Lá e de volta outra vez: passar uma temporada fora é, realmente, ver sua vida de fora. Foi o que eu fiz nos últimos três meses, quando deixei minha vida suspensa e fui realizar um sonho antigo de trabalhar e morar em outro lugar. Não foram férias – a correria, as sequências de dias sem folga e acordando absurdamente cedo e o cansaço nas pernas e na mente não deixavam espaço para confundir esse período com qualquer coisa parecida com uma folga. Mas também não pareceram ser ‘não-férias’: normalmente, é só durante as férias que nós nos permitimos um distanciamento tão grande de tudo aquilo – pessoas, lugares, rotinas – que costuma fazer parte de nosso dia-a-dia.

Conheci mais gente nesses três meses do que devo ter conhecido nos últimos três anos – e a intensidade de uma rotina em que tudo é novo faz com que algumas dessas amizades pareçam já durar décadas. Aprendi coisas que jamais imaginei aprender (como operar uma atração de parques de diversão, por exemplo) – e também coisas que eu definitivamente já devia ter aprendido (como os preços justos ou injustos dos alimentos no supermercado – coisa em que você não costuma pensar muito se, como eu, ainda mora sob o mesmo teto que sua mãe). Passei três meses falando um idioma que não é o meu nativo, e interagindo com gente vinda de todos os cantos do mundo: Austrália, Reino Unido, França, Índia, México, Hong Kong, Noruega. Fiquei positivamente surpresa com diversos aspectos da vida em um chamado “país de primeiro mundo”, e, em medidas quase iguais, negativamente surpresa com diversos deles – às vezes dava vontade de fazer as malas e nunca mais voltar pra esse Brasil, e em outros momentos dava uma saudade…

Saudade – também foi uma lição de como lidar. Saudade da família, do namorado, dos amigos; da minha cama, do meu banheiro, do meu carro; da comida e do clima brasileiros; da academia, das aulas de circo, de ter as unhas e as sobrancelhas sempre feitas. Eu estava sempre tão ocupada – e minha cabeça ficava tão absorta em tanta informação nova – que, confesso, às vezes nem dava tempo de ter saudade. Não aquela doída, que faz querer chorar: era mais um quentinho no peito, uma coisa gostosa de saber que, ao fim da aventura, eu voltaria para casa, para tudo o que me é tão familiar e que eu tanto amo. Era algo que me dizia que a tristeza pelo fim da viagem seria compensado pela alegria por reencontrar tudo isso.

Passar uma temporada fora é ver sua vida de fora – e, com o perdão do clichê máximo, aprender a valorizá-la: todos os pequenos confortos nos quais já nem mais pensamos, todos os pequenos hábitos que acabam fazendo falta, todas as coisas das quais até mesmo já passamos a reclamar, de tão acostumados que estamos com todas elas. Voltei vendo com um outro – e melhor – olhar todas as coisas que me fizeram falta lá fora, do meu trabalho (o qual eu já me sinto tão à vontade fazendo) ao meu namorado (que foi absurdamente maduro ao me ajudar a lidar com a distância), da minha família (que tanto me apoiou na perseguição desse sonho) aos meus amigos (sem os quais a viagem foi certamente menos divertida do que poderia ter sido se eles estivessem lá). Voltei me vendo com um outro olhar: por todas as coisas que fiz e que jamais imaginei que conseguiria fazer, e pela própria coragem de ter feito as malas e dado os primeiros passos. E não há mesmo como voltar vendo a si mesmo da mesma maneira – porque uma experiência assim muda a gente. Ainda bem.

Com algum (mas justificado) atraso, estou pronta para começar o ano – de volta à minha vida de sempre, mas sabendo que, ao mesmo tempo, muita coisa está e vai ser diferente. Lá e de volta outra vez. 😉