Novas histórias (sejam livros ou séries de TV) sempre me dão mais preguiça que empolgação – sei que isso não parece uma afirmação particularmente positiva ou simpática, mas, bem, é verdade. Eu amo ambos, os livros especialmente; e sempre estou acompanhando algum seriado e lendo algum livro – no sentido de que, se você me perguntar “Marina, que livro você está lendo agora?”, eu jamais vou responder “Nenhum”. Tem sido assim desde que eu tinha dez ou onze anos de idade, e eu não acho que isso vá mudar tão cedo. Não sei conceber minha vida e meu mundo sem estar acompanhando outras vidas e outros mundos, por meio das páginas de um livro ou dos episódios de uma série.

Personagens - Photo by Prasanna Kumar on Unsplash

Mas, na passagem entre um e outro, sempre me bate um desânimo – porque eu me apego. Nunca parece que a próxima história vai ser tão legal quanto aquela que eu já estava acostumada a acompanhar. Lá se vão umas boas páginas, às vezes mais de um capítulo inteiro (de livro ou televisivo) para que eu passe a entender o que está acontecendo, quem é quem, qual é o mistério ou o objetivo da trama, para quem ou o quê eu deveria estar torcendo. Os personagens, então! Esses são minha principal fonte de apego – e de saudade. Como assim, eu vou abrir esse novo livro e não vou encontrar o Fulano a cada parágrafo, com aqueles pensamentos e atitudes que eu tanto gostava de acompanhar???

Sim – sou dessas que não pode evitar ver personagens quase como pessoas de carne e osso, velhos amigos que eu amo reencontrar (ou inimigos que não consigo deixar de odiar). Desenvolvo aquelas paixonites por um ou outro: poderia apresentar uma extensa lista de namorados imaginários já tive de um volume para o outro. E sofro de verdade quando eles morrem. Choro! – já fiz isso mais de uma vez. Xingo o autor (ou o roteirista), quero desistir da leitura. Sinto aquela perda no fundo da minha alma, como se estivesse prestes a de fato vestir preto e caminhar até onde um amigo querido está sendo velado.

Porque boas histórias, para mim, são essencialmente feitas de personagens; de bons personagens – não de personagens bons, veja bem: alguns de meus personagens favoritos são verdadeiros crápulas, mas são tão complexos, bem construídos e desenvolvidos que me deixam fascinada – eu fico encantada em assistir o que fazem, como pensam, o que os move. Aplausos para os autores. Já histórias que poderiam ser boas, cujo potencial está ali, gritando na minha cara, mas que não têm personagens igualmente incríveis para sustentá-las, acabam não me prendendo: eu não crio aquela vontade de querer reencontrar os personagens a cada vez que dou play na Netflix, e perco fácil o interesse.

Personagens - Photo by Annelies Geneyn on Unsplash

Nenhum romance tem graça, pra mim, se os amantes apaixonados não forem pessoas interessantes por si só. Nenhuma missão faz meu coração acelerar se eu não sentir vontade genuína de torcer pelo sucesso e pela felicidade dos envolvidos. Nenhum terror me dá medo se eu não temer de verdade pelo que vai acontecer com o personagem que está naquela cena; nenhuma comédia me faz rir se eu não conseguir me identificar com o que o personagem está dizendo. Nenhuma aventura ou viagem é empolgante se os participantes não forem personagens que continuariam incríveis mesmo fora do cenário da aventura – numa conversa à mesa de um café, por exemplo.

É como na vida real, não é mesmo? Aqui, estamos todos procurando personagens carismáticos, interessantes, sábios, divertidos, sedutores, amáveis com quem dividir nossas histórias. Talvez seja até por isso que as histórias com bons personagens nos tocam, emocionam e marcam tanto: porque são as pessoas/personagens que fazem com que tudo se torne mais real; num livro, numa série ou na própria vida.

E quem nunca chorou pela morte de um personagem, que atire a primeira pedra.

(E, na boa: se você nunca chorou, talvez esteja na hora de rever sua forma de reler livros, cara – pessoalmente, eu acho que você está perdendo boa parte da experiência.)