Dia desses, eu li na internet um texto que falava sobre como amizades surgem e passam: sobre como uma amizade não precisa durar para sempre para ser verdadeira, e sobre como, às vezes, as mudanças da vida afastam amigos que antes não faziam nada um sem o outro – e tudo bem. Porque convenhamos que não existe amizade incondicional (nem amor incondicional existe, vai): normalmente somos amigos de pessoas que têm interesses parecidos, opiniões parecidas, que gostam de fazer coisas parecidas. Isso porque geralmente é assim que as amizades surgem, não é mesmo? Você vira amigo daquela colega da aula de dança, daquele cara que encontrou na fila do show da sua banda favorita, daquela galera que conheceu em um grupo de Facebook a respeito de determinado livro, filme, ideologia política, programa de intercâmbio. E geralmente é assim que as amizades se mantêm – fica difícil continuar amigo de alguém que não liga para os assuntos que te empolgam, ou que não gosta de passar os finais de semana fazendo a mesma coisa que você.

amizade

Só que os anos passam, e as pessoas mudam – duvido que hoje seus interesses, seus passatempos, seus rolês, sejam todos exatamente a mesma coisa que há três, cinco, oito anos. Com essas mudanças, novas amizades vão surgindo – e outras vão morrendo. Dizem que entre os 20 e os 30 anos de idade você perde até 80% dos amigos que fez até os 20 anos, sabia? (na minha experiência pessoal, essa estatística se confirma) E, como eu já disse antes, tudo bem. É normal. Natural. Ninguém (esperemos) passou a se odiar ou coisa parecida – foi só um afastamento, uma consequência infelizmente não tão divertida das mudanças inevitáveis (e saudáveis) que sofremos ao longo do processo de amadurecer e envelhecer.

Gostei do tal texto que li – até compartilhei. Mas depois fiquei pensando nos termos usados pela autora: ela falava algo como “não gosto mais de determinadas pessoas, mas ainda as amo” – no sentido de ainda ter carinho por elas, de ainda desejar-lhes bem. Entendo o sentimento, mas não sei se concordo. Existem algumas pessoas – antigos amigos meus, alguns absurdamente próximos – de quem eu não gosto mais. E ponto final. Mas atenção: “não gostar” não é sinônimo de “desgostar” – se eu nunca ouvi determinada banda, por exemplo, eu posso dizer que “não gosto” dela, porque bem, eu não gosto mesmo; mas isso não quer dizer que eu “desgoste”, já que, se nunca ouvi as músicas, como posso desgostar? É assim com essas pessoas – entendo e aceito que não mais gosto delas. Não desgosto, tampouco – é mais uma ausência de sentimentos. Elas (ou eu) mudaram tanto que às vezes elas falam coisas ou agem de determinadas formas que eu chego a pensar “caramba, como nós fomos tão próximos algum dia???” – é quase como se agora ela fosse outra pessoa. Uma pessoa que eu não amo. Meu carinho, pensando bem, não é por essa pessoa – é pela pessoa que ela foi um dia, é pelos momentos bons que passamos juntos. Voltar a falar com ela é como tentar voltar a uma casa onde eu já vivi e onde passei momentos maravilhosos – mas uma casa que passou por tantas reformas que eu já não reconheço mais. Voltar lá não adianta. Não é a mesma coisa. E é claro que eu quero que essas pessoas sejam felizes – mas, de modo geral, eu quero isso para todo mundo (antigos amigos ou não), porque acho que gente feliz deixa o mundo mais legal.

despedida

Existem pessoas de quem, sinceramente, eu fico feliz por ter me afastado.

E, claro, existe o outro lado – pessoas que se afastaram contra a minha vontade, e me deixaram até hoje tentando entender por quê. Dessas pessoas eu ainda gosto, de algum modo – mas entendo que elas não gostam mais de mim. Não desgostam, espero. Mas algo tornou nossa amizade, nossa convivência, impossível. E tudo bem.

end

Ex-amigos, obrigada por tudo, de verdade. Mas eu não gosto mais de vocês – e não vou fingir que amo, como disse a autora do texto que eu citei. Espero que estejamos quites.