Apesar da acurada reconstituição e do emocionante tributo a Freddie Mercury, filme em cartaz nos cinemas comete algumas imprecisões cronológicas e factuais

Por GaúchaZH

Diz a letra de Bohemian Rhapsody, canção do Queen que dá nome ao filme em cartaz nos cinemas. “Is this the real life? Is this just fantasy?” (Isto é a vida real? Isto é apenas fantasia?”). A boa cinebiografia da banda britânica, com foco no seu vocalista, Freddie Mercury (1946 – 1991), impressiona com a acurada recriação de época, sobretudo os shows do grupo, e o trabalho dos atores que vivem Mercury (Rami Malek), Brian May (Gwilym Lee), Ben Hardy (Roger Taylor) e John Deacon (Joseph Mazzello). Mas o filme dirigido por Bryan Singer toma algumas liberdades narrativas e comete imprecisões cronológicas que não passam despercebidas dos mais atentos fãs do Queen, uma delas referente ao Brasil.

Veja algumas observações sobre episódios mostrados em Bohemian Rhapsody e como foi na vida real.

Uma grande lambança envolve a primeira visita do Queen no Brasil, para shows em 20 e 21 de março de 1981 no estádio Morumbi, em São Paulo — o primeiro espetáculo foi transmitido ao vivo pela TV Bandeirantes (disponível no YouTube). O coro da plateia em Love of my Life foi um dos momentos marcantes das apresentações. No filme, Mercury comenta com a namorada sua surpresa com a reação dos fãs e a quantidade de gente no estádio (mais de 110 mil pessoas em cada noite). Bohemian Rhapsody coloca esse primeiro show do Queen no país no fim dos anos 1970. E no Rio de Janeiro. E mais: com cenas gerais do Rock in Rio de 1985 e atores com figurino que os músicos usavam na década de 1970 — Mercury ainda sem o bigode que adotou no começo de 1980, à época do lançamento do disco The Game (na capa do álbum, aparece ainda sem o bigodão, já presente no videoclipe de Play The Game).

Confira cenas do show de 1981 em São Paulo:

O clipe Play de Game:

O show completo do Queen no Rock in Rio em 1985:

O filme mostra Mercury como um desconhecido se oferecendo para cantar na banda Smile, embrião do Queen, quando o cantor Tim Staffell pede para sair. Na verdade, ele e Staffell eram amigos, May e Taylor já conheciam Mercury e sabiam que ele cantava bem (havia integrado outros grupos em meio aos estudos e aos trabalhos como vendedor de roupas e no aeroporto de Heathrow). Sua escolha, portanto, acabou sendo um processo natural, assim como sua sugestão para trocar o nome do grupo para Queen, com logotipo criado por ele.

Outra derrapada diz respeito à composição do hit We Will Rock You, gravação presente do disco News of the World, de 1977. No filme, a faixa surge sendo criada por Brian May nos anos 1980.

Na ficção, Freddie Mercury recebe o diagnóstico de aids e comunica a seus parceiros de banda às vésperas da apresentação no festival beneficente Live Aid, em 13 de julho de 1985. Fontes biográficas e o depoimento de Brian May no documentário Queen – Days Of Our Lives (2011) destacam que esse comunicado se deu bem depois — as primeiras especulações na imprensa britânica datam de outubro de 1986, e Jim Hutton, namorado Mercury, dizia que o diagnóstico se deu em 1987.

As canções Fat Bottomed Girls (1978) e Another One Bites The Dust (1980) aparecem deslocadas dos anos em que foram gravadas. A primeira antes, e a segunda, depois.

Um momento de crise mostrado do filme diz respeito a decisão de Mercury em gravar dois discos solo. Na verdade, isso foi um ingrediente a mais na tensão que o grupo vivia à época, pois tanto Roger Taylor (com Fun in Space, de 1981) e Brian May (Star Fleet Project, de 1983), já tinham lançado álbuns solo. Mercury apresentou Mr. Bad Guy em 1985. A propósito, a referência a seu segundo disco está deslocada no filme, quando ele, ao se reunir com o Queen para tocar no Live Aid diz estar trabalhado muito para entregar o segundo disco à gravadora — Barcelona é de 1988.

Talvez por liberdade poética e simbólica, a canção Who Wants to Live Forever é ouvida quando Mercury recebe o diagnóstico de que é soropositivo. A canção é de Brian May, faz parte da trilha sonora do filme Highlander – Guerreiro Imortal (exibido pela primeira vez em janeiro de 1986) e do disco do Queen A Kind of Magic (lançado em 3 de junho desse mesmo ano).

O filme recria de forma primorosa 15 dos 21 minutos do show do Queen no Live Aid, em 1985, apresentando na íntegra as faixas Bohemian Rhapsody, Radio Ga Ga, Hammer to Fall e We Are the Champions. Ficaram de fora Crazy Little Thing Called Love e We Will Rock You, talvez por já terem sido citadas em outros momento dos longa.

Jim Hutton (1949 – 2010), parceiro de Mercury até o fim da vida, era cabeleireiro e não garçom.

Cenas do Queen no concerto Live Aid, em 1985