Existe uma situação – tão comum na vida de tanta gente – que realmente bota à prova a paciência, os nervos e a educação de qualquer um: usar o transporte coletivo urbano. Quem não depende de ônibus, trem, metrô ou o que seja pode achar que é frescura – ah, não deve ser assim tããão ruim, vai. Olha, assistindo de fora, no seu carro com ar-condicionado, que nunca “sai do ponto” atrasado e onde você nunca precisa andar em pé, deve ser fácil falar. Mas depender de transporte coletivo é complicado. Não à toa, eu brinco que, quando estou no ônibus, mudo de personalidade: viro a dark Nina, que tem uma tendência um pouco maior a, bem, talvez, odiar um pouquinho as outras pessoas. Porque não é fácil. Tudo irrita. Andar de transporte coletivo atrasa a vida – em tantos minutos ou horas por dia que eu tenho medo de calcular quanto tempo isso soma em um ano. Ou nos quinze anos durante os quais eu venho andando de ônibus. Socorro – não é à toa que eu já cansei.

ônibus

Mas grande parte do stress vem justamente das outras pessoas – e da falta de cuidado de cada um com o vizinho de banco ou de corredor. É sério: eu acho que, para andar de ônibus (substitua pelo meio de transporte público de sua preferência), devia haver um tipo de licença, assim como existe uma licença para andar de carro ou de moto. Um manual de boas maneiras. Uma cartilha de procedimentos que facilitariam e melhorariam a vida de todo mundo. Com tanto tempo de ônibus no currículo, eu tenho algumas sugestões:

1 – Procure e pegue o seu cartão ou o seu dinheiro antes de entrar no ônibus – e não depois, lá dentro, parado na frente da catraca, empacando a vida de todo mundo que está atrás de você. Depois que o ônibus começar a andar e você precisar das mãos para se segurar, vai ficar feliz por ter pensado nisso antes.

2 – Sentado na janela ou no corredor, tente ficar no seu banco: feche as pernas; deixe suas sacolas e mochilas no chão ou no seu colo (não no do vizinho); não distribua cotoveladas enquanto estiver usando o celular. A grande maioria das pessoas não se sente confortável sendo tocada por estranhos – imagine carregando um deles no colo.

3 – Quem estiver na janela decide se ela fica aberta ou fechada. Eu sei – é meio chato quando está tudo fechado, e você acha que vai sufocar; ou quando está tudo aberto e você está morrendo de frio. Mas, nesses casos, é legal dar uma perguntada para o vizinho antes de sair escancarando ou lacrando tudo. No final das contas, é quem está na janela que vai levar chuva e vento na cara – nada mais justo do que se informar a respeito do eventual incômodo dele com essas coisas.

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4 – Se estiver sentado, não custa se oferecer para carregar as bolsas de quem está em pé. Se estiver em pé e ninguém se oferecer, paciência: coloque as bagagens no chão, entre suas pernas, especialmente aquela mochila de viagem que bloqueia o corredor inteiro – quem está tentando passar por trás de você não tem culpa da falta de solicitude de quem está sentado.

5 – Outra dica para quem está em pé: quem está sentado não é apoio – nem para suas coisas, nem para suas costas, imagine então para qualquer outra parte sua! Por mais que algumas curvas – e alguns motoristas apressados – dificultem a coisa, tente não encostar, não se apoiar, não jogar seu peso em cima de quem for. Poucas situações são mais desconfortáveis e constrangedoras do que essa.

6 – Não tem nada de errado em sentar nos degraus da escada – mas, por favor, levante-se e dê passagem quando alguém quiser entrar ou sair. Ninguém é obrigado a pular por cima de você. E ninguém, acho, sabe voar.

7 – No ônibus lotado, o lugar que acabou de ficar vago é de quem estava em pé na frente dele – por uma questão de organização, por favor. Nada mais vergonhoso do que aquelas pessoas que querem se espremer na frente das outras para sentar, como se fossem mortas de fome diante de uma refeição. Todo mundo quer sentar. E, ao contrário do que a sua mãe pensa, você não é assim tão especial.

8 – Ceder lugar para quem mais precisa é sempre bom – mas um pouco de bom senso não faz mal a ninguém: entrar no ônibus morrendo para carregar seu filho de sete anos de idade nos braços para ver se alguém cede o banco fica bem feio, hein? E não adianta querer que deixem seu filho sentado sozinho se você o fez pular ou passar por baixo da catraca para não pagar passagem: se ele não pagou, fica no colo e cede a vez para quem pagou. Aliás, não preciso nem dizer que bagagem não senta, né? Por mais que você esteja carregado, não ocupe bancos com suas bolsas e sacolas. Não dá exatamente para dizer que “o chão está aí para isso”, mas, bom, também serve.

9 – Caso a entrada e a saída sejam feitas pela mesma porta, antes sai o pessoal que quer sair, para depois entrar o pessoal que quer entrar. É uma questão física: vai sobrar mais espaço, gente. E não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

10 – Pensei em escrever “não fure fila”, mas se alguém ainda não sabe que não se deve furar fila – e não só no transporte urbano -, eu começo a pensar em desistir da humanidade. Espero do fundo do coração que esse tópico seja óbvio para todo mundo.

metrô

No final das contas, acho que todas essas dez ideias passam, mais ou menos, pelo mesmo conceito básico: precisamos tratar o próximo com um pouco mais de educação – respeitar mais seu espaço, e se colocar um pouco mais no seu lugar. Sabe aquela história – trate os outros como você gostaria de ser tratado? É mais ou menos isso.

E essa lição não vale só para o transporte coletivo – mas para todas as situações em que precisamos conviver de um jeito mais, digamos assim, direto. Que são muitas. Todos os dias, em vários momentos de nossos dias. Em muitos deles, nós vamos mesmo querer dar uns berros. Mas aos poucos a gente aprende a não deixar o nosso lado dark aflorar. É só respirar fundo e ajudar, com a própria atitude, a melhorar as coisas.

Vai ser bem mais fácil quando todo mundo estiver se esforçando.

Ah, esse texto foi originalmente escrito para outro blog, em parceria com a minha irmã (L) – que, felizmente ou infelizmente, já dividiu muitas viagens de ônibus comigo.