É quase meia-noite. Faz frio – muito frio para quem saiu de casa desprevenida e só levou roupa de verão. Estou de short jeans, camiseta regata e tênis, e sem um casaco por perto. Para completar, tomei chuva – meus All Star estão encharcados; e quem consegue ficar quente quando os pés estão gelados?! Comprei uma capa de chuva vagabunda, que agora, depois do fim da chuva, continuo vestindo; como um substituto não muito eficiente para um moletom. Ao contrário do que normalmente gosto de fazer, me enfio bem no meio da multidão – pelo menos as pessoas formam uma barreira contra o vento. Tenho fome. Tenho sono. E tenho menos de seis horas antes que meu avião decole no aeroporto, para me levar de volta a Floripa – e direto ao trabalho, porque não é final de semana nem feriado.

Menina na Chuva

O cenário parece meio apocalíptico, mas não é nada demais: só estou na fila esperando a van que, ao fim do show dos Rolling Stones, me levará de volta ao hotel – e, se os céus permitirem, a um banho quente e algumas abençoadas horas de sono. Ali, passando frio e morrendo de fome, eu só consigo pensar nessas coisas básicas: tirar os tênis molhados. Trocar de roupa. Comer, por favor. Dormir. Não consigo nem me alegrar ou ficar pasma com o quanto o show que eu acabei de ver foi incrível – e foi, acredite em mim. Mas todo mundo parece meio mal-humorado: braços cruzados, caras fechadas, queixos batendo. É como se, passando por esse tipo de necessidade, nosso cérebro fosse reduzido aos instintos mais básicos. Não preciso de Rolling Stones para sobreviver – preciso de comida!

Quando a van chega, não existe solidariedade ou sequer gentileza: todo mundo corre para a porta, se atira lá dentro, quer garantir um lugar o mais rápido possível – dá a impressão de que quem se meter no caminho vai levar uma mordida. Novamente, os instintos: é difícil pensar nos outros quando estamos, nós mesmos, tão desconfortáveis. Na verdade, é difícil pensar até mesmo nos nossos próprios desejos mais supérfluos: quantas vezes, durante um passeio ou viagem, você decidiu ir para casa mais cedo porque os pés já estavam doendo, porque a pele já estava queimada de sol, porque não queria perder o último ônibus da noite e depois sofrer na disputa por um táxi (okay, pelo menos antes de inventarem os aplicativos)? Aposto que depois você se arrependeu – droga, eu devia ter dado mais uma volta na montanha-russa. Devia ter voltado àquela lojinha para comprar um suvenir. Devia ter tido paciência para procurar o melhor ângulo para aquela foto.

Kill him

Mas isso tudo você pensa depois – quando está confortável, bem alimentado, quentinho (ou fresquinho, depende do incômodo original), limpo, descansado. Na hora, nada disso importa. Na hora, um miojo e uma cama são muito mais interessantes que qualquer ponto turístico. Essa não foi a primeira vez em que eu passei por isso: achei que ia morrer na saída do show do Paul McCartney em Floripa – a dúvida era apenas se a causa mortis seria frio, fome ou cansaço generalizado. Quase chorei de dor nas pernas no finalzinho de um festival em São Paulo, em 2014. Nessas horas eu até me pergunto por que diabos eu faço isso comigo mesma. Será que eu me odeio? Será que sou masoquista? Mas no fundo eu sei que não é nada disso: qualquer amante de shows (ou de viagens, ou de trilhas, ou de qualquer outra coisa que seja divertida e cansativa na mesma medida) sabe que, na hora, nada disso passa pela cabeça. Quando a música começa, você esquece a chuva, esquece as bolhas nos pés, esquece o calor. Tudo é maravilhoso. Tudo é incrível. Tudo é diversão.

Público Show

Você vai lembrar – e talvez, por um ínfimo segundo, se arrepender – assim que as luzes se apagarem. Assim que aquela dor na lombar der olá. Assim que você notar suas roupas molhadas – de suor e de chuva – grudando no corpo. Assim que lembrar que, no desespero da sede, pagou 8 reais por um copinho de água. Mas tudo isso vai pelo ralo com a água do banho que você vai tomar chegando em casa ou no hotel – e as lembranças vão fazer tudo valer a pena. Aquela música favorita grudada na cabeça, em uma exclusiva versão ao vivo, por dois ou três dias. As fotos. Os vídeos. A consciência de que você viu pessoalmente, de perto, um artista que talvez vá ser lembrado daqui a 50, 100 anos – boa história para contar para os netos.

E pode ter certeza de que eu vou estar no próximo show internacional que acontecer aqui por perto (às vezes, nem tão perto assim). Vou passar frio e calor, vou ficar incrivelmente exausta, vou pagar vinte reais em um cachorro-quente ruim quando a fome apertar. Mas vai valer a pena.

Ai de quem se meter na minha frente na fila da van.