Produção fala sobre o sincretismo religioso presente na vida da cantora baiana

Por GaúchaZH

Candomblé e catolicismo, sexualidade e religião, sagrado e profano, festa e fé. Ao unir conceitos que parecem distantes, Maria Bethânia é mostrada como uma representação da diversidade cultural e religiosa do Brasil no documentário Fevereiros, que estreou quinta-feira (31). Adepta da umbanda, a cantora volta todos os anos à sua cidade natal, Santo Amaro (BA), no mês de fevereiro, para participar dos festejos de Nossa Senhora da Purificação, santa católica.

Para o músico, compositor e professor de literatura da USP José Miguel Wisnik, a cantora é um caldeirão que mistura elementos como arte, cultura popular, religião e sexualidade.

– São todas coisas que têm sido atacadas com virulência e violência na nossa sociedade, assim como as religiões afro-brasileiras – disse.

O comentário do músico foi feito no debate após sessão especial do filme, que teve um público de mais de 250 pessoas e foi promovida pela Folha de S.Paulo na segunda-feira (28). O documentário faz uma relação entre a participação de Bethânia no desfile da Mangueira no Carnaval carioca em 2016 e as comemorações da Nossa Senhora da Purificação. A mediação do debate foi feita pela jornalista da Folha de S.Paulo Teté Ribeiro.

 

Com o enredo Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá, a Mangueira foi campeã do Carnaval carioca. Oyá, também conhecida como Iansã, é a orixá dos ventos no candomblé, à qual a artista é muito ligada.

Wisnik destacou também as raízes baianas do samba carioca e sua conexão com as religiões afro-brasileiras, ressaltando a ponte que a cantora faz entre candomblé e catolicismo, religião de sua mãe, a Dona Canô (1907-2012).

O diretor do documentário, Marcio Debellian, defendeu a convivência pacífica entre as religiões, que afirmou estar ameaçada hoje no país, e disse que Fevereiros pode chamar a atenção positivamente para esse aspecto:

– Essa mistura é o Brasil que a gente ama, que achava que estava garantido, mas não está. Cada um tem sua espiritualidade, o Estado não pode regimentar sobre isso.

Segundo o cineasta, o depoimento de Bethânia, que conduz a narrativa, foi a última sequência gravada para o filme, já depois das comemorações apresentadas no documentário. No longa, também há falas de Caetano Veloso e de Chico Buarque.

Para o historiador Luiz Antônio Simas, Bethânia representa socialmente um elemento forte dentro de uma rede de proteção social de religiões marginalizadas no país, especificamente as criadas por descendentes de escravos. Ele lembrou que a própria Mangueira surgiu dentro de terreiros de candomblé e umbanda.

Terreiros que não têm espaços definidos, mas se constroem a partir dos rituais que são praticados sobre eles, explicou o historiador. “A Marquês de Sapucaí geralmente é inóspita, mas quando vem o Carnaval, a escola de samba, o cavaco, alguém que cospe uma cachaça para pedir licença e entrar ali, você transforma o território em terreiro.”

De acordo com Simas, o filme consegue mostrar a forma como a cantora “sacraliza o profano e profana o sagrado”, fazendo unir realidades que parecem distantes.

– Lembrei de um samba do Zé Ramos, compositor fundador da Mangueira, que diz: “O que a mangueira tem/ Mocidade, samba e harmonia/ Nossas baianas com seus colares e guias/ Até parece que eu estou na Bahia”. O que é fascinante no filme é que já não se sabe mais o que é Mangueira e o que é Bahia, como as duas coisas se encontram. É um espaço em que o Brasil consegue constituir formas originais e muito potentes de inventar a vida.