O filme estreia nos Estados Unidos no final deste mês

O cineasta Nick Broomfield já estava há três meses trabalhando na pós-produção de Whitney: Can I Be Me, novo documentário sobre a vida e a morte de Whitney Houston, quando decidiu recomeçar do zero: “Whitney, de alguma maneira, não estava lá”, contou o diretor em entrevista à revista Rolling Stone. “Então, troquei os editores e decidi que íamos colocar a voz de Whitney o máximo que pudéssemos. Queríamos contar a história pelos olhos dela. E logo que a mudança foi feita, me vi despedaçado. Eu conseguia sentir o espírito de Whitney ali.”

No final deste mês, a nova e definitiva versão do documentário chega aos Estados Unidos – infelizmente, ainda sem previsão de estreia no Brasil -, com entrevistas, material de arquivo e novas imagens captadas pelo co-diretor Rudi Dolezal. O filme aborda a vida da cantora de maneira bastante íntima, além de explorar os diversos fatores que levaram à sua morte e tocar em temas complexos, como as intersecções entre a cor da pele e o mercado da música. “O que originalmente me interessou foi quando eu ouvi que as empresas de música da época tinham uma divisão entre negros e brancos”, explica Broomfield. “Uma das primeiras pessoas com quem conversei foi [o funcionário da Arista Records] Kenneth Reynolds, que disse que ela era cuidadosamente preparada para ser aceita pelas massas e pelo público branco. Eu realmente nunca pensei muito sobre o aspecto racial de Whitney Houston, mas isso foi algo que estava no cerne da história. Na prática, aquelas pessoas pensaram que ela era alguém que ela não era. Eles eram alimentados por uma certa imagem. Toda vez que não correspondia à expectativa daquela imagem, ela era severamente julgada.”

Whitney: Can I Be Me também aborda a relação entre a artista e sua assistente Robyn Crawford – relacionamento, aliás, desaprovado pela família da cantora. “Ela era o anjo no ombro de Whitney, e era só quando Robyn saía que as coisas começavam a ficar absolutamente fora de controle”, argumenta Broomfield. “Ela merecia esse reconhecimento. Robyn era eficiente: ela era a força que guiava e mantinha tudo no lugar, sempre colocando Whitney em primeiro lugar, nunca tentando se aproveitar da relação delas. Ela é a heroína do filme, de certa forma.” Os responsáveis pelo espólio da cantora, que atualmente trabalham em um documentário concorrente, devidamente autorizado, foram, segundo o cineasta, “muito agressivos”: “Kenneth Reynolds recebeu um e-mail e uma ligação dizendo: ‘Não queremos que você participe do filme. Estamos fazendo nosso próprio filme com um time vencedor do Oscar e gostaríamos que você não se intrometesse. Sabemos que você está ajudando Nick Broomfield a falar com outras pessoas e não queremos que você faça isso.'”

Sobre o tema do documentário, o diretor resume: “Acho que é um filme sobre julgamento. Ela foi muito julgada. Nós sempre estamos procurando uma razão para não dar uma segunda chance às pessoas, e acho que ela foi impiedosamente julgada pelo vício em drogas. Havia muito pouca chance de realmente entender de onde isto vinha e do que se tratava. Eu gostaria que mais gente entendesse que havia uma maneira completamente diferente de encarar isso tudo.”