O reveillon é minha festa favorita do ano: é uma data comemorativa que, apesar de tão marcada por tradições quanto o Natal, a Páscoa ou qualquer outra, parece menos cheia de formalidades, menos cheia de obrigações (do tipo dar presentes ou fazer necessariamente uma ceia) – e é símbolo de uma época em que as pessoas estão mais otimistas, mais alegres, mais positivas a respeito do futuro. Se o ano que passou não deu lá muito certo, sem problemas: agora vai. Fazem planos, traçam metas, e estão de fato mais decididas: nesse ano, aquela mudança de carreira (ou aquele curso novo, aquela dieta, aquele intercâmbio, aquele hábito mais saudável) sai do papel!

ano-novo

Minha empolgação com esse clima toda e com a festa em si (sou do tipo que, se está na rua, sai desejando “feliz ano-novo” para todo mundo – não parece que todo mundo fica amigo na noite de reveillon?) não é nem abalada pelo meu lado mais cético. Mas, se eu parar para pensar com mais atenção, começo a achar tudo isso meio irônico. Porque, pensando bem… Nada mudou realmente, né? O tempo não tem de verdade as divisões que inventamos para organizar nossos calendários e facilitar nossas vidas: tudo é uma linha contínua, não uma série de pequenos conjuntos de horas, dias, meses. Não existe uma divisão concreta entre segunda e terça-feira, entre outubro e novembro, entre a primavera e o verão. No fundo, você não vai trabalhar ou dormir uma vez por dia – vai uma vez a cada intervalo regular de tempo. No fundo, um dia não está claramente separado do anterior pela noite que há “entre” os dois – foi só um movimento planetário que fez o nosso cantinho aqui na Terra ficar escuro e, opa, clarear de novo. Tudo é uma coisa só. Infinita – e inexorável, como diria Bernard Cornwell em seus livros.

Então, no fundo, o novíssimo 2017 não está nem um pouco separado do infame 2016. Não há diferença entre este janeiro, tão cheio de promessas e novas esperanças, do 2016 que ganhou fama na internet como um dos piores anos das últimas décadas – tão marcado por tragédias, polêmicas e mortes de famosos como foi. Na verdade, a sensação de que o ano passado foi terrível provavelmente foi muito mais intensificada pelos comentários a respeito de como ele foi terrível do que pelos acontecimentos em si: um dos comentários gerais, por exemplo, dizia “e achávamos que 2015 já tinha sido ruim…”, quando, pessoalmente, 2015 foi um dos melhores anos da minha vida. Talvez, quem sabe, o melhor.

dumbledore

A questão toda é: está tudo dentro da nossa cabeça. Então esse otimismo todo a respeito de 2017, apesar da falta de, digamos, embasamento ‘científico’, não é nada ruim: é ótimo poder aproveitar a onda de positividade – e de produtividade – para botar a mão na massa e efetivamente colocar nossos planos em prática, transformar nossos sonhos em realidade. Sem aquela preguiça de “ano que vem eu faço”, sabe? Já dizia Dumbledore: “Naturalmente isto está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que isso deveria significar que não é real?” Se o ano não tem nada de novo na ‘vida real’, não tem problema: quem precisa pensar novo é você. E só depende do nosso ponto de vista (e das nossas atitudes, vai) fazer um ano pior ou melhor que 2016 – e, quem sabe, ainda melhor do que foi meu 2015.