Eu me considero uma pessoa bem pouco tecnológica – sei que isso é meio irônico, já que sou jornalista, tenho um blog e trabalho o tempo todo com redes sociais, mas é verdade: na minha vida pessoal, fora do ambiente de trabalho, eu sou uma das pessoas menos conectadas que conheço. Não tenho nem smartphone – meu celular é um Nokia que não é nem touchscreen. Não uso WhatsApp, e fui criar Instagram só no começo desse ano: minhas redes sociais são o Twitter e o Facebook, e, olha, confesso que eu nem gosto tanto assim do segundo. Uso mais por praticidade – é um jeito fácil de manter contato com as pessoas sem ter exatamente que fazer muito esforço.

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Então, é, eu tenho mesmo uma certa preguiça disso tudo – e um certo estranhamento diante dos hábitos das pessoas que são mais online que eu. Uma coisa que eu acho esquisitíssima, por exemplo, é a mania de fotografar ou gravar tudo: um dia alguém aqui na empresa trouxe um livro de gravuras, e a primeira coisa que quase todo mundo fez foi fotografar – sem nem ver o livro direito; porque, aparentemente, mostrar para os outros é mais importante que observar a novidade você mesmo. Mas, ranzinzices à parte, pensando nesses meus estranhamentos, eu tive, esses dias, uma impressão meio contraditória: a de que todo mundo, mesmo as pessoas super conectadas, tem um pouco de preguiça de manter contato com todo mundo o tempo todo – preguiça (ou medo?) do comprometimento que manter contato exige. E é por isso que a praticidade do Facebook faz tanto sucesso.

Porque o contato mais, digamos assim, direto, é cada vez mais raro – e eu nem estou falando do ‘ao vivo’ no sentido presencial, estou falando do ‘ao vivo’ no sentido de simultaneamente, de ao mesmo tempo. Repare: muita gente, muita gente mesmo, diz que odeia falar ao telefone, mas manda mensagem de voz quando está com preguiça de digitar – então o problema não é exatamente usar a voz. E, convenhamos, seria muito mais prático fazer uma ligação de três minutos e deixar tudo resolvido do que trocar cinco ou seis mensagens de voz, picotadinhas, com pedacinhos de informação. Mas as mensagens de voz, assim como as mensagens de texto trocadas no WhatsApp, no Facebook ou onde for, tem uma aparente vantagem: não são ‘ao vivo’. Não são ao mesmo tempo. Se o seu amigo perguntar, em uma ligação telefônica, ao vivo, se você quer sair para tomar uma cerveja hoje mais tarde, você vai ter que responder na lata – é sim ou não, e talvez uma explicação do porquê. A mensagem – mesmo visualizada – dá mais tempo para pensar. Será que eu quero? Acho que vou perguntar para aquela minha amiga se ela vai também, aí decido. Vou pensar até o final do expediente, aí respondo. Aí, até lá, se não estiver a fim, eu já vou ter inventado uma desculpa convincente.

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Não queremos o compromisso de ter que reservar um tempo de vez em quando e ligar para aquela amiga que mora longe, para saber como está a vida dela: somos informados pelas fotos do Instagram, e distribuímos umas curtidas para mostrar que estamos sabendo e nos importamos. Não precisamos tirar um sábado para dar carinho e atenção para a avó, a tia, os primos que eram os melhores amigos de infância: todos eles têm Facebook, afinal de contas, e não há nada mais eficiente que uma mensagem fofinha para nos fazer os melhores netos, sobrinhos e primos do mundo. Não precisamos de um churrasco anual para manter contato com a turma da escola (porque ninguém tem tempo de organizar uma coisa dessas, por favor) – é só criar um grupo no WhatsApp, trocar uns memes de vez em quando, e tudo certo. Não precisamos nem nos planejar com antecedência para ir ou não àquele evento para o qual formos convidados: podemos confirmar presença, mas todo mundo sabe que só uns 30% de quem confirma presença pelo Facebook realmente comparece ao evento, certo?

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Convivência social de verdade exige dedicação e a roupa certa, gasta gasolina e nos tira da cama em noites geladas de outono para passar frio no boteco da esquina. Convivência social de verdade sacrifica sábados de às vezes desejada solidão para comparecer ao aniversário do amigo, afinal, aniversário não dá para adiar – e, espera, antes você ainda precisa pensar em um presente. Convivência social de verdade às vezes significa passar calor em um ônibus lotado a caminho da praia, chegar acabado no trabalho na segunda-feira de manhã, e gastar mais que o planejado com aquela viagem em turma. Convivência social de verdade significa levar em conta os horários, compromissos e vontades do outro, e não só os seus.

Convivência social de verdade dá trabalho. É verdade: estamos mais conectados do que nunca – só perdemos o contato com seja quem for se um dos dois envolvidos assim desejar. Talvez nunca tenhamos conversado tanto, mesmo que muito mais usando os dedos do que a boca e os ouvidos. Mas queremos botar nisso tudo o menor esforço possível – porque talvez, bem no fundo, estejamos mortos de preguiça uns dos outros.