Prestes a desembarcar em Florianópolis para dois shows, Ney Matogrosso conversou com a Itapema sobre a turnê Bloco na Rua e seu novo livro de memórias, Vira-Lata de Raça

Ney Matogrosso passou cinco anos rodando o país com Atento aos Sinais, a turnê mais longa de sua carreira – e, menos de um ano depois do encerramento, estreia um novo show, Bloco na Rua. Novíssimo (até agora foram apenas cinco apresentações, todas no Rio de Janeiro), o espetáculo chega a Floripa neste final de semana, para duas apresentações no Teatro do CIC. Em entrevista exclusiva à Itapema, o artista falou sobre a nova turnê e também sobre Vira-Lata de Raça, seu novo livro de memórias, que saiu em novembro de 2018.

Ney Matogrosso - Bloco na Rua

Itapema: Atento aos Sinais foi a turnê mais longa da sua carreira – e você começou Bloco na Rua menos de um ano depois. A nova turnê já estava em planejamento enquanto você fazia os shows de Atento aos Sinais?
Ney Matogrosso: Eu já estava mexendo nos roteiros há mais de um ano: tinha seis roteiros prontos para uma nova turnê. Fui montando aos poucos, mas mesmo viajando com a Atento aos Sinais eu já estava planejando esse roteiro novo.

Itapema: Por que o nome Bloco na Rua? Houve algum conceito, alguma mensagem especial dessa música [‘Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua’, de Sergio Sampaio] que tenha determinado o título do novo show?
Ney Matogrosso: Não foi por causa de uma mensagem, exatamente. O roteiro não tinha nome ainda, e eu já estava ensaiando. Aí um dia, nos ensaios, cantando essa música, eu pensei que seria uma boa ideia: dá uma ideia de um movimento, de levar esse bloco para a rua. Eu sintetizei a ideia e achei que ficou um nome bom. Eu sempre gosto de botar nomes nos meus shows.

Itapema: A maioria das músicas do novo repertório é de composições de outros artistas, inéditas na sua voz. Também há algumas canções bem antigas, como as de seu trabalho com o Fagner [o compacto duplo ‘Ney Matogrosso e Fagner’, lançado em 1975]. O que pautou a escolha do repertório?
Ney Matogrosso: A escolha do repertório foi bem afetiva: é tudo que eu gosto – tanto músicas que eu nunca tinha cantado quanto músicas que já tinha cantado, mas de que gosto muito. São canções já bem conhecidas e cantadas por muita gente: as que eu já cantei, eu cantei há muito tempo atrás. Só tem uma música inédita, Inominável: eu não tive nenhuma preocupação em incluir músicas inéditas, mas essa entrou pelo mesmo conceito das outras, o critério afetivo, porque também é uma faixa que eu conheço há algum tempo e de que eu gosto. No Atento aos Sinais foi o contrário, eu tive a preocupação de colocar bastante coisa inédita.

Itapema: Você já sabe se esse show também vai virar CD e DVD, como o Atento aos Sinais?
Ney Matogrosso: Vai virar sim, mas no tempo dele. Eu não faço nada correndo. Eu vou primeiro fazer o show, durante alguns meses; depois entro no estúdio, gravo, aí sai o CD, eu continuo fazendo a turnê, aí gravo o DVD depois de mais alguns meses. Eu faço tudo ao contrário do que todo mundo faz.

Itapema: Então pode vir a ser outra turnê longa?
Ney Matogrosso: Olha, eu nunca imaginei que a Atento aos Sinais ia durar cinco anos – antes disso, o máximo que tinha durado uma turnê minha tinha sido dois anos e meio. Tanto que, quando eu estava fazendo a turnê há uns três anos, eu decidi que ia parar. Mas eu não pude! Quando anunciei que ia parar, muita gente pediu que eu continuasse, tinha uma procura muito grande pelo show. Então pode acontecer, sim. Vamos ver.

Ney Matogrosso - Bloco na Rua

Itapema: A turnê é super nova, estreou agora em janeiro. Como tem sido os shows até agora?
Ney Matogrosso: Eu só fiz cinco apresentações até agora, todas no Rio de Janeiro. Foi a estreia, né? E a receptividade foi impressionante. A gente nunca sabe o que vai encontrar pelo caminho da gente, né? Não sabe se vai agradar, se as pessoas vão gostar… É sempre uma incógnita. Mas, desde o primeiro dia, o público estava totalmente aberto, totalmente receptivo, curtindo e mostrando que estava gostando. Então agora eu estou mais tranquilo. Porque estrear no Rio de Janeiro, sem nunca ter apresentado o show em lugar nenhum, é muito estressante.

Itapema: Ainda dá esse nervosismo, mesmo com tantos anos de carreira?
Ney Matogrosso: Claro, claro. Porque eu não costumo fazer assim. Eu sempre estreio em Juiz de Fora, porque aí eu tenho uma chance de ver a reação do público, mexer no show se for necessário. Dessa vez eu não tive esse tempo, estreei direto no Rio de Janeiro. E no Rio você já estreia com todo mundo querendo escrever e fazer críticas, não é assim? Então é meio estressante pra mim. Mas deu tudo certo.

Itapema: Recentemente saiu seu novo livro de memórias, Vira-Lata de Raça. Como foi o trabalho de pesquisa? Por que lançar esse livro agora?
Ney Matogrosso: Partimos de entrevistas: fizemos um levantamento de entrevistas que eu dei, algumas de há muitos anos – quando tínhamos bastante material, eu dei três entrevistas complementares ao Ramon [Ramon Nunes Mello, poeta, escritor e jornalista que organizou o livro], para atualizarmos os assuntos. Era uma coisa que eu pretendia fazer há muito tempo, na verdade. Mas eu não pretendia fazer nesse formato: eu queria fazer um levantamento das minhas próprias entrevistas, desde que eu comecei minha carreira, reunir críticas publicadas ao meu trabalho… Ao longo do processo é que tudo foi se transformando em um livro de memórias.

Itapema: Como foi reviver essas memórias e compartilhá-las com o público?
Ney Matogrosso: Na verdade já estava tudo exposto: eu não tenho nenhum mistério, nenhum segredo guardado – eu sempre falei tudo, de tudo. Claro, eu não cito os nomes de pessoas com quem em vou pra cama: acho que não seria muito elegante ficar falando. Quem eu cito no livro, como o Cazuza, são pessoas que todo mundo já sabia, que já era público.

Itapema: Algumas matérias sobre o livro destacaram uma frase sua, em que você diz que “se nega a ser estandarte do movimento gay”. Por quê?
Ney Matogrosso: Isso já virou um debate, né? Isso se refere principalmente à década de 1970, quando eu surgi. Porque eu vi que havia, na época, uma tentativa de manipulação para que eu fosse um estandarte do movimento gay, e ponto – como se eu não pudesse ser nada além disso. Eu não me resumo a isso: eu penso, raciocino, observo o mundo ao meu redor, e não posso ser rotulado disso, colocado dentro de uma caixinha assim. Eu sou mais que isso. Mas claro que eu apoio todos os movimentos de liberdade: acho que todo mundo tem direito de se manifestar, de se expressar com sua verdade, e as outras pessoas têm que respeitar. As pessoas têm que ser respeitadas. Eu só não quero ficar limitado a isso.