“Fugir da rotina” é um desejo tão comum que até já virou expressão manjada – todo mundo quer, de vez em quando, escapar do roteiro que rege a maioria de seus dias, dos horários sempre tão rígidos, dos afazeres que se repetem dia a dia, até dos hábitos e passatempos que já viraram comuns em seus relacionamentos, sejam amorosos, familiares ou de amizade. Para muitos, o mês de férias é a brecha anual onde a tal fuga da rotina é permitida: um respiro que faz com que tenhamos força para aguentar os outros onze repetitivos meses. Para outros, cada dia ou semana exige uma aventura capaz de espantar o tédio: uma caminhada por um lado desconhecido da cidade, um almoço com aquele novo colega de trabalho, um curso rápido, um exercício físico diferente. O que é comum é a vontade: fugir da aparentemente opressora e terrível rotina.

rotina

Eu faço parte do segundo grupo entre aqueles que citei ali em cima (já não escrevi aqui sobre meus cursos de dança, alemão e até de massagem tântrica?), e confesso que viajar é um dos meus maiores sonhos, planos e prazeres na vida (como eu também já escrevi aqui e aqui e aqui) – então eu seria hipócrita se dissesse que não gosto de escapar de vez em quando. Mais que isso: acho que é essencial – areja a cabeça, nos faz conhecer e entender coisas novas, desperta a criatividade e o gosto pelas coisas mais simples da vida. Não dá para passar dia após dia no automático, fazendo só o que sempre fazemos, aquelas coisas às quais já estamos tão acostumados que nem nos fazem pensar muito.

Só acho que existe um exagero nisso tudo (como quase em tudo nos dias de hoje, aliás): uma demonização da própria palavra ‘rotina’, como se ela fosse um monstro a ser evitado a todo custo, uma doença que drena nossa energia vital e a alegria de nossos dias. Se você diz que seu namoro ou casamento virou rotina (o temido ‘cair na rotina’, como que em um poço cheio de cobras venenosas), então, vixe – é praticamente uma sentença de morte para o amor e o relacionamento. Mas convenhamos: ter zero rotina é praticamente impossível. Mesmo quem trabalha por conta própria ou em casa acaba estabelecendo hábitos mais ou menos permanentes: a hora de levar o cachorro para passear, de ir correr no parque. Aposto que mesmo o mochileiro que está dando a volta ao mundo à base de carona já descobriu (e adotou) duas ou três práticas que fazem sua vida mais fácil – seja o método infalível para conseguir a próxima carona ou o critério certeiro para encontrar o melhor hostel.

carona

E não há nada de ruim nisso: a rotina ajuda justamente a organizar nossas vidas, fazer tudo ser mais prático e funcional. É legal e saudável desafiar o cérebro com novos problemas e soluções aqui e ali, mas fazer isso o tempo todo, 24 horas por dia, seria uma perda de tempo imensa – além de terrivelmente cansativo. Rotina tem um lado gostoso, uma coisa confortável: de acordar feliz às sextas-feiras por saber, por exemplo, que é noite de pizza na sua casa; ou de escapar de debates intermináveis na hora de decidir a balada de sábado com suas amigas, porque vocês já têm uma favorita. Parar de reclamar da rotina – e abraçar seu lado bom – pode, justamente, torná-la uma coisa menos pesada e mais aconchegante. E, claro: a fuga da rotina só é legal, obviamente, porque a rotina existe. Fazer coisas diferentes só é empolgante porque elas são diferentes. Quem sabe não é justamente a rotina que dá a graça dos dias e das coisas que escapam dela?