O gênero relevância no Brasil nos anos de 1990 com grupos como os Racionais Mc’

Tiago Lazzarin Ferreira produziu um estudo com base nos conceitos dos filósofos Theodor Adoro e Velém Flusser, o qual ajudou a realizar experimentos com seus alunos do terceiro ano do ensino médio de uma escola estadual localizada em um bairro periférico de São Paulo. Buscando estabelecer o diálogo com seus alunos, Ferreira levou o jazz para sala de aula, enquanto seus alunos levaram as novidades sobre o rap. Durante o ano de 2015, Ferreira promoveu atividades que envolviam debates, audições e práticas musicais e diferentes formas de composição. O pesquisador propôs que os alunos fizessem relatos, para assim analisar os efeitos provocados pelo rap e o jazz.

“Procurei perceber, no cotidiano da escola, como os alunos reelaboravam e doavam sentido para as suas ações mediante as experiências que eram sugeridas nas aulas, como isso suscitava ideias, como eles ressignificavam ou significavam a sua presença na escola a partir dessas experiências”, explica o sociólogo. O resultado apontou jovens mais participativos na vida escolar como um todo, demonstrando que os gêneros musicais contribuem para a politização das relações sociais.

Constatou-se que as linguagens do rap e do jazz veiculam saberes ancestrais da Diáspora do Atlântico Negro e, nesse sentido, esses estilos musicais permitem um contato significativo com o legado das chamadas culturas negras. A partir disso, foram propostas atividades que envolveram a apreciação musical, debates, produção de relatos por meio de textos e desenhos, além da prática com instrumentos musicais de percussão durante o período letivo de 2015 nas aulas do ensino médio de Sociologia.

As letras contestadoras sobre a realidade de grupos marginalizados são uma das marcas do rap. Através dele, jovens, negros e moradores da periferia passaram a ter as suas histórias narradas. Os estudantes que participaram do experimento são, em sua maioria, moradores do bairro Heliópolis, onde há altos índices de violência. Eles declararam que os testemunhos de MC’s (mestre de cerimônias) são representativos através de seus relatos sobre a luta diária pela sobrevivência.

O jazz tem reconhecimento em universidades e conservatórios de música e sua prática não é tão acessível devido ao preço de um bom instrumento, pontua Ferreira.  Ao contrário do rap, em que o MC e o DJ (disk jóquei) podem utilizar o que têm em mãos para as suas produções. Os alunos se mostraram mais resistentes ao jazz. Ao se depararem com as músicas apresentadas por Ferreira, alguns estranharam a falta de letras e se incomodaram com o som. “Outros estudantes tiveram disposição de ouvir”, conta o sociólogo.

O conceito de formação cultural é oriundo da filosofia alemã e foi pensado por diversos autores. A proposta visa à emancipação de sujeitos a partir dessa formação. Para Adorno, na sociedade capitalista a formação é inconclusa – por isso, chamada de semiformação – pois não cumpre os ideais do esclarecimento.

Em sua tese, o sociólogo buscou compreender se a formação cultural em torno de atividades educativas de jazz e rap promoveria o engajamento estético. Este último, um conceito associado ao filósofo Vilém Flusser. Segundo o teórico, a partir de um gesto artístico é possível interferir na realidade. Dessa forma, seriam criados vínculos entre as pessoas, em uma sociedade marcada por relações superficiais – denominada por Flusser como pós-histórica.

O doutor em Educação pela USP acredita que o resultado do trabalho indica uma possibilidade para as atividades feitas em aulas de sociologia, mas ressalva: “A pesquisa é muito mais em um nível epistemológico do que normativo, ou seja, o objetivo não é tentar propor ou impor determinados currículos ou matérias na grade escolar”.