“Los Silencios” estreou na quinta-feira (11) no Brasil

Por GaúchaZH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “É possível conviver e perdoar uma pessoa que matou a sua família?” A questão, levantada pela cineasta brasileira Beatriz Seigner, está no centro do impasse das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e é um questionamento importante em seu novo filme, “Los Silencios”, em cartaz nos cinemas.

O longa se passa em uma ilha no rio Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Protagonistas da história, Amparo e seus dois filhos chegam ao local fugindo de conflitos com as Farc. O marido, o líder comunitário Adão, havia sido assassinado.

Ao longo de anos, refugiados do conflito chegaram ao território, chamado de ilha da fantasia, em busca de abrigo, desenvolvendo uma comunidade em luto por seus mortos. É nesse lugar que Adão reaparece na forma de um fantasma para seus familiares, que ainda buscam seu corpo e a indenização por sua morte.

Seigner participou de debate na segunda-feira (15) após uma sessão especial do filme promovida pela Folha, o Espaço Itaú de Cinema e a Vitrine Filmes. O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, especializado em terapia familiar, também integrou a discussão. Carolina Vila-Nova, jornalista da Folha de S.Paulo, fez a mediação.

A maior parte do elenco é composta por moradores da ilha, que vivem situações semelhantes às mostradas no filme. As exceções são o ator peruano naturalizado brasileiro Enrique Díaz (“O Mecanismo”, “Onde Nascem os Fortes”), que interpreta Adão, e a atriz colombiana Maleyda Soto (“A Terra e a Sombra”), que vive Amparo.

Para a cena de uma assembleia, em que vivos e mortos falam sobre suas experiências no conflito colombiano, a diretora escalou um ex-guerrilheiro, um paramilitar e vítimas reais de ambos os lados.

“Senti a guerra na pele, sou uma vítima do conflito armado. Já se passaram 14 anos. O vazio de perder alguém da família nunca vai ser superado, é um capítulo que não se encerra. Não posso dizer que vou perdoar, perdoar não é fácil”, conta um dos familiares das vítimas.

Apesar de ensaiados previamente, os depoimentos narram o que de fato aconteceu com aquelas pessoas e como elas lidam com o luto. “É a sequência mais documental, mas também a mais fantástica do filme”, descreve Seigner.

A cena reflete as dificuldades do acordo de paz do governo colombiano com as Farc , que, apesar de rejeitado pela população em plebiscito, entrou em vigor em 2016. Um dos motivos para a rejeição de parte do público foi a falta de reparação pelos milhares de mortos e desaparecidos.

Para a diretora, o documento do acordo foi pouco debatido com a população, o que teria gerado incompreensão quanto ao seu conteúdo. Seigner lamentou a ascensão do político conservador Iván Duque à presidência do país, que já anunciou que deverá revisar itens do acordo. “Vai voltar tudo ao que era antes”, afirmou a cineasta.

De acordo com o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, violência como a vivida pela família mostrada no filme “deixa três marcas na alma: a humilhação, a vergonha e o medo”.

Amaral apontou que, sem uma reparação pela morte, há também uma grande dificuldade de os familiares seguirem em frente.

Para o psicólogo, existe uma ironia no nome da protagonista Amparo, já que ela mesma não recebe amparo algum do Estado e se encontra em uma situação financeira e social que a impossibilita de amparar os próprios filhos. Um deles, Fabio, se rebela e é atraído por garotos mais velhos para o crime.

“Los Silencios” estreou na quinta-feira (11) no Brasil, quatro dias depois da primeira sessão na ilha da fantasia, para aqueles que inspiraram grande parte do longa, contou Seigner. “Foram umas 250 pessoas assistindo em praça pública. No final, me agradeceram por ter voltado. Muita gente filma ali, mas ninguém volta.”