A coletânea organizada por Adriana e Isabel Falcão traz textos publicados pelo autor na imprensa

Por GaúchaZH

Não é à toa que a raiz de “crônica” está em Krónos, palavra grega para o tempo: cronistas foram, em eras antigas, proto-historiadores que registravam as façanhas e acontecimentos notáveis de um determinado período ou reinado. Nesse sentido, é bastante apropriado o recorte escolhido pela escritora Adriana Falcão e sua filha, a professora Isabel Falcão, para a nova coletânea de textos do mestre da crônica brasileira, Luis Fernando Verissimo. Ironias do Tempo, o volume resultante desse projeto, reúne artigos publicados na imprensa por Verissimo ao longo das últimas duas décadas e funciona ora como registro bem-humorado de um tempo em acelerada transformação, ora como perturbadora evidência de que algumas coisas mudaram muito pouco no país.

– A ideia foi da editora (Companhia das Letras) – explica Verissimo – Já tinham feito o mesmo com um livro meu de textos infantojuvenis, selecionados e apresentados pela Ana Maria Machado. A Adriana e a Isabel, mãe e filha escritoras, devem ter resistido à tentação de dar uma melhorada nos textos. Que eram muitos e de várias épocas, e imagino que deram trabalho. Que agradeço.

Adriana comenta:

– Achar um fio unificador foi uma tarefa gigantesca. Eu e Isabel lemos mais de mil crônicas e ambas tivemos a mesma sensação. Tem uma coisa bonita aqui que dá uma ideia do quanto mudou de lá pra cá. E, ao mesmo tempo, tem crônicas lá de 2009 que, em 2018, estavam iguais. Parecia que cada crônica reiterava esse duplo tratamento: como o tempo pode mudar tudo e como, às vezes, pode não mudar nada. Foi assim que propusemos esse tema, Ironias do Tempo.

Adriana, 58 anos, foi convidada pela editora a assumir a seleção das crônicas. Ao longo do processo, começou a consultar Isabel, 26 anos, formada em Letras e com experiência prévia no mercado editorial. A troca de opiniões foi se tornando tão orgânica que Adriana propôs que a filha fosse agregada ao projeto, o que, de certa forma, coroou uma admiração antiga que Isabel sentia pelo trabalho de Verissimo.

– Me tornei fã dele ainda criança, devia ter uns oito anos de idade. Ele tinha um livrinho de desenhos que eu reproduzia, e minha mãe mostrou para a Mariana Verissimo, filha dele. O livro Crônicas para Ler na Escola ele mandou para mim com uma dedicatória. Achei aquilo muito doce. Ele continuou por anos com a gentileza de responder às minhas cartas – conta Isabel.

Política inalterada e flagrantes cotidianos
Mãe e filha passaram meses vasculhando os arquivos de textos publicados por Verissimo na imprensa desde 1998. Abarcar 20 anos do trabalho do autor teve seus desafios, principalmente com a limitação imposta de que o volume precisava ter menos de 80 textos (terminou ficando com 77).

– Foi quase uma tortura. Trocávamos os textos e ficávamos falando: “Meu deus, essa aqui a gente não pode deixar de pôr”. Eu apontava uma, ela outra, eu sugeria para tirar uma, ela achava que dava para manter se tirasse outra. Foram muitas leituras – conta Adriana

Isabel complementa:

– Foi meio enlouquecedor. Houve um período em que a casa da minha mãe se transformou em uma imensa pilha de papel com post-its. A gente também queria abarcar um panorama contínuo, não colocar muita coisa de um ano ou período só.

Acompanhar essa seleção na íntegra é ver que alguns temas dos quais Verissimo já tratava há duas décadas ainda frequentam o noticiário, basicamente com o mesmo léxico. Um dos primeiros artigos reunidos no livro, Grampo, publicado em 2001, é uma hilária conversa telefônica entre dois sujeitos com interesses esquivos, cada um tentando subornar ou ludibriar o outro. Mas, cientes da possibilidade de grampo telefônico, nenhum quer se identificar ao interlocutor, o que torna a operação toda bastante ridícula. Há também crônicas de 2002 refletindo sobre o custo das alianças do governo FHC que podem ecoar nestes tempos de Lava-Jato. E uma fábula bíblica sobre os perigos da política partidária que provavelmente será atual até o Brasil derreter ao sol.

Há ainda textos que escapam da esfera política para oferecer um olhar sobre minudências do cotidiano iluminadas pela qualidade da prosa de Verissimo, como a onipresença dos alarmes de automóveis (“Os alarmes de carro são a trilha sonora do nosso tempo: o som da paranoia justificada) ou de simples gestos de comunicação não verbal (“o gesto usado para significar ‘telefone’ revela a idade de qualquer um”).

– Selecionamos as crônicas que deixavam mais claras essas ironias do tempo, e como a sabedoria do Verissimo atravessa o tempo – resume Adriana.