Eu gosto de viajar sozinha – o que não quer dizer, é claro, que eu não goste de viajar acompanhada: acho que tudo fica muito mais divertido na companhia de amigos; e quem não gosta de uma viagem a dois? Mas a questão é: não vou deixar de viajar caso não encontre companhia. E não vou aproveitar mais nem menos – vou aproveitar de uma maneira diferente.

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Eu aprendi isso, principalmente, viajando para ver shows: moro em Florianópolis, que geralmente – e infelizmente – fica de fora das grandes turnês internacionais; e, como todo mundo que me conhece sabe, sou fissurada por uma boa apresentação ao vivo. Mas muita gente (meu namorado inclusive, e a maioria dos meus amigos) tem preguiça da mão de obra, ou dó de gastar tanto “só” para ver um show. Então eu nem espero por ninguém: já compro os ingressos, as passagens, reservo hotel – ou o sofá na casa de um amigo -, me programo e vou. Nessas horas, não tenho preguiça. Muito menos desanimo com a falta de companhia. Bastante gente estranha: “Mas você veio sozinha?!” Pode ser porque eu sou mulher – muita gente ainda acha esquisito ver uma mulher viajando sozinha, ainda mais para, por exemplo, ir ao festival Monsters Of Rock, em São Paulo (e eu não vou nem começar a comentar o quanto essa ideia é errada, senão o texto vai ser só sobre isso). Mas acho que muito do estranhamento vem mesmo do fato de que as pessoas acham que alguém que está sozinho parece automaticamente uma coisa meio triste. Como se todo mundo que estivesse sem mais ninguém por perto fosse um pobre coitado sem amigos.

Talvez eu tenha me acostumado a fazer as coisas sozinha porque fui solteira durante vinte e dois anos – e, mesmo que não possa reclamar de falta de amigos, às vezes ficava mesmo sem companhia, quando todo mundo estava por aí com seus pares. E aprendi que aquela frase manjada que diz que estar sozinho não é necessariamente o mesmo que estar solitário é pura verdade. Eu gosto mesmo da minha companhia. Acho que um tempo consigo mesmo é até saudável – um espaço para botar os pensamentos em ordem, se entender, ou simplesmente dar uma folga para o cérebro e não pensar nem falar nada. Em um mundo tão cheio de gente, de barulho, de informação, eu acho que isso é uma das definições mais exatas que eu poderia dar para a palavra “paz”.

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Eu gosto de me acomodar na poltrona do ônibus ou do avião, colocar meus fones de ouvido e não me preocupar com nada além da música e da paisagem conforme viajo para longe. Gosto de matar tempo naquela conexão no aeroporto lendo um bom livro, em vez de reclamando com alguém sobre a demora para o embarque começar. Gosto de andar sozinha por uma cidade mais ou menos desconhecida, usando o Google Maps para me orientar – e descobrindo coisas pelo caminho; um café aconchegante, uma livraria, um brechó. Gosto de chegar sozinha na fila do show e puxar assunto com quem estiver logo à frente ou atrás de mim – viaje sozinho e ganhe um novo amigo de brinde.

Mas viajar sem namorado, família ou amigos é meio que um nível expert em um jogo que a maioria das pessoas ainda não está acostumada a jogar nem no nível iniciante: estar sozinho, simplesmente. Muita gente fica angustiado só com essa ideia – imagine com colocá-la em prática. Passar um dia inteiro sozinho em casa? “De jeito nenhum! Não consigo.” Okay, e que tal sair sozinho? Dar uma caminhada na praia, no parque; ver um filme no cinema? “Ah, não é meio depressivo?” Não, não é. É uma ótima maneira de passar o tempo. De perceber as coisas com mais atenção. De se perceber com mais atenção. De aprender mais sobre si mesmo.

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Eu não estou dizendo para você dispensar o próximo convite dos seus amigos em favor de sua própria companhia – só estou sugerindo que, da próxima vez em que essa companhia faltar, você aproveite a sua própria. É aquela velha história: como os outros vão gostar de estar com você, se nem você mesmo gosta? E, quando aprender a gostar, você nunca mais vai perder um passeio, um programa ou uma viagem legal por falta de parceria – quem sabe por lá você já conheça quem vai ser sua companhia da próxima vez? 😉