Desde que começou a carreira, lá no comecinho dos anos 1960, Bob Dylan tornou-se referência para os apaixonados por música – e também por poesia: em clássicos como Blowin’ In The Wind, Like a Rolling Stone, The Time They Are A-Changin’ e Just Like a Woman, Dylan sempre surpreendeu com sua rara habilidade para traduzir em palavras pensamentos, sentimentos e imagens às vezes até mesmo um tanto abstratos. Em 2016, o talento de Dylan para as letras – embora não precisasse de mais provas ou sustentações – foi homenageado de forma inédita: o músico foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, prêmio máximo no gênero, tradicionalmente entregue a escritores de romances ou poemas em sua forma mais “convencional”. Segundo a Academia, o músico criou “novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção norte-americana.”

UNSPECIFIED - CIRCA 1970:  Photo of Bob Dylan  Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images

Aqui na Itapema, respiramos música – e, aqui no Mar de Nina, a literatura é uma das grandes inspirações. Pensando nisso, e para começar o ano com uma homenagem a Bob Dylan, a rádio presenteia um ouvinte com um exemplar de No Direction Home: a vida e a música de Bob Dylan, aclamada biografia assinada por Robert Shelton. Amigo pessoal de Dylan, Shelton contou com a autorização e a colaboração do próprio artista na redação do livro. “Quero que você escreva um livro honesto, não um livro de papo furado”, disse Dylan ao amigo, quando os dois começaram as entrevistas que deram origem à obra. “Estou confiando em você.”

Para concorrer ao prêmio, era necessário responder: “Qual música de Bob Dylan daria um bom livro, e por quê?” Nossos ouvintes e leitores capricharam – alguns deles praticamente escreveram contos baseados nas canções do músico! E, entre tantas boas respostas, a escolhida foi a enviada pelo ouvinte André Luis de Deus Rosa – André criou um conto cinzento e realista baseado no clássico Like a Rolling Stone. Confira a resposta:

Bom, é extremamente difícil falar algo que envolva o nome de Mr. Robert Allen Zimmerman e não pensar de imediato em quão iconoclastas e poéticas são suas canções. É um artista nato e por mais que eu tente falar sobre a sua estrada, os prêmios acumulados ao longo de toda a sua carreira tornam as explicações de minha parte irrelevantes. Dito isso, creio que Like a Rolling Stone seria um prato cheio para o desenvolvimento de um livro, tendo em vista as intempéries que a personagem feminina da música enfrenta. Sabidamente o contexto em que Dylan escreveu a música era totalmente diferente: os anos sessenta representaram a década em que as maiores manifestações e revoluções sócio-culturais foram desenvolvidas. Logo, creio que a ideia do poeta era expressar o seu pessimismo frente a uma geração que passava por mudanças tão significativas, que acabariam a direcionando para uma confusão de movimentos populares. Mas voltando a minha livre interpretação da música para a confecção de um livro: a personagem em questão seria uma roqueira consagrada e teria literalmente o mundo aos seus pés. Sua vida seria repleta de luxo, exibicionismo e fama. Tais elementos fizeram com que a cantora esquecesse sua origem humilde, de sua infância na fazenda e da vida bucólica que levava com os seus pais. Naquele tempo o dinheiro não era algo a ser levado em conta e a família, a natureza e os amigos compunham as bases de seus valores morais. Mas agora os tempos haviam mudado: ela era egoísta demais para dar algum amparo à sua mãe que morria de câncer em sua terra natal e nada daquilo fazia algum sentido pra ela. Ela transmutou-se em uma narcisista de primeira categoria e seu ego ficou maior que a via láctea. Porém, tal qual os ponteiros de um relógio, o mundo dá muitas voltas. Com o passar dos anos era natural que ela ficasse velha e que a beleza dos primeiros anos habitasse apenas nas fotografias, quadros e pôsteres espalhados pela sua mansão. Os discos de sua banda vendiam apenas por conta de sua estonteante beleza que agora o tempo se encarregava de lhe roubar. Os membros do grupo logo a substituem por outra vocalista: alguém vinte anos mais nova e com o triplo do tamanho dos seios dela. Seus discos solo foram um fiasco total de vendagens e de crítica. Ela se afundou em dívidas e gastou toda a sua fortuna em drogas e jogatina. Humilhada, desamparada e jogada à própria sorte, decide retornar à casa de seus pais, mas quando chega lá havia outras pessoas habitando o que pra ela um dia foi um autêntico lar. Ela decide perguntar para um vizinho o que havia acontecido com o casal que morava ali e o homem lhe diz algo chocante: que o casal era muito apaixonado e que o marido não pôde suportar ver sua mulher sucumbir ao câncer. Num ato de extremo desespero, ele resolve se enforcar para estar ao lado de sua amada. As palavras soam como golpes de boxe em sua face. Ela sai caminhando sem um rumo aparente. Subnutrida, sem teto, sem amigos, sem carinho, sem absolutamente nada, ela aguentou o quanto pôde. Sem perspectiva alguma de que sua vida melhorasse, ela invade um posto de gasolina e assalta a loja de conveniências do lugar. Porém, há um policial de folga comprando cigarros e esse policial foi o responsável por disparar cinco tiros contra o peito da mulher no exato instante em que ela avançou sobre a caixa registradora que estava sobre o balcão. O caso acabou virando mais uma lenda do mundo do rock, e todo ano alguma empresa lucra muito dinheiro lançando um documentário sobre a ascensão e a queda inimaginável sofrida pela nossa personagem principal.

Parabéns, André! :) Fique ligado na Itapema – sempre tem uma promoção nova no ar!