A cantora, que se apresenta em Florianópolis nesta sexta-feira, conversou com exclusividade com a Itapema

As músicas e a voz de Mart’nália têm uma leveza que se reflete na personalidade da cantora: em uma conversa breve já é possível perceber a forma tranquila como ela lida com a carreira, a vida e os assuntos pessoais. Prestes a desembarcar em Floripa para participar do show Simplesmente Samba, um tributo ao estilo musical que é o seu mais característico, a artista se prepara para uma viagem à Europa, para cantar na Rússia e no Festival de Montreux; continua com a turnê do álbum +Misturado, premiado com o Grammy Latino; e planeja um documentário sobre seu pai, o sambista Martinho da Vila. Foi sobre esses assuntos que Mart’nália conversou com a Itapema, na entrevista que você lê abaixo:

Itapema: Como vai ser o repertório do show em Floripa? Você vai cantar músicas suas mais recentes, ou clássicos do samba?
Mart’nália: Vai ser um repertório mais curto, já que eu vou cantar com outras pessoas. Mas as músicas que eu vou cantar fui eu que escolhi. Vou cantar músicas do meu repertório que sejam puxadas para o samba, não vou cantar minhas músicas mais popzinhas, misturadas. Estou levando dois músicos meus comigo, também.

Itapema: Como estão os seus projetos para este ano? No que você está trabalhando?
Mart’nália: Ainda estou na turnê do +Misturado, o disco que eu lancei ano passado. Já caminhei bastante pelo Brasil com ele, agora vou para a Rússia cantar na Copa, depois vou para o Festival de Montreux… E depois continuo por aqui. Também estou fazendo um documentário sobre o meu pai [o músico Martinho da Vila].

Itapema: Como é esse documentário que você está produzindo? As filmagens já começaram, ou o filme ainda está na fase de planejamento?
Mart’nália: Estou fazendo um documentário em parceria com a Pindorama Filmes. A ideia é deixar um registro, uma visão de dentro, minha e dos meus irmãos mais velhos. Queremos contar nossas histórias, as histórias dele. Uma visão que ninguém mais tenha, que você não encontre no Google. Já estamos filmando algumas coisinhas… Acho que no máximo no meio do ano que vem vai estar pronto, mas não temos pressa. Queremos registrar esses pilares que formaram muita coisa da música brasileira, mas do ponto de vista de dentro de casa.

Itapema: Ter nascido em uma família tão musical [a mãe de Mart’nália, Anália Mendonça, também era cantora] te atrapalhou ou foi um tipo de pressão em algum momento?
Mart’nália: Para mim, só teve coisa positiva. Meu pai sempre teve muito carinho e reconhecimento de todos, e a minha carreira veio disso. Foi o que sobrou pra eu fazer. [risos] Não foi uma coisa “ah, eu quero ser isso e aquilo” – quando eu vi, aconteceu. E essa influência musical toda só me ajudou, inclusive com amigos, profissionais, músicos que já trabalharam comigo. Me colocou em contato com muita gente.

Itapema: O +Misturado venceu o Grammy Latino, e você recentemente também foi indicada como Melhor Cantora de Samba no Prêmio da Música Brasileira. Qual impacto isso tem no seu trabalho? Aumenta de alguma forma a pressão na hora de trabalhar em um novo álbum?
Mart’nália: Não tem pressão nenhuma, não. Mas, como é um reconhecimento, é sempre bom. Ainda mais pelo reconhecimento internacional – eu tenho a sensação de que esse tipo de reconhecimento tem mais força lá fora, às vezes aqui no Brasil ninguém nem sabe direito. [risos] Mas a vida segue normal.

Mart'nália

Itapema: Como foi sua experiência de trabalhar com televisão [Mart’nália viveu o mecânico Tamanco na série da Globo ‘Pé na Cova’, entre 2013 e 2016]? Gostaria de atuar de novo?
Mart’nália: Foi um convite do Miguel [Falabella, diretor da série], que fez esse personagem para mim. Eu agradeço até hoje, porque foi muito bacana – até hoje me chamam de Tamanco na rua. [risos] A família do seriado era bem louca, né? [risos] Foi muito gostoso poder experimentar uma outra forma de arte, uma forma que eu ainda não conhecia, e conhecer e trabalhar com todas aquelas pessoas. Tinha a Marília Pêra, maravilhosa. Mas acho que só faria [de novo] se fosse com ele o Miguel. [risos]

Itapema: Seu personagem era um homem transexual, e na série isso foi tratado de forma super natural, leve. Como você vê a importância disso?
Mart’nália: Hoje já é tudo mais falado, né, mas isso já faz uns cinco anos – acho que esse assunto estava começando a aparecer mais na mídia. E eu acho que foi escrito de uma maneira bem brasileira, bem de igual pra igual: gordo é gordo, sapatão é sapatão, viado é viado, careca é careca, e ninguém no seriado via problema nisso. [risos] Acho que foi até uma maneira de começar esse debate com algumas pessoas. E a namorada do Tamanco era stripper na internet, e ninguém da família falava nada, até porque os dois meio que sustentavam a família com os trabalhos deles. [risos] Acho que era uma família que só poderia existir no Brasil, mesmo. A gente mexeu nesse tema numa época boa, e de uma maneira boa: todo mundo queria saber se ia ter beijo entre meu personagem e a personagem da Luma Costa, e a gente nem precisou fazer nada disso pra falar do assunto. Hoje em dia, graças a Deus, as pessoas estão abrindo cada vez mais a cabeça pra esse tipo de coisa.

Itapema: Você parece ser uma pessoa muito leve, muito tranquila. É sempre assim que você encara a vida?
Mart’nália: Claro! A vida tem música, tem mar, tem gente legal. Não tem só coisa ruim, não – se a gente ficar só focando na parte ruim de tudo, fica tudo pior. [risos] Eu fui criada assim mesmo, no samba e no alegria. E eu tento passar isso para as pessoas, melhorar a vida delas de alguma forma. Eu nem sei ser triste.