Gênero foi esnobado outra vez na maior premiação do cinema americano, que tem reticência histórica com o formato

Por GaúchaZH

Enquete rápida: quantos filmes de terror foram indicados a melhor filme nos 91 anos do Oscar? A resposta é seis: O Exorcista, em 1974; Tubarão, em 1976; O Silêncio dos Inocentes, em 1992; O Sexto Sentido, em 2000; Cisne Negro, em 2011; Corra!, no ano passado. Uma lista que poderia ficar ainda menor se observássemos que alguns desses filmes não são explicitamente vinculados ao terror, disfarçando-se como thrillers (casos de Tubarão e O Silêncio… – este último, o único filme de horror premiado como Melhor Filme até hoje).

Essa histórica prevenção dos votantes da Academia com o gênero fez novas vítimas na edição deste ano, deixando de fora das listas de concorrentes filmes e atuações que, em sua estreia, haviam surgido como potenciais indicados.

Já quando a lista dos concorrentes a Melhor Atriz foi divulgada, em 22 de janeiro, uma ausência foi logo notada por mais de um comentarista: a de Toni Collette, responsável, praticamente sozinha, por muito do hype cinematográfico envolvendo Hereditário, longa de estreia do diretor Ari Aster. Collette vive no filme Annie, mãe de uma família que começa a se desagregar devido ao legado turbulento da matriarca da família, mãe da personagem e uma megera que parece ter tornado a vida de todos à sua volta um inferno.

Collette pode ter sido vítima também da própria badalação em torno do filme, vendido depois de Sundance como um “novo O Iluminado”, e, na verdade, um terror medíocre sem momentos de real tensão. Hereditário é um filme que teria sido muito menor não fossem as atuações de Colette e da estreante Milly Shapiro, que vive a filha caçula de Annie. Ambas foram ignoradas na festa.

Caminho semelhante tomou Emily Blunt com sua elogiada atuação em Um Lugar Silencioso, longa de estreia de John Krasinski, marido da atriz na vida real e coprotagonista da produção. Situado em um futuro distópico em que uma família tenta sobreviver a misteriosas criaturas que caçam a humanidade orientadas pelo som, o filme foi uma das boas surpresas do repertório do horror no último ano, mas não pareceu aos votantes da Academia transcender os limites do gênero como Corra!, indicado na última edição.

Relação entre o prêmio e o gênero é complicada
A nominata deste ano não representa uma novidade na relação tumultuada entre o Oscar e o horror. O gênero parece ser daqueles que a Academia mais teve dificuldade de avaliar, historicamente. Antes de O Exorcista, nenhum filme remotamente aparentado ao gênero foi indicado para Melhor Filme durante os primeiros 40 anos da existência da premiação. Ao mesmo tempo, produções hoje consideradas clássicas foram esnobadas em seu tempo, como Frankenstein (1931), O Bebê de Rosemary (1968) e O Iluminado (1980).

Parte desse problema pode ser justamente a dificuldade dos votantes da Academia de reconhecer as gemas ocasionais dentro do grande número de produções realizadas anualmente, fruto da paixão do público pelo gênero – o que leva alguns dos bons exemplares a serem confundidos com diversão escapista e repetitiva – e para cada O Iluminado, há pelo menos quatro sequências duvidosas e reboots de Sexta-Feira 13, por exemplo.

A conexão com o público, no entanto, essa não parece ter sido perdida. Como escreveu um dos mestres do gênero, Stephen King, no ensaio Dança Macabra: “O gênero terror tem sido muitas vezes capaz de atingir pontos de pressão fóbica em nível nacional, e os livros e filmes de maior sucesso quase sempre parecem expressar e jogar com temores que afligem um amplo espectro de pessoas”.