A cantora conversou com a Itapema sobre o show A Mulher do Pau Brasil, que apresenta em Floripa neste sábado

Amanhã é dia de show de Adriana Calcanhotto em Floripa: a cantora e compositora traz à cidade o seu show A Mulher do Pau Brasil – ainda há (poucos) ingressos à venda. Com canções inéditas e releituras, o espetáculo – que foi idealizado como “concerto-tese”, ou seja, uma conclusão da residência artística de Adriana na Universidade de Coimbra, onde ela passou os últimos dois anos – estreou em Portugal e vai percorrer diversas cidades brasileiras ao longo dos próximos meses.

Adriana Calcanhotto - A Mulher do Pau Brasil

Em entrevista à Itapema, Adriana falou a respeito do show, comentou a influência do Modernismo sobre sua obra, e afirmou que, morando em Portugal, sente-se cada vez mais brasileira. Leia abaixo:

Itapema: Quem é a “Mulher do Pau Brasil”?
Adriana Calcanhotto: Depois que recebi o título de Embaixadora da Universidade de Coimbra no Brasil, as pessoas brincavam e me perguntavam como deveriam me chamar; se era embaixadora, professora, comendadora… E eu falava: “Eu sou a Mulher do Pau Brasil”. A Mulher do Pau Brasil é a mulher brasileira de qualquer cor, de qualquer gênero, que batalha e precisa batalhar. Somos todas nós.

Itapema: Você pode nos contar um pouco sobre sua residência artística na Universidade de Coimbra? Como foi essa experiência, que atividades você desenvolveu – e como isso resultou no show A Mulher do Pau Brasil?
Adriana Calcanhotto: A Mulher do Pau Brasil é justamente um show sobre o olhar para o Brasil a partir de Coimbra. O período em Portugal ajudou muito a pensar minha música e a pensar o Brasil também. A Universidade me pediu para que eu iniciasse as aulas a partir de canções que eu tinha escrito, entre sucessos, inéditas e outras que não ficaram conhecidas. Foi um período bem fértil. Fui pensando muito sobre o Brasil e sobre a minha própria música.

Itapema: Como a letra da faixa-título se relaciona com o tom do show como um todo? E como ambos se ligam à apresentação de mesmo nome que você fez nos anos 1980, inspirada pelo Manifesto da Poesia Pau Brasil? Por que foi importante retomar essa inspiração neste momento específico?
Adriana Calcanhotto: Parti do show de 1987, mas não é o mesmo o show: ele é outro, mas parte das mesmas proposições. Entre um e outro houve muitas idas e vindas deste olhar pelo filtro antropófago, o filtro da Tropicália e da Poesia Pau Brasil. Eu estava tratando das mesmas coisas neste período. É uma característica da minha geração ser influenciada por muitos movimentos. O Modernismo é algo muito profundo na nossa identidade artística. Ouço muitos comentários de que tudo no Brasil é moderno. É a minha matéria-prima, uma das principais. É isso que estudo até hoje.

Adriana Calcanhotto - A Mulher do Pau Brasil

Itapema: As músicas compostas já em Portugal trazem influências dos estilos musicais do país? Como fica o espaço para a brasilidade nas suas composições?
Adriana Calcanhotto: Eu me sinto cada vez mais brasileira porque sou brasileira e tenho passado muito tempo fora. Quanto mais tempo eu passo fora, mais eu me sinto brasileira. Em relação ao cancioneiro brasileiro, nós somos muito folgados, mal acostumados. Não nascem gerações de gênios como acontece aqui. Ouvimos alta poesia na rádio popular. Ouvindo o rádio quando viajamos aprendemos a dar mais valor para as nossas coisas. No estrangeiro, o sonho das pessoas nas férias é vir para o Brasil.

Itapema: Como foi feita a montagem do repertório? Como foram selecionadas – entre tantas – as músicas da parte mais “clássica” do setlist, aquelas músicas mais populares e que já são conhecidas de seu público há tanto tempo?
Adriana Calcanhotto: As canções da primeira montagem da Mulher do Pau Brasil seguiram me acompanhando por toda a minha trajetória, como Eu Sou Terrível, Geleia Geral, enfim – várias delas foram se diluindo, aparecendo em shows e discos que fiz. Depois da estreia em Portugal, fomos desenvolvendo, e o roteiro teve algumas modificações. Tem as músicas inéditas, como A Mulher do Pau Brasil, composta neste período em Coimbra; canto Outra Vez, da Isolda, que fez sucesso na voz de Roberto Carlos; As Caravanas, do Chico Buarque.

Itapema: Estando em Portugal, você enxerga o atual cenário político do Brasil de uma outra perspectiva? Como os acontecimentos recentes nesse cenário se refletem no cenário artístico de Portugal, que tem tantas ligações com o nosso país (e para onde muitos artistas daqui se mudaram nas últimas décadas)?
Adriana Calcanhotto: Este é um excelente momento para viajar o Brasil e levar esses compositores tão importantes. A obra deles faz um sentido nesse momento tão delicado e difícil, no sentido de reforçar as coisas que estão acontecendo, tragédias anunciadas, coisas que se repetem e que não se aprendem com a história.