Tudo começa na pequena Trombudo Central, no Vale do Itajaí, passa por Medianeira, na tríplice fronteira de Foz do Iguaçu, alarga-se em Joinville, na região industrial catarinense, e desemboca enfim na Ilha de Santa Catarina. Mas não se atém apenas a estas regiões. No fluxo do tempo, desponta inesperadamente nas mais importantes cidades do País, em várias capitais da Europa, da América Central e da América do Sul. Em cada lugar, reconstrói os liames entre o esquecimento e a memória, entre o passado e o presente. Dentro do tempo, cada etapa da vida segue em paralelo com as demais, causando a impressão de simultaneidade.

Vazado em segunda pessoa, a biografia do poeta Alcides Buss forma uma espécie de pano de fundo e serve de fio condutor dos eventos sociais, culturais e poéticos. O autor e o poeta se fundem num ser transitório que, através da leitura, pode confundir-se com o leitor em suas próprias vivências e recordações.

Na década de 50 do século passado, após a morte de Getúlio Vargas, uma família de catarinenses decide mudar-se para o Oeste do Paraná. Vai movida pela esperança de dias melhores. Ali, ainda criança, o poeta assiste à chegada do asfalto na BR 277 e à construção da Ponte da Amizade entre o Brasil e o Paraguai. Espanta-se com a coragem dos operários nos altos andaimes sobre o rio Paraná. Mais tarde, chora com o sumiço da cachoeira das Sete Quedas na represa da Hidrelétrica de Itaipu. Sem saber, estava diante de um novo Brasil, projetado com Brasília para crescer cinquenta anos em cinco.

Anos depois, com o objetivo de estudar, o poeta retorna a Santa Catarina, mais precisamente para Joinville. A cidade é vista como virtuoso parque industrial e lugar de trabalho. Na década de 70, porém, uma reviravolta cultural chama a atenção dos brasileiros. Sob o governo de Pedro Ivo Campos, incentiva-se e promove-se a cultura popular e ao mesmo tempo leva-se a arte erudita às praças, às escolas, às igrejas. Por trás de tudo estão artistas, escritores e poetas independentes. A alegria das artes dá novas cores ao cotidiano e novo significado ao trabalho. Mais adiante, tudo culmina na instalação da Escola Bolshoi e na realização anual do Festival de Dança, reconhecido como o maior do mundo.

O poeta-autor é protagonista desse novo tempo. Num sábado ensolarado, artistas locais acompanhados de Fernando Torres e Fernanda Montenegro vão de barco a São Francisco do Sul, caminham nas ruas centenárias e depois retornam, refazendo o caminho dos imigrantes europeus no século XIX. Pura poesia!

Na década de oitenta, o poeta já firmado, o cenário da narrativa se transfere para a Ilha de Santa Catarina. A Universidade abastece o corpo e a alma com novas e vibrantes energias. Ao longo de meses e anos, varais literários espalham a poesia na cidade, nos bairros, nas escolas, nas outras cidades, em outros estados e até em outros países. Uma constelação poética se forma no horizonte.

À maneira das cartas antigas, o livro ainda presenteia o leitor com um P.S. (Post Scriptum). Nele, revela o caso surpreendente da mala esquecida de Jorge Amado. Em 1942, ao deixar o exílio no Uruguai, o autor de Seara Vermelha confia a uma amiga a guarda de uma mala. Receava, talvez, levá-la para o seu País. E por lá ficou, por mais de cinco décadas, até ir parar na Ilha. Continha documentos pessoais, anotações, fotografias, poemas e um romance inacabado.