Por GaúchaZH

Em apresentação em São Paulo, músico foi vaiado por parte do público ao se posicionar contra Bolsonaro, mas as críticas em suas apresentações não são novidade

Apesar de Roger Waters ter posicionamentos progressistas e ser um ativista social, além de constantemente realizar manifestações políticas em suas apresentações, uma parte do público foi pega de surpresa no show da última terça-feira (9), na Allianz Parque, em São Paulo. No primeiro espetáculo em solo brasileiro da turnê Roger Waters – Us + Them, foi exibido mais de uma vez no telão a hashtag #EleNão, símbolo do movimento contra o candidato a presidente do Brasil Jair Bolsonaro (PSL). Quando o fundador do Pink Floyd – banda na qual atuou como baixista e vocalista – exibiu slogan durante a canção Eclipse, que gravou com seu ex-grupo, muitas vaias ecoaram por parte dos quase 40 mil presentes, que desembolsaram entre R$ 330 e R$ 810 para o evento.

Claro que também houve aplausos e gritos de consentimento ao “Ele não”. De qualquer maneira, Roger Waters foi xingado por muitos espectadores. Há relatos de pessoas que saíram do estádio. Durante a divisão de manifestações do público, o músico permaneceu no palco sem dizer nada por cerca de cinco minutos. Ressaltou que não sabia direito o que acontece no Brasil, mas ponderou:

– Vocês têm uma eleição muito importante daqui a três semanas. Sei que isso não é da minha conta, mas devemos sempre combater o fascismo. Não dá para ser conduzido por alguém que acredita que uma ditadura militar pode ser uma coisa boa.

Antes, no intervalo do show, o telão exibiu um vídeo com uma lista de líderes políticos de diversos países com os dizeres “Neo-fascism is on the rise” (“Neofascismo está em alta”, em tradução livre), relacionando nomes de presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, a líder nacionalista francesa Marine Le Pen e, entre outros, Bolsonaro. A projeção também pedia que as pessoas resistissem à guerra, aos maus governantes, à corrupção, entre outras mazelas.

Com cerca de três horas de apresentação e um repertório que costuma incluir 22 músicas, os shows da turnê Us + Them são ocupados em maior parte por composições do Pink Floyd e por muito ativismo político. Por exemplo, durante toda a execução de Pigs, o telão sempre exibe montagens fotográficas ridicularizando Trump, e um porco inflável gigante flutua sobre a plateia. Em São Paulo, o porco continha grafites com frases em português — como “As crianças não têm culpa”, “Respeitem as mulheres” e “Quebre o muro”. O tom ativista também está presente em seu disco solo mais recente, Is This The Life We Really Want?, que traz uma visão pessimista do mundo. Uma das faixas do álbum que entram no show é The Last Refugee, que fala sobre os refugiados.

Ele avisou

Em maio de 2017, Roger Waters já deu indício que daria seus pitacos sobre a política brasileira. Foi publicada na página oficial do músico no Facebook a arte da capa de Is This The Life We Really Want? com a imagem do presidente Michel Temer e a frase “Essa é a vida que realmente queremos?”, tradução literal do título do álbum. No título da postagem, questionou: “Brasil, é essa vida que vocês realmente querem?”.

Em entrevista coletiva realizada em São Paulo, em dezembro de 2017, Roger perguntou se deveria colocar Temer estampado no porco gigante que hoje abriga Trump. Na ocasião, também disparou contra o presidente americano e comentou sobre um dos objetivos da turnê Us + Them:

— Trump e seu governo estão dedicados a acelerar o processo de destruir o planeta. Seja pela guerra nuclear, seja por ignorar o processo óbvio de mudanças climáticas. Essa turnê também é sobre isso, apontar quem são esse malditos idiotas que não dão bola nenhuma à vida humana.

Ativismo nas letras

Com 75 anos, o britânico Waters sempre escreveu sobre horrores provocados pelas guerras. Servindo pelo lado dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e a China), seu pai, Eric Fletcher Waters (1913 – 1944) morreu na II Guerra Mundial – episódio que ele transformou em música na canção When The Tigers Broke Free, composta para a ópera-rock The Wall (1979) mas incluída apenas na versão cinematográfica, e registrada finalmente em The Final Cut (1982). Com apenas um ano de idade na ocasião, e o músico cresceu sem a figura paterna. Seu avô por parte de pai morreu na I Guerra Mundial.

– A guerra está presente porque está sempre aí. Mas, sim, pode ser que isso ocorra pelo fato de eu ter uma empatia especial com as vítimas. Talvez tenha a ver com essa agonia gerada pela perda e que milhões de pessoas estão sofrendo com isso no mundo todo – disse em entrevista ao jornal espanhol El País.

Broken Bones, faixa Is This The Life We Really Want?, expressa essa fala de Roger sobre a guerra. A própria faixa que dá nome à turnê que traz músico ao Brasil, Us and Them, do Dark Side of The Moon (1973), trata da Guerra do Vietnã.

Outro exemplo é o disco The Final Cut (1983), que reflete a raiva de Roger com a Guerra das Malvinas, culpando líderes políticos pelo conflito. Em Fletcher Memorial Home (cujo nome homenageia seu pai), o músico propõe reunir lideranças mundiais para que, ali, seja aplicada uma “solução final” – entre os governantes citados estão a então primeira ministra britânica Margaret Thatcher, Leonid Brezhnev (líder da União Soviética entre 1964 e 1982) e os presidentes americanos Richard Nixon e Ronald Reagan. Thatcher é citada, chamada ironicamente de “Maggie”, em outras faixas do álbum, como The Post War Dream e Get Your Filthy Hands Off My Desert.

Em Animals (1977), no qual o músico escreveu sozinho a maior parte das letras, Roger ressignifica a alegoria do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, para uma crítica ao capitalismo, mirando a instabilidade social, o individualismo e o conformismo. Já na ópera rock The Wall (1979), Roger discorre sobre o isolamento construído pela sociedade, utilizando como parede como metáfora.

O ativismo de Roger já o fez se chocar com Caetano Veloso e Gilberto Gil: em 2015, os dois músicos anunciaram que o show da turnê Dois Amigos, Um Século de Música passaria por Tel Aviv, Israel. Acontece que o músico inglês é integrante BDS (sigla para boicote, desinvestimento e sanções), que se posiciona contra Israel e a favor da Palestina. Em carta, Roger clamou: “Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel”.

Caetano respondeu a carta alegando que era fortemente contra o governo israelense. “Eu odeio a política de ocupação, as decisões desumanas que Israel tomou naquilo que Netanyahu nos diz ser sua autodefesa. E acho que a maioria dos israelenses que se interessam por nossa música tende a reagir de forma similar à política de seu país”, justificou o músico baiano.

Em 2017, Roger Waters criticou o Radiohead por tocar em Israel.

– Qualquer um que se sinta tentado a cruzar essa linha, como nossos amigos do Radiohead, bastaria que eles se educassem a respeito. Eu sei que Thom Yorke está chorando sobre como ele se sente insultado, as pessoas sugerem que ele não sabe do que está acontecendo – disse Roger em um vídeo ao vivo no Facebook. – Eu te mandei inúmeros emails implorando para ter uma conversa. Brian Eno também fez isso. Você nos ignorou e não fala com ninguém sobre nada. Então, esse tipo de isolamento é extremamente inútil para todos – completou.

Foi assim e vai ser em POA

De qualquer maneira, todas as performances combinando música com política podem ser esperadas para o show em Porto Alegre, no próximo dia 30 de outubro. Antes, Roger se apresenta novamente no Allianz Parque na noite desta quarta-feira (10). Depois sua turnê segue para Brasília (dia 13), Salvador (17), Belo Horizonte (21), Rio (24), Curitiba (27) e, pela terceira vez, em Porto Alegre (30) – dois dias após a votação do segundo turno no Brasil.

Na última passagem de Roger pela Capital gaúcha, em 2012, a reportagem de Zero Hora relatou que o show da então turnê The Wall tratava de “temas como a vigilância da tecnologia, o poder das marcas empresariais, a neurose da luta contra o terrorismo – quando dedicou o show ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia de Londres”.

A apresentação enfatizava o conteúdo das canções utilizando imagens narrativas ou não, com fotos de vítimas da violência, aviões vomitando símbolos religiosos e comerciais, frases maternas e cenas de crianças famintas.

Independente do resultado das eleições presidenciais brasileiras no segundo turno, não será surpresa para os fãs de longa data que o ativismo político de Roger aflore em Porto Alegre. Seria como assistir a um show de Anitta esperando que a cantora não rebole.