Se você pesquisar o significado da expressão em inglês “try too hard”, vai encontrar algo como “an act of pushing one self to fit in somewhere to where it becomes obviously unnatural” – algo como, em uma tradução bem livre, “o ato de se esforçar tanto para se encaixar em algo que o resultado fica obviamente não-natural”. A cantora Pink dá um exemplo perfeito na música intitulada, justamente, Try Too Hard: “Tudo o que você é, tudo o que diz, tudo o que você faz não é para você”, canta. “Tudo o que você sente, tudo o que sabe, encontrou no seu programa de TV favorito. Você diz a todos como você é realmente diferente; mas isso já foi dito antes, então, afinal, talvez você não seja tão especial.

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Eu já contei aqui que estou de volta à universidade – assim, aos 27 anos, tenho colegas de 17 ou 18, que estão começando sua primeira graduação agora. Apesar da diferença de quase dez anos, me dou muito bem com a maioria deles – mas tem alguma coisa em alguns deles que me incomoda muito. Não é algo exclusivo dessa faixa etária, entre a adolescência e a idade adulta; mas é algo que, noto, é frequente entre eles. Demorei para identificar o que era. Mas é isso: às vezes, they try too hard. Mas não é algo característico de um só grupo, da minha turma, de um determinado curso universitário, dessa geração. Todos nós, nessa fase da vida, used to try too hard.

É uma coisa de querer impressionar, sabe? Na primeira fase do curso, ninguém precisa saber falar alemão (curso Letras Alemão, para quem não sabe) – mas quem conhece uma ou duas palavras usa absolutamente qualquer desculpa para colocá-las no meio de uma frase, para demonstrar seus conhecimentos e sua pronúncia na frente dos colegas. Comentários do tipo “quando eu viajei para a Áustria…” são anormalmente frequentes. Sabe quando alguém levanta a mão no meio da aula e faz um comentário aleatório sobre “a segunda fase literária de Machado de Assis” – e você percebe que o comentário serviu muito menos ao propósito de contribuir para a aula, e muito mais ao propósito de mostrar que, bem, o autor da frase leu (ou diz que leu) Machado de Assis? É assim. Sempre tive a sensação de que quem se elogia demais, destaca demais as próprias virtudes, tem mesmo é medo de que as outras pessoas não consigam percebê-las sozinhas. Enquanto try too hard para se mostrar inteligentes demais, cultos demais, fluentes demais nas línguas estrangeiras, eles mostram que são, como todo mundo de quase vinte anos, extremamente inseguros. Eu sei – já tive quase vinte anos. E já fui exatamente assim.

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Meus colegas mais velhos não estão nem aí: prestam atenção nas aulas, fazem suas anotações e suas provas, apresentam seus trabalhos – e fazem contribuições à aula quando elas são realmente contribuições. Falam mais do assunto e menos de si. E trocam olhares levemente exasperados quando os outros, bem, try too hard. Desculpem se eu pareço muito ranzinza – mas, usando outra expressão da língua inglesa, been there, done that: já estive lá, já fiz isso. Eu sei bem como é.

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Há dez anos, eu achava que, aos 27 anos de idade, teria inveja da galera de 17 – afinal, nada melhor do que aquela fase da vida em que você meio que já manda no próprio nariz, mas ainda pode depender dos pais para as coisas mais chatas, certo? Errado: melhor mesmo é ligar o foda-se. Perceber que a opinião dos outros a seu respeito, na maior parte do tempo, importa pouquíssimo. E se livrar daquela pressão e daquela vontade quase insuportáveis de impressionar.