Dia desses uma colega causou comoção na redação.

No meio da tarde de uma quinta-feira, ela pára de mexer no computador e começa a chorar – mas não era um choro contido, desses em que as lágrimas podem até passar despercebidas: era um choro sofrido mesmo, soluçante, de fazer todo mundo levantar da cadeira e ir perguntar o que estava acontecendo. “Meu cachorro morreu!“, respondeu, quando perguntada a respeito do que tinha acontecido. Pobrezinha – todo mundo se compadeceu. Depois de alguns minutos ela se levantou e foi lavar o rosto e beber água, acompanhada de outra colega – que, para nossa surpresa, voltou para a sala poucos instantes depois, gargalhando.

Ninguém entendeu nada. Mas você não estava agora mesmo consolando a menina, tadinha? Cadê motivo pra riso??? “O cachorro não morreu!”, ela contou, diante dos olhares confusos. “Era mentira da mãe dela!” Seguiram-se comentários indignados a respeito da brincadeira: mas que piada de mau gosto! Eu passaria um ano sem olhar na cara da minha mãe se ela fizesse isso! E, aí, mais uma reviravolta: a dona do cachorro ex-morto agora volta para a redação também rindo, conversando com a mãe no celular. Alguém explica essa história direito???

Em resumo: em uma conversa no WhatsApp, a mãe contou que, na noite anterior, a casa havia sido invadida por um ladrão, e o cachorro nem deu bola – não atacou, não deu um latido de alerta. Assim, a família brincou que precisaria adotar outro cachorro, para montar guarda na casa. E foi minha colega, ela mesma, que (sem saber da história do ladrão e sem entender por que adotar um outro cachorro se a família já tem um) jogou a pergunta: “Espera aí, meu cachorro morreu?”, e a mãe respondeu, de brincadeira, que sim – explicando logo em seguida que não, e narrando a história. Tarde demais: a filha já havia largado o celular e estava aos prantos no ombro de uma colega, sem nem conferir o resto da conversa.

Recuperados do susto, passamos o resto da tarde brincando a respeito das tais fake news (sempre elas), dizendo que minha colega e sua mãe haviam espalhado uma das grandes pela redação: sim, porque em quinze minutos já tínhamos duas ou três versões da história circulando, todas incompletas, construídas a partir de pequenos retalhos de informação – e nenhuma verdadeira.

Brincadeiras à parte, o assunto me fez pensar: viu como é fácil sim disseminar uma história falsa? Por desinformação, por não ler a notícia completa, por ouvir só um pedaço da história e passá-la adiante, por especular alguma coisa que acaba se tornando verdade na cabeça de quem só ouviu a especulação de raspão. É por isso que temos que ter tanto cuidado – ainda mais em tempos de redes sociais e internet, em que somos bombardeados com informação de todos os lados, o tempo todo. Mesmo uma notícia correta, vinda de uma fonte confiável, pode se transformar em uma informação errônea se você “ler só a manchete” – e quem nunca fez isso que atire a primeira pedra.

E há ainda outra lição importante nesse pequeno relato: nem sempre quem espalha desinformação está agindo de má fé – geralmente a pessoa nem sabe que aquele dado não é verdadeiro; por acreditar na fonte de quem recebeu a história, por ter entendido errado a conversa que ouviu, por ter lido meio com pressa aquela reportagem ou textão no Facebook. “Vigilância constante!”, dizia Alastor Moody em Harry Potter (eu sei, eu uso muitas citações de Harry Potter, desculpe) – mas não precisa tacar pedra no coleguinha que deixou a guarda baixar por um momento: vai ser mais produtivo e mais educativo explicar ou mandar um link esclarecendo a real situação. Paciência: pode acontecer (e nesse dia que eu narrei aí em cima aconteceu) com todos nós.