Tem uma amiga minha que eu sempre admirei muito, entre outros motivos, por ser, bem, ela – e não ter vergonha nenhuma de assumir isso. Não que tenha algo de errado em ser como ela é, de forma alguma – mas normalmente as pessoas se podam muito na frente dos outros: tentam se passar por mais maduras, mais independentes, mais espertas; tentam falar coisas mais impressionantes e esconder gostos, hábitos e opiniões que podem parecer “bobos”. Essa minha amiga, não: ela é ela, e quem quiser gostar que goste – quem não gostar, adeus e obrigada. Usa as roupas que bem entende, gasta seu dinheiro com as coisas que bem entende, e é tão espontânea que chega a ser engraçado às vezes – não “engraçado” de “esquisito”, mas de divertido, de legal, mesmo.

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E, entre as paixões dessa minha amiga, estão os videogames – e é por esse motivo que eu comecei a escrever esse texto. Ela é realmente apaixonada por videogames: coleciona consoles e jogos, já jogou praticamente qualquer game em que você conseguir pensar, usa camisetas que fazem referência a histórias e personagens. E ela é mais velha que eu – o que faz muita gente estranhar, porque, né, será que ela não está velha demais pra isso?

Espera aí, gente. Pára tudo. Essa ideia, de que se está “velho demais” para gostar disso ou daquilo, sempre me irritou. Porque eu também sempre fui alvo disso: sou fã de Harry Potter a ponto de ter duas tatuagens sobre os livros, e não, não passei, depois de adulta, a responder A Divina Comédia ou Cem Anos de Solidão ou qualquer outro livro mais “””conceituado””” quando me perguntam qual é o meu favorito. Sou fã de Disney – não choro com muito filme dramático vencedor de Oscar, mas choro com qualquer animação assinada pela Disney e/ou pela Pixar. E muita gente me acha “velha demais” para isso. Tem até bandas que as pessoas já me acham velha demais para gostar, como se passando dos 25 eu só pudesse ouvir, sei lá, Dire Straits e Men at Work.

Não é só fã de videogame ou de Harry Potter que passa por isso: é fã de anime, de cosplay, de Pokémon Go, de jogos de tabuleiro, de RPG, de Justin Bieber – o que eu conheço de gente que é louca por ele e se joga com cada música que ele lança, mas não admite nem sob tortura… (também tenho uma amiga da minha idade que acha que o posto de cara mais bonito do mundo é atualmente ocupado pelo Harry Styles, mas essa assume) Olha, eu JURO que até com minha paixão por Toddy as pessoas implicam – porque, afinal, com essa idade, eu já deveria ter trocado por café. Mas desde quando essas coisas passaram a ter essa classificação etária inversa? Desde quando elas são proibidas para “gente mais velha”? E desde quando você deveria se preocupar tanto com o que os outros gostam ou deixam de gostar – ou, então, com o que os outros pensam a respeito dos seus gostos “menos maduros”? (ênfase nas aspas, por favor)

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Eu tenho uma teoria – no fundo, o que incomoda não é o Harry Potter (ou o Styles) ou o videogame, ou o RPG ou o Toddy: é o “ser fã”. Porque fã chora, faz loucurinhas (tipo tatuagem, sabe?), gasta dinheiro com coisas “fúteis” (70 dólares em duas varinhas, mas não me arrependo nem uma gota), fica feliz por uma semana simplesmente porque saiu um clipe novo do artista favorito ou o trailer do novo filme da franquia – e, dos adultos, o mundo espera mais comedimento. Adulto, afinal, é esse ser que só se preocupa com o trabalho, só se importa com coisas “sérias”, só se afeta com coisas graves demais ou relevantes demais. Adulto não compra roupa nem bugiganga por impulso, não vê grande valor em um autógrafo, não quer casar com o cara do filme. Adulto não chora por causa de uma música, não sente arrepio com a cena favorita do desenho favorito, não morre de raiva porque falhou na última missão do jogo. Não faz loucuras. Não sorri feito um idiota por alguém que “nem sabe que ele existe”.

Bom. Pelo menos, esse é o adulto que as pessoas parecem fingir ser quando estão querendo impressionar os outros – e esse fingimento inclui um certo desprezo por esses adolescentes velhos demais, que acham que a estreia da próxima temporada de Sense8 é um dos grandes tópicos do ano.

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Espero do fundo do meu coração que seja só fingimento. Porque, se não for, o mundo adulto de vocês é extremamente sem graça.