Uma das coisas de que eu mais gosto quando viajo é, claro, a sensação de estar em um lugar novo – um lugar (e muitos lugares dentro desse lugar) diferente daquele a que estou acostumada, aquele pelo qual transito todos os dias. E eu amo ver como é possível saber, logo de cara, que se está, de fato, em um lugar diferente.

Montevidéu

Explico: mesmo se eu não soubesse que estou indo viajar, mesmo se não tivesse comprado as passagens, feito as reservas e embarcado no avião, eu saberia, ao parar e olhar em volta ao desembarcar em uma cidade que não é a minha de sempre, que estou em uma cidade diferente – mesmo se aparecesse em uma de suas ruas por mágica, em um piscar de olhos. Porque cada local tem uma “cara”, uma vibe só sua. Cada um tem aqueles detalhezinhos únicos na arquitetura ou no modo como as ruas são organizadas. Cada um tem, até, suas cores mais características.

Montevidéu é azul e cinza: as cores que se alternam tanto no seu céu quanto no seu mar, sempre presente ao longo da Rambla (que é a maior calçada contínua do mundo, sabia? São mais de 22 quilômetros ininterruptos). Azul é a cor da bandeira, e cinza é a cor da maior parte dos prédios: antigos, muito antigos, cheios das marcas e manchas deixadas pelo tempo – passei a brincar que o Uruguai é cheia de “prédios mal-assombrados”, pela aparência antiga e às vezes sombria de muitos deles (saiba que eu sou uma fã de histórias de terror, então digo isso como um elogio). Azul é as cor das placas que indicam, nas ruas e em espaços abertos, onde há wi-fi grátis liberada, o que me surpreendeu; e cinza é a cor de tantos monumentos, construções, estátuas e mausoléus históricos: aqui e acolá o visitante se depara de novo e de novo com o herói nacional José Gervasio Artigas, definido pela minha amiga e guia uruguaia como “our guy” – costumamos nos comunicar em inglês, porque o espanhol infelizmente não é o meu forte.

Montevidéu

Há pontinhos de verde entre estas cores predominantes, no impressionante Jardim Botânico e nas altas árvores que ladeiam a maioria das ruas – o verde toma conta também quando se estende o passeio até a próxima La Floresta, pequena cidade de praia onde as casas têm nomes em vez de números (nomes que variam de sobrenomes familiares até outros mais fantasiosos ou brincalhões), e que, agora no inverno, parecia calma e tranquila, em um aconchego literalmente enevoado. Continuando o passeio na direção leste, chega-se a Piriápolis e Punta del Este, onde o azul volta a predominar: o azul do mar brilhante, pontilhado de barcos de aspecto caro, gaivotas sobrevoando o porto, e até mesmo enormes leões-marinhos, que se aproximam na esperança de garantir o almoço do dia a partir dos restos das pescarias.

Em matéria de almoço (ou janta, ou café da manhã ou da tarde), aliás, o Uruguai não deixa a desejar: as porções são sempre generosas – o que, para mim, é sempre tão maravilhoso quanto preocupante -, e nenhuma das iguarias típicas do país decepciona. Há o chivito, sanduíche recheado com um pouco de tudo, mas sempre, o mais importante, com a carne de excelente qualidade produzida no país; há o chajá, um mini-bolo que leva doce de leite, chantilly, pêssego em calda e suspiro; há as milanesas e os bizcochos, as medialunas e as tartas; há o churrasco e o mate, já nossos velhos conhecidos; e há, é claro, os famosos alfajores e o dulche de leche, que dez em cada dez turistas levam para casa como suvenir – lógico, nós temos alfajores e doce de leite, mas como não querer experimentar quando os deles têm fama de ser ainda melhores?

E há outro ponto impossível de deixar passar batido em um passeio pelo Uruguai: a população idosa, recorde na América do Sul, e com uma proporção mais parecida com a dos países europeus. Uma população que parece fazer a vida andar mais devagar: sem pressa, com tempo para passear sob a sombra das árvores, se exercitar ao longo da Rambla, sentar um banco do Jardim Botânico para ler um livro, e depois terminar o dia degustando um bom café acompanhado de alfajores – recheado com dulche de leche, por favor. Sob um céu, e vizinhos de um mar, que gostam de se apresentar em tons de azul e cinza.