A atriz interpreta uma investigadora tão desgastada por uma vida inteira de tragédias que mal parece ainda estar viva

Por GaúchaZH

Nicole Kidman entrou em uma fase tão prolífica da carreira que, se você quiser, pode vê-la em três filmes só nesta temporada – mas aposto que nunca a viu fazer nada semelhante a O Peso do Passado.

Esse longa sombrio, nos moldes noir, se passa em Los Angeles e foi dirigido por Karyn Kusama. Nele, Kidman interpreta Erin Bell, uma investigadora tão desgastada por uma vida inteira de tragédias que mal parece ainda estar viva. Com os olhos vermelhos, ela avança pela rua movida a pura fúria, e a atriz mergulha tão fundo nesse sentimento que fica irreconhecível.

Quando nos encontramos em um hotel de West Hollywood, em novembro, para conversar sobre o filme, Kidman falava como se tivesse acabado de se livrar do feitiço que o produção jogara sobre ela.

— Kusama é uma cineasta de força, e me levou a lugares onde eu nunca tinha estado antes. Não é de muitas palavras, é durona. “Ah, tá bom”, é o máximo que diz. Mas sou australiana, não preciso de muita paparicação. Conseguíamos nos comunicar quase que telepaticamente, e ela protegia meu espaço.

A estrela também está em Aquaman, como a rainha e mãe do herói, pode ser vista em Boy Erased: Uma Verdade Anulada, e estará ao lado de Meryl Streep na tão aguardada segunda temporada de Big Little Lies, exibida pela HBO.

— Cheguei ao ponto de saber que tenho de estar sempre fazendo escolhas interessantes e me manter fiel à minha essência; do contrário, começo a ficar agitada e ansiosa — revela.

Assista ao trailer de O Peso do Passado

Entrevista completa

P: Como se sentiu no dia anterior ao início das filmagens de O Peso do Passado?

R: Apavorada! Só conseguia achar que não ia dar conta; aí, quando cheguei ao set, acho que não falei com ninguém. Estava travada, mas isso era coisa da Erin.

P: É fascinante esse lance da Erin de não se importar com o que os outros acham dela ou se vai sobreviver ao caso em que está trabalhando. É libertador interpretar alguém assim ou dá medo mesmo?

R: É libertador, sem dúvida. Ela é uma pessoa perigosa. Muitas vezes, antes de começar a gravação, eu soltava um grito ou um gemido bem forte – é, eu sei que parece coisa de doido.

P: Bom, ela é uma personagem primeva. Como foi viver dentro disso durante as gravações?

R: Carregar o peso dela me deixava para baixo porque é uma coisa que tem de ser para valer. Por outro lado, tinha um lance fantástico nisso de poder extravasar aquela energia toda. Nunca tinha feito uma coisa parecida antes em um filme. Tem uma cena em que entro e dou uma surra no namorado da minha filha, acho que foi o segundo ou terceiro dia de filmagem. Tentei negociar com o sujeito antes, mas ele disse que aguentava o tranco. Aí, quando comecei a empurrá-lo, percebi que ficou meio “Opa!”. Eu estava muito, muito brava.

P: Acho que é a primeira vez que interpreta uma personagem tão agressiva, não?

R: Sim, e dava para ver bem pela reação das pessoas no set. Todo mundo tentava me evitar, mas aprendi há muito tempo, com a Jane Campion, que foi quem me disse: “Você não está disputando o título de atriz mais popular. Tem de se manter fiel à essência da personagem.” Pode ser decente com as pessoas, respeitá-las e tal, mas não dá para ficar de conversinha, fazendo piada. Do contrário, daria a impressão de que eu estava forçando a interpretação.

P: O filme mostra uma Erin jovem e a versão acabada e envelhecida dela. É interessante que, mesmo com a maquiagem e os efeitos especiais, você encarnou as duas.

R: Normalmente, chamariam uma atriz mais nova, mas aí seria um problema para mim. Não aceitaria assumir uma personagem se não pudesse mostrar todas as suas transformações; seria frustrante demais. Uma coisa muito interessante sobre a Erin é que, quando descobre que está grávida, ela está chapada – e é essa a relação que começa com a filha. É fascinante e doloroso ao mesmo tempo, e, se eu não puder interpretar essa cena e os dois aspectos da personagem, então para mim não valeria a pena.

P: Você também arrasa em Aquaman, de James Wan, embora, é claro, não chegue nem perto do que faz em O Peso do Passado.

R: Pedi ao James que me desse uma sequência de ação, pelo amor de Deus! É legal mostrar para as minhas meninas que posso fazer essas coisas também, fazer parte desse mundo de fantasia. A maioria dos meus trabalhos é material muito pesado. Raramente, faço algo levinho, que seja divertido.

P: A última vez que esteve em um filme de super-herói foi como par romântico em Batman Eternamente (1995), mas desta vez você tem poderes especiais e usa uma roupa especial, cheia de escamas.

R: Adorei aquele macacão. Tão confortável! Adorei também a jaqueta de couro que usei em O Peso do Passado, tanto que a vesti em casa. Eu me recusava a tirar, não deixava lavar. Eu tinha mergulhado de cabeça naquele espaço, embora não tivesse consciência disso, o que é ainda mais esquisito.

P: Quando percebeu o que estava fazendo?

R: Agora, aqui, falando com você! Usar a roupa que, na verdade, faz parte do quadro da depressão [de que a personagem sofre e que acabou afetando a atriz]. É um sinal, não é, tipo você nem se importa mais com o que está usando? Mas é legal quando acontece para um papel. É o tipo de coisa que procuro.

P: Em breve o público vai ver você na segunda temporada de Big Little Lies, da qual também é produtora executiva. A reação à primeira foi talvez um dos pontos altos de sua carreira, não?

R: O mais alto! Bom, Moulin Rouge também foi forte, mas essa série não ficou muito atrás.

P: A princípio, foi estabelecido que o seriado não teria mais que uma temporada. Como se sente revisitando a personagem Celeste, com todas as expectativas que isso acarreta agora?

R: Sentimos o peso da responsabilidade, mas por que não tentar? Acho que é uma iniciativa legal, artisticamente falando. Se você consegue superar as expectativas e a sensação de euforia da descoberta, aí já é outra coisa, mas, com certeza, há um interesse explícito no que vem por aí. A Celeste ainda está ferida e tem de lidar com a personagem de Meryl [sua sogra]; essas coisas são fascinantes.

P: Jean-Marc Vallée dirigiu todos os episódios da primeira temporada, mas quem assume a segunda é Andrea Arnold. Você disse que trabalhar com mulheres atrás das câmeras se tornou uma prioridade sua.

R: Em parte, foi por isso que fiz O Peso do Passado, para apoiar a Karyn. Boa parte da nossa equipe técnica também era feminina, inclusive a diretora de fotografia e a diretora-assistente. Sempre que tenho a oportunidade, gosto de prestigiar. Tenho de fazer minha parte para mudar as estatísticas com as escolhas que faço agora.

P: Você não só passou a dar preferência a projetos dirigidos por mulheres, mas àqueles que contam com um elenco basicamente feminino.

R: Foi por isso que topei fazer esse filme sobre Roger Ailes com Charlize Theron e Margot Robbie. Queria apoiar a Charlize.

P: É sobre a cultura do assédio sexual da Fox News, e você interpreta Gretchen Carlson, não é?

R: Sim, e Kate McKinnon está no elenco, Allison Janney… é um grupo feminino forte. Faço uma participação pequena, mas fiquei feliz de poder participar para demonstrar meu apoio. Não dá para ficar só no blá-blá-blá, é preciso agir!