Tentar investigar o futuro pode ter consequências indesejadas

Eu já fui mais crente em relação ao lado místico do universo: interpretação de sonhos, numerologia, aquelas coincidências que parecem demais para ser “só” coincidências. Verdade, eu continuando adorando uma conversa sobre astrologia – mas, fora isso, ando mais cética; mais chata, se você quiser definir assim. Eu tento não me meter: não questionar quem acredita, não ficar julgando as crenças e costumes alheios. Mas esses dias fiquei refletindo a respeito de como certas “investigações” a respeito do futuro podem ter, em si, algumas consequências meio duvidosas. E eu não estou nem me referindo ao possível charlatanismo de uns e outros, que podem fazer os mais ingênuos torrarem dinheiro com bobagem.

cartomante

Acontece que uma colega de trabalho foi visitar uma cartomante esses dias. Comprometida com um cara que tem mais ou menos a idade dela, ouviu da mulher que acabaria se casando com um cara “com idade para ser pai dela”, e que em breve terminaria o atual relacionamento por “conflitos ligados à carreira de um dos dois”. Evidências de que a cartomante estava certa, por enquanto, não existem. Mas minha colega decidiu contar ao namorado sobre a tal previsão – e ele, claro, não gostou do que ouviu. Começou a surgir um certo ciúme de todos os homens mais velhos que aparecem pelo caminho da namorada. Começou a surgir uma cobrança de “quer dizer que, se tivesse que escolher entre mim e o trabalho, você escolheria o trabalho?”. E os dois, veja só, começaram a brigar.

Agora, se o relacionamento chegar ao fim, o que será que realmente aconteceu – a cartomante vislumbrou um destino que já estava de fato escrito, ou o namoro só acabou porque a fala da cartomante provocou uma onda de desdobramentos que, de outra forma, não teria acontecido? Ou seja: se a visita à cartomante não houvesse sido feita, tudo teria continuado muito bem com o namoro, obrigado – e, nesse caso, onde foi parar o tal destino que “já estava escrito”?

tempo

E perceba que isso poderia acontecer mesmo se considerarmos que algumas pessoas têm de fato o dom de prever o futuro – e não são todas mal-intencionadas ou iludidas por suas próprias crenças. Muitos livros, filmes e seriados, aliás, brincam com essa premissa: a de que um futuro previsto pode ser alterado simplesmente pelo fato de ter sido previsto – mesmo que os personagens não tentem, propositalmente, evitá-lo ou alterá-lo. É a história do efeito borboleta (exemplificada, aliás, de um jeito quase didático no filme de mesmo nome): se qualquer mínima decisão ou atitude que tomamos em nossos dias pode ter consequências inesperadas e por vezes gigantescas lá na frente, imagine a proporção que essas consequências podem tomar se ficarmos, justamente, tentando mexer no futuro.

Se dizem que devemos deixar o passado no passado, eu defendo que o mesmo pode ser dito a respeito do futuro: vamos deixá-lo lá mesmo, nos dias e tempos que ainda não vieram – e descobrir como ele será só quando ele chegar. Ele já chega rápido demais, o tempo todo tomando o lugar do presente, que passa tão ligeiro. Vamos aproveitar e nos concentrar nesse agora – antes que ele vire passado, e deixe o futuro entrar.