Brasil pela natureza em que tenho me inspirado.”

O caso foi julgado em abril de 1939, mas Villa-Lobos já havia providenciado outra letra, a de Ruth Valladares Corrêa. Na partitura do Museu Villa-Lobos, é possível notar uma superposição dos textos. “É a mesma temática. Imagine, Altamirando perdeu a chance de reconhecimento planetário”, aponta Corrêa do Lago.

Mais tarde, o próprio poeta também seria acusado de plágio. O alagoano Jayme de Altavilla escreveu em junho de 1939 no Jornal das Moças apontando a “apropriação indébita” do soneto “Você” –publicado antes por Altavilla na revista Fon-Fon em 1926, ele foi reproduzido por Souza em O Malho de fevereiro de 1939 e no mesmo Jornal das Moças de abril daquele ano.

Marisa Gandelman, advogada especialista em direitos autorais na música, confirma os fatos. Muitas vezes, em especial com Villa-Lobos, não era formalizada a relação entre os autores. “Poetas musicados por Villa-Lobos, parece, se sentiram honrados ou não se preocupavam com isso”, diz. “Era uma informalidade criativa. Há pelo menos outro caso com Villa-Lobos, a querela com o poeta Catulo da Paixão Cearense pelo uso de ‘Rasga o Coração’ nos ‘Choros n° 10’.”

Segundo Corrêa do Lago, a “Ária” ou “Cantilena”, a primeira parte das “Bachianas n° 5”, é “a fantástica mistura da nossa modinha e da ária barroca”.

A peça, que ganharia uma segunda parte em 1945, com letra de Manuel Bandeira, “Dança” ou “Martelo”, foi fartamente gravada. Há versões com regência de Villa-Lobos, cantadas por Bidu Sayão, em 1947, Victoria de Los Angeles, em 1957, e pelas cantoras líricas Barbara Hendricks, Kiri Te Kanawa e Renée Fleming, além de variações regidas por Bernstein e Gustavo Dudamel.

André Cardoso levantou na ABM o número de execuções da obra entre 2015 e 2018. Houve oficialmente 468 ocasiões em 32 meses, cerca de uma a cada dois dias. “E juntar oito violoncelos não é fácil. Nenhuma peça brasileira de câmara nem chega perto.”