Quando eu digo que estudo alemão, muita gente me pergunta: “Você pretende ir morar lá? Fazer um intercâmbio? Mas por que alemão?” É como se elas perguntassem “mas de onde diabos você tirou a ideia absurda de estudar essa porcaria de língua incompreensível?” Tudo bem se eu tivesse uma justificativa – um emprego, um curso, amigos na Alemanha, que seja. Mas não é nada disso. Eu resolvi me aventurar no estudo desse idioma quando me dei mais ou menos por satisfeita com meu inglês e decidi procurar uma segunda língua estrangeira para aprender.

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Minha primeira tentativa foi escolher a que seria, teoricamente, mais útil – por viver no Brasil, elegi o espanhol. Tentei por seis meses. Desisti. Não é que não gostasse do idioma ou o achasse muito difícil. Mas o fato de ele ser parecido demais com o português me angustiava. Quando a professora me pedia para dizer “minha casa é muito grande” e eu falava “mi casa es demasiado grande”, eu me perguntava por que cargas d’água eu estava naquela aula. Professores, alunos e amantes do espanhol, não me levem a mal: eu sei que, como qualquer idioma, ele obviamente precisa ser estudado – e eu mesma admito que não sei bulhufas dele. Mas eu queria algo mais… Exótico? Desafiador? Que soasse mais diferente aos meus ouvidos, talvez. Eu tenho uma queda pelo diferente.

Algumas pessoas me recomendaram o francês – que 90% da população acha lindo de morrer. Mas, bonito por bonito, meus ouvidos gostam mais do alemão – professores, alunos e amantes do francês, agora é a vez de vocês não me levarem a mal: um dia eu ainda pretendo aprender francês (e italiano, e o que mais eu puder, porque – caso você ainda não tenha notado – eu amo aprender novos idiomas), mas quem me atraiu logo de cara foi o alemão. Um idioma que, ao contrário de uns 80% da população (okay, eu inventei esses números), eu acho maravilhoso. (L) Assim, bonito mesmo. Adoro a pronúncia. Adoro os fonemas que não existem em português. Adoro a construção das palavras – óbvia, matemática, muito mais lógica que a das línguas latinas. Adoro o fato de que, apesar de não parecer à primeira lida ou ouvida, o alemão tem semelhanças com o inglês – o que facilitou muito meu aprendizado no início. E adoro, confesso, o desafio: tentar aprender uma língua que muita gente considera uma das mais difíceis.

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Eu sei. Se você não fala alemão, já deve estar me chamando de louca – e dizendo que tudo o que eu falei até agora não faz o menor sentido. “Alemão parece que está sempre brigando”, dizem. Aham. Você já ouviu dois italianos conversando? Olha, eu venho de família italiana, e posso dizer com propriedade que qualquer jantar em família parece uma sessão da Bolsa de Valores. Além disso, o contato que a maioria dos brasileiros têm com o alemão geralmente é através de bandas de rock pesado – bem pesado. Aí, amigo, até mandarim soa agressivo, né? (e isso não é uma crítica: eu adoro rock!) Você já tentou ouvir algum outro gênero musical cantado em alemão? Pop, jazz, até um rock mais levinho? Então ouve lá. Juro que vale a pena. “Qualquer palavra em alemão soa como um xingamento.” Acho que você não conhece muitas palavras em alemão. ‘Frühling’ (‘primavera’) soa como um xingamento para você? ‘Stern’ (‘estrela’)? ‘Schiff’ (‘navio’)? ‘Knopf’ (‘botão’)? ‘Herz’ (‘coração’)? Claro, gosto é gosto, mas eu juro que acho todas essas bonitinhas. (L) “As palavras em alemão são enormes! Você nunca vai aprender a escrever tudo aquilo.” A maioria delas não é tão enorme assim: é só porque os alemães vão juntando palavras, e, diferente de nós, não colocam um espaço entre uma e outra – mas essa “soma” de palavras é regida de uma forma tão lógica que só facilita essa coisa de aprender como se escreve.

Não entendeu? Okay, eu vou tentar explicar melhor. Aí embaixo eu listei sete curiosidades sobre o alemão – algumas delas me criam problemas, é verdade, mas outras me fazem amar ainda mais esse idioma:

1 – Todo substantivo, em alemão, é escrito com letra maiúscula. Todo. Ou seja, tanto nomes próprios, como no nosso bom português, quanto em qualquer nome: ‘Kind’ (‘criança’), ‘Katze’ (‘gato’), ‘Tisch’ (‘mesa’), ‘Land’ (‘país’), ‘Auto’ (‘carro’)… No começo parece meio esquisito, mas até que ajuda os iniciantes: você nunca vai confundir um substantivo com um verbo ou seja lá o que for.

2 – As palavras em alemão podem ter três gêneros: masculino, feminino e neutro. Assim, temos três artigos definidos, respectivamente o ‘der’, o ‘die’ e o ‘das’. Mas a definição do que é o quê é bem nebulosa – não adianta tentar associar o ‘das’ com o ‘it’ do inglês, por exemplo. ‘O homem’ é ‘der Mann’, ‘a mulher’ é ‘die Frau’, ‘o menino’ é ‘der Jung’ – mas ‘a menina’ é ‘das Mädchen’. ‘O cachorro’ é ‘der Hund’, e não ‘das Hund’. Pois é. O jeito é ir na decoreba, mesmo. (Mas, convenhamos, quem somos nós para falar? Quem foi que decidiu que ‘a cadeira’ é feminino e ‘o garfo’ é masculino, por exemplo? Qual é a lógica desse negócio?)

3 – Mesmo que o ‘it’ não seja uma delas, o alemão tem várias semelhanças com o inglês: tanto em palavras (‘mão’ é ‘Hand’, por exemplo, ‘lua’ é ‘Mond’, ‘encontrar’ é ‘finden’) quanto, e principalmente, em construções: em alemão também se pergunta, em vez de ‘quantos anos você tem?’, ‘quão velho você é?’, como no inglês (‘wie alt bist du?’ / ‘how old are you?’). Para dar outro exemplo, os dias da semana seguem a mesma lógica do inglês: ‘dia’ é ‘Tag’, e os dias da semana são ‘Sonntag’ (‘domingo’, ou ‘sunday’), ‘Montag’ (‘segunda-feira’, ou ‘monday’), ‘Dienstag’ (‘terça-feira’, ou ‘tuesday’)… Para quem já está acostumado, facilita um pouco. 😉

4 – O que não facilita é justamente uma semelhança com as línguas latinas: ao contrário dos falantes do inglês, os alemães conjugam verbos – em tempo, modo, pessoa, número… Igualzinho aos brasileiros, com todas as complicações que isso traz. Quem diria que ‘ging’ é o pretério de ‘gehen’ (em português, ‘ir’, só para constar)? E que ele vira ‘bin gegangen’ no Indikativ Perfekt? Vixe. Dá-lhe estudar conjugação de verbos irregulares…

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5 – Sabe ali em cima, quando eu falei que as tais “palavras enormes” do alemão são, na verdade, somas de palavras? É porque é isso mesmo: o alemão é como se fosse matemática. ‘Fronha’, por exemplo, essas de travesseiro ou almofada, é ‘Kissenbezug’ – porque ‘Kissen’ é ‘travesseiro’, e ‘Bezug’ pode ser algo como ‘cobertura’. Vai dizer que não é genial? ‘Sereia’ é ‘Meerjungfrau’, porque ‘Meer’ é ‘mar’ e ‘Jungfrau’ é ‘virgem’ – mas também pode ser algo como ‘mulher jovem’. ‘Estrela-do-mar’ é ‘Seesterne’, que é literalmente como se nós escrevêssemos ‘estreladomar’; e que, assim, tudo junto, também parece meio estranho à primeira vista. Os números, em alemão, também são escritos assim, tudo junto – por isso existem palavras assustadoras como ‘vierhundertdreiundachtzig’, que significa 483. Mas é só escrever ‘quatrocentoseoitentaetrês’ para ver que nossa grafia dos números não é assim tão mais fácil, não.

6 – Aliás, os alemães trocam, em relação ao português, a posição das dezenas e das unidades: dizem ‘seis e vinte’ (‘sechsundzwanzig’), por exemplo, em vez de ‘vinte e seis’. Mas vamos combinar que isso não é nada comparado ao jeito que os franceses escolhem para falar alguns números…

7 – O alemão tem alguns fonemas que não existem em português. As maneiras de pronunciar o ‘r’, o ‘ch’, até mesmo o ‘g’, que pode virar quase um ‘ch’ se estiver em final de palavra… O ‘ü’, por exemplo, que as pessoas têm mania de pronunciar como se fosse um ‘i’, fica, na verdade, no meio do caminho: a manha é fazer a boca que você faria para pronunciar um ‘u’, e pronunciar um ‘i’. Assim como o ‘ö’: boca do ‘o’, pronúncia do ‘e’ – e sai uma coisa que não é nenhum dos dois. Parece bobagem, mas faz diferença: ‘schon’ quer dizer ‘já’, mas ‘schön’ quer dizer ‘bonito’, ou ‘bom’, dependendo do caso. O ‘s’, quando vem antes de ‘p’ ou ‘t’, vira quase um ‘x’: ‘sprechen’ (‘falar’) é pronunciado ‘xpréchen’. Ah! O ‘j’ sempre tem som de ‘i’ (a não ser em palavras estrangeiras que foram adotadas pelos alemães, como ‘journalist’); o ‘g’ sempre tem som do nosso ‘gu’, sem a agora falecida trema (‘gestern’, que significa ‘ontem’, por exemplo, é pronunciado ‘guéstern’); o ‘v’ sempre tem som de ‘f’ (‘Vater’, ‘pai’, é pronunciado ‘fáta’); o ‘w’ sempre tem som de ‘v’ (como em ‘Wurst’, ‘linguiça’, que se pronuncia ‘vúrst’); e você quase sempre vai usar um ‘k’ quando, em português, usaria um ‘c’. Pode ser que, no começo, você rale um pouco para aprender a pronúncia e a grafia corretas. Mas, depois que se pega o jeito, o difícil é esquecer.

Eu não vou dizer que esta é uma língua fácil – tanto que eu estudo alemão há oito anos, veja bem, e não saio por aí dizendo que falo alemão. Eu digo que estudo alemão. Para falar mesmo, acho que só se eu fosse passar uma boa temporada na Alemanha. Mas, como eu já disse antes, essa parte do desafio me empolga – e acho que qualquer desafio é empolgante, seja em relação a qual aprendizado for. Por que você não experimenta? 😉