Um dia, aqui na empresa, organizaram um evento desses tipo gincana – dos quais algumas pessoas não têm muito tempo (ou vontade, sejamos honestos) de participar. Quando vieram me perguntar se eu iria participar, eu falei: “Não, valeu. Mas fala com o resto da equipe, não sei se eles não vão” – porque é claro que eu não podia responder por todo mundo. A mesma pessoa perguntou também para minha amiga, que trabalha aqui, de frente para mim; e ela ficou sem jeito de dizer que não. “Uhn, não sei ainda”, enrolou. “Eu estou com bastante demandas, sabe. Vou ver.” E, quando a moça saiu, olhou para mim e confessou: “Ai, eu queria ter essa coragem de dizer não.”

solitário

Fiquei pensando como ela não foi a primeira a me dizer isso – e como isso é esquisito. Sabe aquele meme que fala “não sou obrigada”? Eu acho que é basicamente isso: a gente não é obrigado. A quase nada. No fundo, no fundo mesmo, a nada – como diz minha mãe, a única coisa que a gente tem que fazer nessa vida é morrer; o resto a gente só faz voluntariamente. Com consequências mais ou menos graves, é claro. Talvez não vá parecer tão legal aos olhos de meus colegas, mas, se eu não quiser participar da gincana, não participo. Talvez eu vá engordar um pouco e perder condicionamento físico, mas, se eu não quiser ir para a academia, não vou. Talvez eu perca meu emprego, mas se eu não quiser mesmo ir trabalhar, talvez nem trabalhar eu vá! Sim, existirão consequências, mas é por não querer as consequências que às vezes eu me obrigo a fazer isso ou aquilo. Mas faço por mim. Claro que todo mundo gosta de ver um amigo feliz, por exemplo – e talvez você não quisesse tanto assim ir na festa de aniversário do seu amigo, mas foi para fazê-lo sorrir. Aí tudo bem – mas quem disse que você precisa viver para agradar gente que às vezes não tem nada a ver com a sua vida?

obrigação

Não sou obrigada. Não sou obrigada a conversar com aquela pessoa que puxou assunto comigo no ônibus, por mais educada que ela tenha sido. Não sou obrigada a aceitar convites para programas que absolutamente não me atraem. Não sou obrigada a parar tudo e ajudar meu colega, caso esteja atolada em demandas mais urgentes. Não sou obrigada a ir ao almoço de família, com aquele monte de familiares que são quase estranhos para mim. Não sou obrigada a ouvir piadinhas de que não gosto e aturar gente engraçadinha que age como se eu tivesse dado intimidade para isso. Não sou obrigada a aceitar convite de amizade no Facebook de pessoas com quem nunca troquei mais que um ‘bom dia’. Não sou obrigada a participar da campanha, do protesto, da vaquinha, da rifa. Não sou obrigada a aparecer na foto, se não gosto de foto. Não sou obrigada a trocar beijos e abraços com quem não é meu amigo, se me sinto desconfortável com contato físico. Simplesmente não sou.

Uma vez, há uns bons anos, um conhecido meu me chamou para uma festa que exigia trajes formais, e eu, sem a menor vontade de comparecer, aproveitei: “Não sei. Acho que não tenho roupa.” E ele, rápido, cravou: “Quem quer, acha um meio. Quem não quer, acha uma desculpa.” E eu adotei para a vida. Quando percebo que estou inventando desculpas na minha cabeça, percebo que não quero. E troco a desculpa por um não. E quer saber? Também prefiro que me digam não em vez de ficar me enrolando. Sabe quando você chama alguém para sair e a pessoa responde “Vou ver”? Sabe quando você pede a opinião de alguém e a pessoa responde “Pode ser” – que é muito mais um não tímido do que um sim? Não gosto. Não quer, diz. Não gostou, fala. Talvez eu nunca vá saber que estou convidando você repetidamente para um programa que você nunca vai aceitar se você não tiver a sinceridade de me dizer isso com todas as letras.

preguiça

É claro que eu não estou dizendo para todo mundo virar um egoísta antipático e sem educação, mas dá sim para pensar um pouco mais nos próprios desejos e necessidades – e dizer não sem ofender o outro. E sem precisar gastar a criatividade para inventar desculpas mirabolantes.