Bonito é uma cidade pequenininha, dessas que têm uma rua principal que concentra tudo – os correios, as farmácias, o banco, o supermercado, a praça, os restaurantes (que servem a típica carne de jacaré, provada e aprovada pela autora do texto) e barzinhos – e algumas quadras residenciais e de pousadas aconchegantes, que recebem os turistas que lá estão para conhecer não a cidade em si, mas sim seus arredores. Por uma abençoada configuração geográfica, Bonito é repleta de rios de águas cristalinas, cachoeiras de todos os tipos e tamanhos, grutas que guardam nada menos que fósseis de bichos-preguiça gigantes e tigres dente-de-sabre (juro) – e, claro, toda a vida que se beneficia disso; incluindo aí animais que parecem exóticos para os habitantes das grandes cidades: sucuris, antas, onças-pintadas, tucanos, macacos-prego, jacarés, capivaras.

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Nos tais arredores de Bonito, são mais de 30 opções de passeio, que vão de cartões-postais como a Gruta do Lago Azul (azul esse causado pela luz do sol incidindo sobre o lago no fundo da enorme caverna) a rios como o Sucuri (o nome é por causa do formato sinuoso do rio; não, ele não é infestado de serpentes), o Bonito e o Formoso (cujos nomes falam por si só). A Estância Mimosa presenteia os visitantes com uma trilha que passa por nada menos que sete cachoeiras – cada passeio ainda oferece diferentes opções, de flutuação a mergulho, de bote a caminhada. E tudo é muito bem cuidado; isso porque quase todas as atrações (há apenas duas exceções) ficam dentro de propriedades privadas, estâncias e fazendas que estavam lá muitos anos antes que o sortudo proprietário descobrisse uma gruta ou cascata encravada no coração de seus hectares de terra. O dono, claro, quer continuar lucrando, e portanto cuida: há banheiros, duchas, restaurantes, trilhas bem demarcadas, kits de primeiros-socorros à disposição e guias muito bem treinados, que acompanham e informam os visitantes sobre a melhor maneira de aproveitar o passeio e ainda respeitar e preservar os bichos e plantas que chegaram lá muito antes que nós. Dá até dó das praias, trilhas e cachoeiras de Floripa, lindas por natureza, mas sempre tão abandonadas pelo poder público à própria sorte.

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Próximo ao centro da cidade, para quem busca uma atração noturna, há uma opção menos famosa – mas mais interessante do que muitas que estão no catálogo tradicional: o Projeto Jiboia, espaço de informação e preservação das serpentes brasileiras, especialmente as brasileiras. Não é uma ONG – é a iniciativa de um apaixonado por serpentes que decidiu, com dinheiro do próprio bolso, montar um espaço de visitação, onde turistas e moradores podem conhecer, através da observação e de uma palestra longa e bem-humorada, esses animais muitas vezes tão injustiçados: serpentes são vistas como perigosas, nojentas, são símbolo da traição e gíria para gente fofoqueira e falsas amizades. Mas a grande verdade é que muitos de nós sequer viram uma cobra na vida (dispenso as possíveis piadas de nível pré-escolar, obrigada). Muita gente não sabe que, não, elas não são melequentas (na verdade, são mais limpas que a grande maioria dos cachorros), muito menos geladas. Não sabe que a maior parte delas não é venenosa – e que todas morrem de medo dos seres humanos, usando a mordida (ou picada) apenas para se defender, quando não conseguem evitar o encontro com uma pessoa. Não sabe que ter uma serpente de estimação é possível, e mais barato e descomplicado do que parece. (mas não recomendado a pessoas carentes: serpentes não desenvolvem afeto, e sua cobrinha vai passar suas cerca de duas décadas de vida tratando o dono como se fosse uma árvore um pouco mais agitada) Claro, a palestra é coroada pelo momento mais empolgante – ou aterrorizante, dependendo do ponto de vista – da noite: bater uma foto com a própria jiboia pendurada no pescoço.

Essa última experiência demonstra de maneira um pouco mais explícita a grande graça de qualquer viagem: experimentar o novo. Seja flutuando em um rio de águas cristalinas, comendo carne de jacaré, fazendo uma trilha até uma gruta escondida, disputando espaço com os macacos-prego ou tocando numa jiboia (ou então conhecendo uma avenida famosa em Nova York, saltando de bungee jump em Wellington ou passeando por um castelo em uma vila no interior do Reino Unido), viajar serve para isso: mostrar como o mundo é grande, e como experiências, vivências e culturas são tão diversas que nunca poderemos nos considerar sabedores de tudo – ou julgar os outros e o universo a partir de nossas vidas pequenas e nossos pré-conceitos. Viajar serve para aprender. E serve para termos vontade de fazer tudo de novo – quem sabe o que a próxima viagem pode nos ensinar?