Apresentação foi composta por coleção de clássicos do Pink Floyd

Por GaúchaZH

Roger Waters apresentou nesta terça-feira um show político do início ao fim, repleto de mensagens contra o autoritarismo, a barbárie da guerra e a xenofobia. Cerca de 44 mil pessoas assistiram ao músico no estádio Beira-Rio. Entretanto, contrariando as expectativas para o primeiro show após as eleições brasileiras, a noite transcorreu sem que o ex-baixista e vocalista do Pink Floyd citasse o presidente eleito Jair Bolsonaro. Seu único protesto nesta direção foi uma discreta tarja preta colocada no pé de uma lista de políticos apontados como neo-fascistas (em outros shows no Brasil, essa mesma lista exibiu o nome de Bolsonaro ou a frase “ponto de vista censurado”).

A maior parte das manifestações partiu do público que, antes da apresentação, entoou o slogan “Ele não” no estádio – e foi prontamente rebatido com vaias. Entre a multidão vestida de preto, alguns fãs se destacavam com camisetas amarelas da Seleção.

O repertório seguiu o roteiro consolidado da turnê Us+Them, com os clássicos do Pink Floyd extraídos, principalmente, dos discos The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979). Cada canção foi cuidadosamente escolhida para passar o apelo de Waters por um mundo com mais empatia e com direitos humanos iguais para todos.

Pontualmente, às 21h, uma explosão no telão marcou a passagem de Speak to Me para Breathe. Foi a deixa para a banda começar a tocar enquanto a silhueta do planeta Terra era descortinada no enorme telão de LED, reforçando a mensagem da música: “Respire, respire o ar. Não tenha medo de se importar”.

Roger Waters despontou no palco vestindo, como sempre, camiseta e calça pretas e tocando a poderosa linha de baixo de One of These Days. Em seguida, com Time e Welcome to the Machine, o músico inglês demonstrou que, aos 75 anos, sua voz ainda está potente.

Um dos pontos altos do show foi Great Gig in the Sky, quando as cantoras Jess Wolfe e Holly Laessig, do grupo indie Lucius, viraram as protagonistas, arrancando muitos aplausos pela interpretação impecável.

Até então, o público estava bastante empolgado, mas se acalmou na série de três músicas do último álbum solo de Waters, Is This the Life We Really Want? (2017): as melancólicas Déjà Vu e The Last Refugee e a raivosa Picture That, na qual Waters pareceu incorporar um pregador e trocou o baixo pela guitarra.

Depois da série de canções menos conhecidas, o público voltou a se animar ao reconhecer os primeiros acordes de Wish You Were Here, que foi entoada pelo estádio inteiro.

Na primeira canção do disco The Wall, The Happiest Days of Our Lives, um grupo de 12 crianças subiu no palco com capuzes na cabeça. O público vibrou e dançou ao som da guitarra funkeada de Another Brick in the Wall, Part 2, e as crianças marcharam em Another Brick in the Wall, Part 3. Quando a palavra “Resist” tomou conta do telão, foi recebida por uma mistura de vaias e aplausos. Antes de anunciar o intervalo, Waters aproveitou para elogiar as crianças, que integram o projeto Ouviravida – Educação Musical Popular, iniciativa do ensino musical de 180 crianças da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre.

– Bravo – disse o músico, aplaudindo. – Só encontramos essas crianças hoje, às 16h30min, e eles foram magníficos!

No intervalo, textos no telão incentivaram o público a protestar e resistir, expondo de maneira didática quem são os inimigos: Donald Trump, Binyamin Netanyahu, Mark Zuckerberg e vários outros são listados. O público brasileiro aplaudiu especialmente as mensagens “Resista ao neo-fascismo” e “à união de Estado e Igreja”. Ao contrário de outras apresentações, não foi exibida a frase “Ponto de vista censurado” nem a hashtag #EleNão.

A segunda parte do show foi aberta por duas músicas do disco Animals: Dogs e Pigs (Three Different Ones). A primeira foi introduzida por sirenes e colunas que irromperam no telão, enquanto, ao fundo, surgiam quatro chaminés e um porco inflável, numa referência clara à capa do álbum de 1977. Nesse momento, a chuva apertou e toldos foram colocados acima dos músicos.

Em Pigs (Three Different Ones), os celulares desviaram do palco e passaram a acompanhar o enorme porco inflável levitando sobre a plateia com a frase “Seja Humano” escrita no dorso. Enquanto isso, o guitarrista Jonathan Wilson se demorava nos solos e o Donald Trump era ridicularizado de maneiras criativas, com o rosto acoplado ao corpo de um porco ou de um bebê.

Já perto do final, Waters, de braços abertos, comandou o coro na música Eclipse, quando um triângulo de lasers foi desenhado no ar acima da plateia, recriando a capa de The Dark Side of the Moon. Mas a alegria o público foi abreviada quando Waters anunciou que, devido à chuva, o show teria de ser encurtado. Mother foi cortada do set list, que pulou direto para o bis, com Confortably Numb, canção do disco The Wall. Os fãs acompanharam o músico, balançando os braços.

Não faltou energia a Roger Waters durante o show: o músico interpretava as canções como um ator, erguendo o punho para cima em protesto, e passeou bastante de um lado ao outro do palco. Roger Waters manteve-se um tanto distante, trocando pouquíssimas palavras com a plateia, mas chegou a descer do palco e cumprimentar os fãs na primeira fila em determinado momento. Por vezes, o telão de LED parecia ser mais protagonista que a própria banda, que, no entanto, entregou um espetáculo tecnicamente irretocável e fiel às gravações originais dos clássicos do Pink Floyd.

Perto das 23h30min, o ex-líder do Pink Floyd despediu-se com uma breve mensagem:

– Obrigado, de todo o meu coração. Cuidem uns dos outros. Boa noite.