Em seu 48º álbum, cantor e compositor reúne parcerias ecléticas em faixas que combinam samba com rap e poesia

Por GaúchaZH

Em fevereiro, Martinho da Vila completou 80 anos. Quem achava que a idade iria fazer com que o sambista, uma das referências da cultura nacional, diminuísse o ritmo, se enganou. No dia 26 de outubro, ele lançou seu 48º disco, Bandeira da Fé, repleto de temas que cultivou ao longo da carreira. O álbum celebra, ainda, oito décadas de serviços prestados à música popular brasileira.

Bandeira da Fé foi produzido pelo próprio sambista. O disco traz uma formação instrumental enxuta, com apenas cinco músicos, incluindo três jovens já presentes no álbum De Bem com a Vida (2016): Gabriel de Aquino (violão), Alan Monteiro (Cavaco) e Gabriel Policarpo (percussão), além de Bernardo Aguiar (também na percussão) e João Rafael (baixo acústico). A faixa-título foi o embrião da ideia de gravação do disco.

Composta por Martinho em parceria com Zé Catimba, Bandeira da Fé foi lançada sem maior repercussão por Luiz Carlos da Vila, em 1983, e regravada por Agepê (1942–1995), quando este foi o primeiro sambista a superar a marca de 1 milhão de cópias vendidas, com o LP Mistura Brasileira (1984).

Para seu novo disco, Martinho atualizou a faixa, trocou algumas palavras e, inicialmente, pensou em lançá-la de forma avulsa, mas em seguida lembrou de outras três que gostava e nunca havia gravado e, daí, partiu para o conceito do álbum.

– Este disco é comemorativo aos meus 80 anos. Então, quis botar as coisas que gosto nele, a (escola de samba carioca) Vila Isabel, minha militância na negritude, falar da mulher, do negro – diz o sambista, em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro.

Além de falar de temas que tratou durante toda a sua trajetória, o álbum também trás um evidente viés político e de protesto, como é possível perceber em um dos trechos de Bandeira da Fé: “Não esmoreçam e fiquem de pé”.

Em O Sonho Continua, ele conta com a participação especial de uma de suas filhas, Jujuh Ferreira, e do rapper Rappin’ Hood, para misturar samba com rap.

– Fizemos este rap para um disco do Rappin’, que seria lançado no ano passado, mas não saiu. Então, falei para ele que tinha gostado, e queria colocar neste disco. Com a participação dele, é claro – afirma Martinho, emendando uma gargalhada.

Em Não Digo Amém, o sambista demonstra certa decepção com o país:

– É um desencanto com esse Brasil que a gente gosta, mas que, no momento, não está gostando muito dele, não.

O álbum, que tem 12 faixas, ainda tem participações especiais de outros filhos de Martinho: Tunico da Vila (em Baixou na Avenida) e Mart’nália (em A Tal Brisa da Manhã). Mas uma das presenças especiais que mais chama atenção é de Glória Maria. Na faixa Ser Mulher, Martinho convidou a jornalista para gravar o que define como “poema musicado”:

– Neste disco misturo poesia com música. Tem dois poemas que escrevi, que são declamados. Parece uma música falada. E chamei a Glória Maria porque ela se encaixa perfeitamente, é aquela mulher que trabalha, que não é casada, que adotou filhos. Está inserida perfeitamente nesta música, é uma mulher independente.

No material de divulgação do disco, está escrito que Bandeira da Fé é o último álbum de Martinho.

– Daqui para frente, dentro do formato atual do disco, creio que não lançarei mais (discos) – explica. – Hoje, o ideal não é gravar um LP inteiro, um disco inteiro. Você grava uma música ou duas, coloca na rede, faz um clipe. Pode ser que eu faça isto. Mas, fazer um disco completo, não pretendo. Se bem que já falei isto outras vezes e fiz um disco de novo (risos).

Entre tantos disco lançados, Martinho destaca um que lhe é especial:

– Acho que o disco mais marcante é o que tem O Pequeno Burguês (álbum que leva o nome de Martinho, lançado em 1969, com faixas como Casa de Bamba, Grande Amor e Quem É do Mar Não Enjoa). É sucesso até hoje. Se eu fizer um show só com músicas dele, está tudo certo (risos), pois o público gosta de show com músicas que conhece.