Aos 26 anos, eu decidi voltar para a universidade – não para fazer um mestrado ou doutorado, mas para me aventurar em uma nova graduação. Não, não estou insatisfeita com a minha profissão, e nem planejando mudar radicalmente de vida: eu só estava mesmo a fim de abrir a cabeça, aprender coisas novas, oxigenar um pouco o cérebro. Jornalista, agora estudo Letras Alemão. E confesso que nunca, na minha vida universitária, fui tão feliz quanto agora.

sem pressa

Não é uma questão de gostar mais do curso (embora eu adore as discussões sobre literatura, que eu não tinha antes): é uma questão de mudança de pensamento. São quase dez anos entre o início da minha primeira graduação e o início da segunda – e muita coisa mudou em mim, na minha cabeça, nesse intervalo de tempo; ainda bem. Quando comecei a estudar Jornalismo, eu era tão nova que nem pude participar da doação de sangue no dia do trote solidário – não tinha completado 18 anos ainda. Para mim, percebo agora, a faculdade foi encarada como uma extensão do ensino médio: eu passei a vida toda acordando cedo e indo estudar porque tinha que, porque era o que todo mundo fazia – e vi a faculdade da mesma forma (no caso da universidade, eu colocaria aspas nesse “todo mundo faz”, mas vocês entenderam). Escolhi um curso porque tinha que escolher. Ia para a aula porque tinha que ir. Fazia os trabalhos e as provas porque tinha que fazer. Passava por cada etapa, cada semestre, em uma espécie de inércia, porque é isso aí mesmo que se faz, certo?

Agora não: agora, eu não estou na universidade porque “tenho que”, mas porque quero. Eu escolhi voltar para lá, montei minha grade de horários conforme minha vontade e os horários que melhor se adaptam ao meu dia a dia. Tenho interesse genuíno em aprender: presto muito mais atenção nas aulas, participo muito mais, leio os textos, faço bem feitos os trabalhos (e não de qualquer jeito, só para “ganhar nota”) – acho que eu até entendo muitas coisas melhor, talvez por já ter mais referências. Estou muito mais disposta a encarar o curso como uma oportunidade incrível, e não como mais uma entre tantas obrigações.

universidade

E tem outra questão que eu ando sentindo com força: o fato de que, agora, eu sou muito mais segura do que há dez anos. Aos dezessete, eu morria de vergonha de mim mesma, morria de vergonha de tudo: ser novata em um ambiente estranho, interagir com desconhecidos, demonstrar minha opinião, falar na frente da turma toda – tudo isso eram desafios quase insuperáveis, coisas que tiravam meu sono e faziam com que eu quisesse me esconder em um buraco. Minha mãe me dizia sempre “o que eles têm a ver com isso? eles não pagam as tuas contas. não precisa ter vergonha!”, e eu não entendia como diabos ela podia ter toda essa facilidade em, perdão pela expressão, ligar o foda-se. Bem, agora eu tenho. Estou muito mais pronta para ser quem eu sou (e bancar isso na frente de todo mundo) do que estava a alguns anos atrás.

E isso me fez voltar àquela velha reflexão: somos mesmo muito novos quando nos enfiam em uma universidade. É um pensamento clichê, eu sei – mas talvez devêssemos mesmo terminar o ensino médio e ir aprender um pouco com a vida: trabalhar (e aí as empresas e empregadores teriam que aprender a não avaliar as pessoas com base apenas em um diploma), viajar na medida do possível, praticar um esporte, fazer um curso (de idiomas, de dança, de artesanato, que seja), conhecer gente com outras experiências, outras opiniões. Crescer e amadurecer um pouco – e depois estar muito mais preparado para entender a dimensão e a importância do conhecimento ao qual você vai ser exposto enquanto estiver na universidade.

pensamentos

Meu mundo ideal seria assim. Mas, enquanto as coisas não são ideais (e provavelmente jamais serão), sempre se pode voltar para a universidade aos 26 anos de idade – ou se rebelar, não fazer faculdade aos 17, e deixar para começar a trilhar esse caminho só mais tarde, por que não? Sua jornada não precisa necessariamente ser igual a dos outros. Muito menos seguir uma cartilha que foi preparada ao longo das décadas – e que talvez não combine com o que você quer ou espera para a sua vida. E desses desejos e esperanças só você pode saber com certeza.