Já deixo claro que o objetivo deste texto não é discutir a veracidade (ou falta dela) por trás dos dogmas e argumentos de cada religião – muito menos a existência ou não de Deus, de alma, de vida após a morte. Pessoalmente, não sou religiosa – e atualmente acredito cada vez menos em qualquer coisa que tenha qualquer quê de misticismo (com uma inexplicável exceção: meu amor por astrologia, justificado, como não poderia deixar de ser, por meu Sol em Escorpião). Mas sempre fui um tanto fascinada por religiões; por entender o que cada uma prega ou condena. Sempre me interessei muitíssimo por aquilo em que cada pessoa acredita, aquilo que dá sentido ou esperança ao mundo de cada um. Sem praticar nenhuma, li sobre várias, e adoro observar as diferenças e semelhanças (estas, muito mais comuns do que frequentemente imaginamos) entre uma e outra.

heaven

Nesse processo, sempre notei como o surgimento das religiões (e, para muitos, da própria crença em uma divindade ou na permanência do espírito após a morte do corpo) é creditado a uma busca do ser humano por conforto. Para a maior parte das pessoas, é confortante saber que há um plano maior para sua vida, uma meta traçada, um propósito por trás de cada tropeço ou beco sem saída. Para a maior parte das pessoas, é um alívio pensar que há um ser divino observando seus passos, ouvindo suas preces e quem sabe ajudando a curar aquela doença, a iluminar a mente na hora daquela prova, a fazer o entrevistador escolher você como o candidato certo para aquela vaga. Para a maior parte das pessoas, é um alento crer que, apesar da vida sofrida, depois da morte haverá uma recompensa, uma existência mais plena e realizada. Para a maior parte das pessoas, é um consolo imaginar que aquele amigo ou parente falecido não deixou de existir – e sim está em um lugar melhor, mais feliz, onde iremos reencontrá-lo algum dia.

Mas quer saber? Tudo isso me aterroriza.

De verdade: não gosto da ideia de que há um “plano maior” traçado para a minha vida – eu não concordei com ele, afinal de contas. E se ele não estiver de acordo com meus próprios planos? Não gosto de imaginar um ser divino cuidando de mim, anotando minhas virtudes e falhas – como eu vou saber onde estou acertando ou errando? Como vou saber qual é o dogma certo, o deus (ou a deusa, ou vários deles, quem sabe) certo? E se a tal vida após a morte não for tão legal assim – ou minhas falhas inconscientes me levarem a um lugar não tão legal assim? Pior: se o “plano maior” existe, eu não deveria estar fazendo algo melhor da minha vida? Algo mais nobre, mais elevado?

clouds

Talvez eu seja egoísta demais para isso, ou covarde demais para isso, mas não gosto do peso que isso traz – uma responsabilidade meio externa, um “ter que” fazer coisas em prol de uma vida que eu não sei como, onde ou quando será. Ou talvez eu seja corajosa e goste mais da ideia de pegar a vida com minhas próprias mãos, fazer meus próprios planos, entender que fracassos às vezes acontecem porque eu fui meio burra mesmo, e que a única responsável pelo meu sucesso na prova, na entrevista de emprego e na vida sou eu mesma, e não uma divindade e seus anjos. Não é que eu goste da ideia da morte: o que me deixa desconfortável é essa ideia da transcendência. A ideia da morte em si me dá arrepios. Eu trocaria muita coisa por uma poção da imortalidade – mas aqui mesmo, neste plano e neste mundo, nesta Terra da qual eu gosto muitíssimo, obrigada.

Saber que não há nada além – e que um dia eu vou simplesmente deixar de existir – é tudo de que eu preciso para, enquanto eu puder, aproveitar esta existência, esta aqui, a única que eu tenho, ao máximo. Sem divindades vigilantes, sem soma de pontos na corrida pelo paraíso, sem medo demais (ou esperança demais) pelo que pode acontecer depois. E com a única e nobilíssima missão de ser feliz.