Era começo de outubro quando uma amiga minha twittou: “A mãe de alguém já está arrumando a casa para o Natal? Porque a minha está.”

Achei graça. Afinal de contas, outubro mal tinha chegado! Se a decoração em questão fosse de Dia das Bruxas, eu entenderia. Mas Natal? Já? Refleti sobre como provavelmente não aguentaria Papais Noéis sorridentes e luzinhas piscando em minha sala de estar durante três meses inteiros, deixei um comentário solidário para minha exasperada amiga e esqueci o assunto. E, três dias depois, ao abrir a porta para entrar em casa, a primeira coisa que vi foi uma luminosa árvore de Natal, com anjo no topo e tudo mais, logo ali, ao lado da televisão. E não era só a árvore. Minha casa foi invadida por renas, flocos de neve, fitas vermelhas e verdes e até um presépio completo, com direito a Menino Jesus deitado na manjedoura. Isso faltando quase três meses para seu suposto nascimento.

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Passei alguns dias pensando que pressa natalina é essa que acomete as mães em pleno mês de outubro; até que entrei numa dessas livrarias e me deparei com algo que realmente me assustou: agendas 2017. Ali, à venda. Juro que há alguns anos seria mais comum encontrar, em meados de outubro, agendas do mesmo ano à venda, em promoção. Aquelas que sobraram das vendas do início do ano e agora estão sendo vendidas a R$ 1,99 – não sei para quem, também, porque nunca vi ninguém comprando uma agenda para usar apenas dois ou três meses dela. Talvez por isso tenham desistido de tentar vender. Enfim. A visão das agendas 2017 nas prateleiras me deixou preocupada: por um momento me perguntei se não era eu quem estava errada. Decoração natalina, agendas 2017 à venda… Estaríamos em dezembro e eu não teria percebido? Outubro seria apenas um delírio, uma ilusão minha?

Mas logo meu devaneio foi substituído por uma certa indignação. Peraí. 2016 ainda não acabou. Ele ainda tem mais três meses! Está bem, dois e meio. Mas isso são dez semanas! Setenta e cinco dias! Quanta coisa pode acontecer nesses setenta e cinco dias? 2016 está tão ruim assim, para já quererem que ele acabe? (okay, algumas pessoas vão dizer que sim, mas vou te contar uma coisa: a virada do ano influencia pouquíssimo essa questão aí)

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A impressão que eu tenho é de que não são só as mães que tem pressa de que o Natal chegue. Todo mundo tem pressa, embora não saiba do quê. Em outubro, as pessoas já estão com a cabeça nas festas de fim de ano. Durante o reveillon, certamente estarão planejando o Carnaval. Ao longo do ano, querem que as férias de verão cheguem depressa, e, quando elas chegam, reclamam do calor e aguardam com ansiedade a volta do inverno. A publicidade explicita essa pressa sem o menor pudor: a Páscoa ainda não acabou e as promoções de Dia das Mães já se espalharam pela TV, pelos outdoors, pela internet. As pessoas vivem pensando no futuro, planejando o futuro, esperando o futuro. Vivem no futuro, e esquecem do presente, que há algumas semanas foi o futuro tão esperado. A prova? Todo mundo trabalha na sexta-feira, mas sexta-feira é o dia mais celebrado da semana – porque o dia seguinte é sábado. E todo mundo (tá, quase todo mundo) está de folga no domingo, livre para fazer o que quiser; mas todo mundo odeia domingo – porque o dia seguinte é segunda-feira. É ou não é?

Sem querer cair no clichê do carpe diem, eu acho que é essa falta de viver o presente que cria a sensação de que o tempo anda correndo tão depressa. Todo mundo diz, o tempo todo, que os dias e os meses estão passando cada vez mais rápido. “Meu Deus, este ano passou voando!” Mas ainda não passou! Você só vai poder usar a agenda 2017 que comprou hoje daqui a setenta e cinco dias. Setenta e cinco dias é muito tempo. Vai que eu compro agora a minha agenda e o mundo acaba antes do reveillon? Vai que eu compro agora um presente de Natal para a minha melhor amiga e até dezembro nós nos tornamos inimigas mortais? Nunca se sabe.

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Bons deviam ser os tempos das nossas avós. As coisas aconteciam com mais calma. Ninguém tinha pressa de nada. Os dias eram cheios de afazeres, mas, mesmo assim, as famílias se reuniam no fim da tarde para sentar na varanda e conversar. Paz. Tranquilidade.

Ou pelo menos é o que minha avó conta. Mas aposto mesmo que minha bisavó não montava a árvore de Natal antes do Dia das Crianças.

*Essa crônica foi escrita há oito anos, para uma matéria do curso de Jornalismo – relendo, eu até consigo notar que meu jeito de escrever mudou bastante. Adaptei as datas para a postagem não ficar sem sentido, claro. Mas certas coisas não mudaram: eu decidi postar esse texto aqui porque ontem mesmo minha mãe entrou na sala comentando que ia aproveitar o dia de folga (ou seja, hoje) para montar a decoração de Natal. Pois é. Não sei por que eu ainda me surpreendo.